Parece que não sou apenas eu, várias pessoas no mundo se preocupam com o fato de se ler tantos escritores de má qualidade, Bukowski e Lya Luft, para citar alguns exemplos. É um tipo de escritor que não adiciona muito, quando não retira, e são pobremente escritos, nada muito útil pedagogicamente. Na verdade eu me preocupo também com "cousas maiores" (para citar um de boa qualidade): o fato de escritores medianos (Gabriel Garcia Marquez), bons (Júlio Cortázar) e muito bons (Jorge Luis Borges) serem lidos exageradamente e tomados como fim último da arte literária. Não sei se ler a obra completa de alguns escritores ou mesmo ler todo o corpus de um período ou estilo, signifique ter algum conhecimento válido. Explico, conheço uma pessoa que leu a obra completa de Mario Vargas Llosa (tá, eu sei que deve haver um pouco de masoquismo, mas nunca fui indiscreto a ponto de perguntar por isso), e, conversando com essa pessoa (estou sendo ultra indelicado, confesso), percebe-se que o fato de ter lido, sei lá, 9 ou 10 livros desse escritor não a tornou em nada mais culta ou inteligente- não emburreceu, é verdade, o que, para pessoas com 19 anos é uma vitória.
Acho que a resposta está em algo que geralmente temos medo em admitir: o hábito de leitura não é, per se, um indicativo nem de cultura, sequer de inteligência. Existe um estereótipo de que a pessoa que lê muito é inteligente- não culta, inteligente mesmo-, como se a inteligência fosse adquirida por uma longa exposição í s tintas, ou ao cheiro da cola das lombadas (se bem que esta hipótese é menos provável por excluir as edições costuradas ou grampeadas), e isso afeta mesmo as categorias mais, digamos, remediadas, da sociedade, até pessoas inteligentes e cultas caem nisso.
Vai aí a minha definição: ler é uma atividade como assistir TV ou ouvir música. Importa mais o conteúdo do que o ato, é até meio esquisito dizer algo tão óbvio. É claro que ninguém julga alguém que lê os romances de Sabrina como uma figura de vulto no mundo cultura, mas o que eu quero dizer é que a atividade de ler os romances de Sabrina não é em nada diferente da leitura de gibis do Maurício de Souza, pois a leitura, em larga escala, deve ser considerada uma diversão. Pode ser uma diversão sofisticada, de homens inteligentes e educados, mas há de permanecer como diversáo. Por isso não acho muito difícil classificar um livro como Os demônios do Dostoiévski ao lado do Senhor dos Anéis, ambos se prestam ao mesmo fim (os objetivos políticos de Dostoiévski são, hoje, absolutamente irrelevantes), o primeiro talvez seja melhor que o segundo por ser mais bem escrito, mais comovimente, ou não.
De certa forma se salva aquilo que podemos chamar de livros de formação: os livros mais importantes de filosofia, história e outras ciências, e as grandes obras literárias í s quais costumamos dar o nome de clássicas. No mínimo três blogs falam desse tipo de formação, o Noites íticas, o Alexandrinas e O Indivíduo, que pode ser levemente confundido com o que chamamos de educação liberal. Graças a isso, eu não vou precisar, no momento, falar sobre isso aqui.
Se me perguntam o que seriam as tais obras clássicas, outro dia conversava com uma amiga sobre isso, se me encarregassem de fazer uma lista das maiores obras literárias de todos os tempos, ou ela seria muito grande, ou muito pequena. Ou tereia aquilo que é absolutamente essencial, ou teria tudo aquilo que é importante. Talvez, como a idéia dos clássicos é uma idéia pedagógica, no sentido mais humanista possível da palavra, seria interessante uma leitura não cronológica, mas por etapas, do essencial (Ilíada, Divina Comédia, Dom Quixote í frente) até o menos importante.
O resto, por melhor que seja, fica sendo diversão e especialização. Você pode me argumentar que é arte, que arte não é só diversão etc. Mas, a princípio (e mesmo etimologicamente) é diversão, as outras funções da arte normalmente são construções teóricas.
Posted by Bruno Hohenstaufen at abril 4, 2004 3:52 PM