abril 12, 2004

Provavelmente não foi intencional, mas, de um modo ou de outro, o Renascimento foi, basicamente, a reintrodução da Poética de Aristóteles nas artes, primeiramente na Itália e depois no resto do continente. Podemos dizer, com todos os problemas ligados a tal redução, que o Renascimento foi o abandono da típica expressão simbólica, esotérica, medieval, em virtude de um neo-naturalismo, da imitação da natureza. Isso pode ser visto na pintura, com a busca de uma expressão mais fiel à realidade sensível, ajudada pelos desenvolvimentos científicos na perspectiva e na anatomia; e na literatura, com o abandono das práticas retóricas tardo-clássicas e medievais em busca de uma descrição mais única e precisa, abandono da forma esotérica da poesia medieval (vide a terza rima), e com a predileção por narrativas mais verossímeis, Petrarca e Boccaccio são dois exemplos característicos.

Porém, o status da música nessa transição de pensamento raramente foi pensado, e quando o foi, serviu para se criar afirmações absurdas, como a de que não houve renascimento musical. Se tal afirmação fosse válida, seria necessário refazer toda a classificação períodica da música, coisa que não foi feita. O problema da música é duplo: primeiro, a pesquisa histórica está na maioria dos casos ligada à interpretação; segundo, não há musicologia especulativa. Esse fato se agrava quando realmente notamos que a especulação musical é raríssima, e, quando existe, se assemelha mais a glosas dos filósofos franco-alemães dos séculos XIX e XX do que a algo de fato sério. A pesquisa se encontra, então, severamente prejudicada.

Acontece que o renascimento musical existiu. Sim, foi breve, mas sua brevidade não significa menor glória e importância. Pelo contrário, sua maniifestação mais evidente foi a criação da ópera, e pode-se dizer que a música moderna nasceu dos mesmos ímpetos que geraram a ópera (seria o caso de dizer que a ópera é o gênero moderno por excelência? Não sei, fica a cargo de vocês). Mas é além da ópera que temos que buscar as origens deste "aristotelismo musical", pois esta é apenas sua gloriosa, digamos, apoteose.

Estas influências, ao menos de início, foram secundárias, isto é, aconteceram mais por influência do Dolce stil nuovo do que por uma vontade de "volta às fontes". O Dolce stil nuovo, alcançando sua expressão máxima na figura de Petrarca, havia surgido com a manifesta intenção de expressar a alma interior do poeta, a poesia, então, deveria ser escrita de forma a ser o mais fiel à realidade íntima do poeta, ao mesmo tempo que deveria ser agradável e bela, daí a busca pela expressão mais preciosa e pela rima mais rica, típicas de Petrarca, Cavalcanti, Guinzinelli e o Dante lírico. Em contato com essa lírica, com essa visão de arte, músicos, pensadores, passaram a se perguntar se o mesmo não deveria acontecer com a música.

Não, esse não foi o último passo para o renascimento chegar à música. Dada essa pergunta, o fato de, nos textos antigos, a música ter um papel comovente muito forte, provocando ou lágrimas ou a maior das alegrias, também passou a ser notado. As afirmações de Platão, Aristóteles, Plutarco e Boécio sobre o papel da música como mimese dos estados de alma, foram também essenciais para esse período de "forja ideológica". Não podemos afirmar que tal movimento foi consciente, não houve alguém que tivesse escrito, até a Camerata Florentina, que a música deveria ter um determinado número de características, mas certamente serviu para modificar a visão da música e orientá-la em um sentido mimético-emocional.

Como foi da literatura que começou essa mudança ideológica, foi também nela que começaram as mudanças práticas. E no nascimento do madrigal e sua evolução e dissipação na ópera, pode ser resumida a história da música renascentista. Ele nasceu de um descolamento das canções populares (frottolle), isto é, ao invés de uma música meramente auto-referente, pensou-se como objetivo uma música que expressasse aquele novo tipo de texto. A partir daí foram criadas toda uma série de desenvolvimentos musicais com intenção expressiva, os madrigalismos, baseados ou em questões de tensão harmônica, dissonâncias, modulações, etc, ou flexibilidade rítmica, coloraturas, trinados, escalas, etc, contribuindo largamento para o nascimento da harmonia moderna.

Mas também houve uma adaptação das teorias antigas, Platão nos dá a entender que cada modo tinha uma característica própria, Plutarco nos diz que usava-se notas longas para a tristeza, e notas curtas para a alegria. Muitas vezes tratou-se de associar tonalidades e figuras rítmicas a estados de alma.

