Fui apresentado a este ídolo das massas em janeiro ou fevereiro de 2002, conversando no ICQ com um habitante da Terra do Fogo, ou da Patagônia, algum desses lugares remotos da América. Falávamos sobre escritores argentinos, Jorge Luis Borges, que estava descobrindo à época e Júlio Cortázar que não estava descobrindo à época. Não sei se foi alguma falha do meu castelhano, o sei lá o que, que fez ele dizer que, além de Borges e Cortázar, me gusta mucho Bukowski, conoces?
Ainda não entendo o que em Borges e Cortázar pode ter feito nosso amigo achar que eu gostaria de Bukowski, às vezes nada mesmo, só sei que, desconhecendo completamente o dito, afirmei que não conhecia, mas procuraria ler algo na net. O patagônio logo me incentivou e recomendou alguns livros "deste grande poeta", para eu ler. Acessei o Google, com aquela esperança de encontrar uma chef d'oeuvre inconnu e o que achei foram alguns poemas em uma coletânea e os li. É escusado dizer que os achei horríveis. Prontamente despedi-me do patagônio, com certo medo de que ele ainda me recomendasse Jack Keruac, John Fante, ou de que me contasse suas aventuras sexuais com prostitutas indígenas da região.
Por quase dois anos esse nome permanaceu para mim como sendo de um poeta medíocre e outsider que ninguém inteligente leria. Nenhum dos meus amigos me falou dele (meus amigos são de alto nível, não mexo com a escória), também ele não foi citado por nenhum livro ou professor, muito menos pelos que interessavam. O silêncio, porém, se interrompeu há alguns meses, quando comecei a ler alguns blogs culturais, vi que muitas pessoas gostavam de Bukowski, mas invariavelmente, os que mais respeitava ou não citavam, ou o faziam com um certo escárnio.
Quando entrei no Yakult, fiquei impressionado como havia pessoas que gostavam desse velho, logo pensei nossa, como esse lugar é mal freqüentado. Os via como devassos, seres curiosos que não eram muito normais, e quando se dirigiam a mim, os imaginava manquitolando, insinuando-se com seu bafo de cachaça virtual, como uma triste minoria excluída na sarjeta. Mas não, entre a "elite" cultural, id est, as pessoas que efetivamente lêem alguma coisa, daqui, ele é considerado um poeta importante e modelo de vida, etc. Tanto que seus imitadores são louvados por estas bandas como importantes escritores "vanguardistas" e tal. Pior para nós.
Ainda não considero Bukowski um escritor de relevo, o Ruy e o Mundo Perfeito já falaram o bastante sobre ele. Não vejo nele um talento poético raro, pelo contrário, qualquer sonetista é superior a ele, pelo simples fato de que se importa, o mínimo, com a poesia e não especificamente com uma pretensa mensagem, que no fundo é um moralismo às avessas. Sejamos sinceros, qualquer um escreve aquilo, vocabulário simples, sintaxe primária, sonoridade de tábua de passar roupa, a capacidade de fazer jogos de palavras e conceitos de um redator da Hora do Brasil. Onde está seu valor?
Não está em seus textos, pois Bukowski não passa de um Ossian do século XX, quero dizer, é mais admirado pelos valores que ele pretende representar do que por algum valor próprio de sua "poesia". Hoje ninguém mais lê Ossian, a poesia é de péssimo nível, mas ele fez sucesso, por supostamente representar a poesia "pura", popular, vocês devem saber como essa coisa era importante para os românticos. Bukowski vai no mesmo caminho, ele é admirado pelo que ele pretende representar, "living la vida loca", this sort of things. Ainda bem que isso passa com o tempo.
Posted by Bruno Hohenstaufen at abril 22, 2004 2:45 PM