abril 21, 2004

Enche tua barriga de iguarias; dia e noite, noite e dia, dança e sê feliz, aproveita e deleita-te. Veste sempre roupas novas, banha-te em água, trata com carinho a criança que te tomar as mãos e faze tua mulher feliz com teu abraço, pois esse també

Parte 2 - não recomendável para pessoas que não querem saber o final da história

Confesso que depois de conhecer o Gilgamesh, passei a ver minhas atividades de helenista e bizantinista com outros olhos, jamais vou reclamar das dificuldades do grego, ou do preço da edição (fora de prelo) da Belles Lettres da Cronografia do Psello, nem mesmo da distância que me separa de Atenas ou Istambul. Mesmo com os detalhes da complexa gramática grega, pelo menos há uma tradução de quase 3000 anos de transmissão ininterrupta, existem dicionários de grego há mais de 1000 anos e um corpus completo e riquí­ssimo, não tabuinhas de barro difí­ceis de ler. Os livros custam 50 euros, mas podem ser encontrados com relativa facilidade e vez ou outra são lançados aqui no Brasil. Nada que se aproxime dos preços astronômicos da edições dos textos originais (algo como 200 dólares o volume) e da necessidade de se decifrar, sempre, os textos, tendo até que adivinhar significados de algumas palavras ou coisas piores, sem contar que nem Grécia, nem Turquia se encontram em uma zona de guerra.

Outra dificuldade, se é que posso nomear assim, é que um bom número de estudiosos, não todos, mas talvez a maioria, não está interessado em estudar a cultura mesopotâmica per se, mas sim em procurar relações desses mitos semí­ticos com os mitos bí­blicos, e a maioria das pesquisas é financiada pelas Sociedades Bí­blicas mundo afora. Não que não haja relação, mas ela é sobrevalorizada e feita de uma maneira temerária, antes de se compreender a cultura estudada, que leva a um sem número de generalizações.

Apesar de tudo, foi possí­vel aos especialistas reconstruir um "ciclo" e escrever uma história minimamente legí­vel, e o que realmente me espantou foi o fato de ser um livro com uma qualidade literária muito boa. Há uma unidade que o torna muito interessante, tem um poder de comoção que não deve ser desprezado e é uma das obras mais singulares que conheço. Com efeito, este ciclo se encontra no limite do que podemos chamar de épico, as batalhas, se é que podemos nomeá-las assim, não ocupam uma posição relevante no texto completo, há logo no começo a luta com Enkidu, que acaba se tornando seu fiel amigo, e há as batalhas na floresta contra Humbaba, que não ocupam um grande volume.

Parece, então, que o mais importante da história de Gilgamesh é sua procura pela vida eterna. Filho de deus com mortal, Gilgamesh sofre com o destino que lhe foi reservado: por ser filho de deus, ganhou força descomunal e beleza inigualável, mas, por ser, também, filho de humano, ganhou a mortalidade como fardo. E é justamente o medo da morte que o move, inicialmente ele busca fazer feitos memoráveis para ter seu nome eternizado, e faz, vai até a floresta e mata o maligno Humbaba. Porém, por ter desagradado os deuses, seu amigo e companheiro Enkidu morre, o que atormenta Gilgamesh e a partir disso seu único objetivo é conseguir a imortalidade, o que faz ele viajar todo o mundo, fazer trabalhos descomunais para, no fim, não conseguir seu objetivo e morrer.

Há vários jogos interessantes no Gilgamesh, aquele mais interessante é a já citada mudança de sentido do significado da morte, no iní­cio, ela serve de estí­mulo para os dois, Gilgamesh e Enkidu, conseguirem feitos grandiosos, mas após a morte de Enkidu, Gilgamesh se torna um verdadeiro perturbado, e sua única razão de viver é simplesmente tentar continuar a viver para sempre, o que se mostra um erro. Outro jogo interessante é que o poema começa com um louvor à força da cidade de Uruk, suas muralhas, habitantes, etc, no passar da história, com todos seus acontecimentos grandiosos, esse louvor a algo completamente passageiro se torna um bocado prosaico, mas, logo após Gilgamesh ter certeza de que não conseguirá a vida eterna, ele volta a louvar a cidade de Uruk, alguns especialistas chamam esse final de zombeteiro, acho que concordo, para mim, se esse louvor for realmente intencional, é uma das passagens mais terrí­veis que já foram escritas.

É evidente que procurar um significado em texto de uma cultura tão estranha é um tiro no escuro, e bem me arrisco a fazer um julgamento incorreto. Mas o que mais me marcou nesse texto não foi o aspecto trágico de Gilgamesh e sua luta contra o destino, mas sim a mensagem da taberneira quando ele se encontra para partir à Dilmun para encontrar Utnapishtim, o Noé mesopotâmico, mensagem que usei como tí­tulo destes dois posts. Pelo menos para mim, o Gilgamesh é como um "carpe diem" épico: desista de ser bravo e seja feliz, é essa sua "moral", de nada adianta buscar o inalcançável.

Posted by Bruno Hohenstaufen at abril 21, 2004 4:35 PM