Inuisus natalis adest, qui rure molesto
et sine Cerintho tristis agendus erit.
Dulcius urbe quid est? An uilla sit apta puellae
atque Arretino frigidus amnis agro?
Iam, nimium Messalla mei studiose, quiescas;
non tempestiuae saepe, propinque, uiae.
Hic animum sensusque meos abducta relinquo
arbitrio, quamuis non sinis esse, meo
Chega o odioso natal
e no incômodo campo, triste,
sem Cerintho, será passado
Ou há algo mais agradável
que a cidade? É por acaso
a villa apta à mulher
E o gélido rio Arretino?
Demasiado, meu Messala,
descanse. Pois são muitas vezes
inoportunas tais viagens
Deixo aqui, rapta, minha alma,
e o pensamento, por vontade,
por mais que não me deixes tê-la.
Sulpícia
(tradução minha)
Achei interessante falar desse poema. Não que eu me sinta dessa maneira, mas é um poema, digamos, apropriado, e interessante. Sobre a poetisa, quase nada se sabe realmente de Sulpícia, uma das suposições que são feitas, baseadas justamente neste poema, é que ela tenha sido sobrinha de Messala, o grande patrono da poesia latina da época (aliás, é o mesmo Messala do filme Ben Hur). Os textos foram legados inicialmente no livro terceiro de elegias de Tibulo, onde se diz estes versos terem sido escritos por uma tal Sulpícia, por falta de outros dados, é basicamente isto que nós temos, isto é, nem certeza de que eles pertençam a uma pessoa ou a uma persona.
Mas se de fato forem estes versos (um corpus de não mais de 40 versos) dessa Sulpícia sobrinha de Messala, serão estes os únicos versos que temos de uma escritora latina. Daí o interesse que se tem por estes versos. Ainda que não estejam no mesmo nível sequer de Tibulo, não podemos reputá-los de ruins, há numerosos indícios de que ela conhecia muito bem o código da Elegia Romana, e a sinceridade nos lembra um pouco de Catulo, apesar da menor destreza no uso da língua.
É provável que ela não tenha sido a única escritora, aliás, alguns testemunhos pictóricos e os graffitti de Pompéia mostram que as mulheres tinham, ao menos o domínio da escrita. Não há registro, entretanto, de haver alguma publicação de textos de escritoras, primeiro porque a "publicação", na época, só vinha depois da fama do poeta e provavelmente nenhuma mulher, por diversos fatores, conseguiu ter sua obra escrita. Além disso é importante lembrar que todas as poetisas gregas, Safo e Corina à frente, não tiveram a benevolência dos copistas cristãos, apesar de toda a fama da primeira.
Posted by Bruno Hohenstaufen at abril 28, 2004 8:10 PM