É importante notar que estes madrigalismos cedo evoluíram para uma retórica musical, algumas das convenções aí surgidas vieram a dominar toda a vivência da música tonal, como a associação de tonalidades menores com tristeza. Mas as convenções não se limitaram às que estamos mais acostumados, a ópera francesa do século XVII chegou a associar estados de alma a 16 das 24 tonalidades, sem contar um sem-número de figuras rítmicas e escalas, cada um relacionado a uma situação. Não obstante a construção desse código, a música renascentista permaneceu, sempre, com uma certa veia "expressionista", se podemos usar esta palavra.

Ainda que forme um círculo um tanto restrito de admiradores, a codificação da música foi de grande valia para o início de uma música que não fosse auto-referente, talvez a única possibilidade existente. Porém, o madrigal, de certa forma, sempre pareceu esgotar-se no texto, isto é, a música existia somente para o texto, como um suporte para sua compreensão (não devemos esquecer que era esta a função da música na Grécia), a recém-nascida ópera sofria do mesmo mal, talvez ainda mais, pois havia uma recusa dos compositores desse movimento, chamado de Camerata Florentina, em fazer uma música minimamente absoluta, ela deveria ser totalmente voltada ao texto e deveria servir unicamente para sua compreensão.

Pode-se dizer que a Camerata Florentina foi a radicalização do movimento madrigalesco, este, em sua busca de expressar o texto ainda se valia de técnicas polifônicas derivadas das escolas flamengas; a Camerata Florentina (ou Camereta Bardi, nomeada segundo o conde de Florença) rejeitava tudo que a música antiga cantava, em virtude da expressão monódica. Era uma aplicação radical dos preceitos antigos, de Boécio e Plutarco. Soa-nos um tanto estranha, e tremendamente anacrônica, essa volta a uma tradição desconhecida, mas o que ficou foi a abolição da polifonia (que era considerada o "esquartejamento" da poesia) e o estabelecimento do recitativo como o meio de expressão vocal.

Até então esta "nova" música havia se resumido a expressar o texto em si, não seria mentira dizer que ela deixou de ser ela mesma, isto é, se tornara uma arte para explicar outra arte. Também, como aconteceria não muito depois, ocorrera uma simplificação da arte musical, abandonara-se os requintes da arte antiga, e, especialmente na ópera, esse "doce estilo novo" tinha muito de rudimentar. Eis que, por fim, surge o último elo nessa cadeia de formação de uma nova poética musical: Claudio Monteverdi.

A importância musical de Monteverdi é enorme, entretanto, não raras vezes são dadas a ele inovações que ele não fez e muitas de seus valores mais importantes são esquecidos, ou trocados, por valores opostos. O principal papel de Monteverdi foi o de consolidar os novos gêneros, reformar os antigos e avançar no refinamento do nascente sistema tonal. Não é um trabalho desimportante, como se vê.

A primeira grande distinção entre Monteverdi e todo o grupo que o antecede, principalmente os músicos da Camerata Bardi, é que ele foi um músico profissional, estudou harmonia com um dos maiores teóricos de sua época: Marc'Antonio Ingenieri. Parece curioso, mas os primeiros compositores de ópera, os primeiros teóricos da ópera, eram helenistas que não sabiam grego e musicólogos com fraquíssima base musical, aliás, ainda mais espantoso, toda a ópera deriva de um erro de interpretação do Sobre a música de Plutarco.

Talvez derive dessa ignorância musical a constatação de Vicenzo Galilei (por acaso, o pai de Galileu) de que a música polifônica não era capaz de comover os homens e que, portanto, esta deveria ser esquecida em função da monodia, constatação infeliz que se tornou bandeira e identidade de um gênero- hoje em dia, basta ouvir um madrigal de Monteverdi ou uma cantata de Bach para perceber o absurdo. Os primeiros compositores de ópera permaneceram firmes e a nova ópera começou dessa forma, um espetáculo eminentemente literário, cuja "música", tanto pela rudeza quanto pelas limitações impostas por essa estética algo aberrativa, antes de significar um avanço, significou um retrocesso em relação ao madrigal e suas possibilidades expressivas.

Na próxima ocasião comento mais sobre Monteverdi e um pouco sobre seus sucessores.

Posted by Bruno Hohenstaufen at abril 12, 2004 12:18 AM