Somos tentados a acreditar que coisas que nós conhecemos desde sempre existam desde sempre, como a frase de Borges que dizia que Buenos Aires era tão eterna quanto a água ou o ar (ou coisa assim). Evidentemente que Borges sabia que Buenos Aires havia sido fundada em 1521 e blá, blá, blá, não é o caso discutir sobre ele, o caso é que essa impressão de aere perennius existe para uma quantidade de assuntos e conceitos que estão longe de serem eternos ou perenes.
Ontem mesmo, graças a um livro que ganhei, La vida literaria en la Edad Media (La literatura francesa del siglo IX al XV) estes pensamentos me invadiram. É extremamente sedutor para nós, depois de quase dois séculos de "evolução" da literatura, pensar que haja uma "história" da literatura, que ela tenha "desenvolvido", de um protozoário inicial, até formas mais complexas e, portanto, mais belas. A mente razoavelmente romantizada do homem médio deixa-se enganar por isso. Imagina-se que, por exemplo, a literatura tenha evoluído de Homero e por uma maior racionalização e domínio dos metros, tenha chegado aos trágicos, e deles, por uma racionalização ainda maior, chegou-se a Platão. Essa é uma linha de pensamento muito comum, mas extremamente complicada, pois não dá para negar, por exemplo, o influxo homérico em Platão, como nos mitos que ele criava para explicar dados do mundo, coisa que não ocorre em Eurípides.
Destarte, escrever uma história da literatura é se propor a fazer elos muito perigosos. Afinal, qual é a premissa básica para se fazer uma história da literatura? É acreditar que a sucessão de eventos literários tenha uma lógica claramente definível e que estes eventos se encadeiem de forma coerente. E o grande sonho de todo estudante da literatura de um determinado período é descobrir que as obras dentro desta época tenham uma relação maior do que o fato de pertencerem í mesma janela de tempo. Tudo isso que eu disse não é de fácil demonstração, mas não é impossível ter uma idéia do fenômeno.
Alguns exemplos interessantes. O estudioso do romance grego uma hora ou outra vai se encontrar com o tal do "problema das fontes": não há uma teoria aceita para seu surgimento e costuma-se dizer que ele surgiu de uma mistura da retórica com a historiografia e a epistolografia, o problema é não há nenhum registro que comprove esta teoria, que não passa de mera especulação. Outro exemplo: geralmente costuma-se dizer que o romance de corte (Roman courtois) francês de Chrétien de Troyes, nasceu das canções de gesta, sendo que são contemporâneas, nasceram praticamente juntas, e a única coisa que têm em comum é o fato de contar histórias em versos, o que faz essa aproximação ser um tanto aberrativa. Isso para não falar na controvertidíssima questão da origem dos trovadores, disputa onde todo mundo manda seu palpite mas ninguém parece se concordar.
Qual é o grande problema da história da literatura? Primeiro, muitas vezes, o desenvolvimento de um gênero ou de um estilo não decorre de outro visível mas, por exemplo, de uma tradição popular não documentada ou de algo que não era antes considerado literatura, o que faz com que esses desenvolvimentos não sejam sequer perscrutáveis; depois que a história da literatura apresenta um caráter episódico e particular ainda maior do que a história geral (lembremos-nos de Aristóteles, lembremos-nos de Aristóteles), pois é a regra que o desenvolvimento de um gênero, de um estilo, dependa tanto ou mais da habilidade de um escritor (exemplo: Petrarca, que se impôs aos dialéticos) quanto daquela ideia hegeliana de Zeitgeist, resumindo: nem sempre a literatura exprime os pensamentos de seu tempo. Querer teorizar ou explicar algo tão aleatório quanto isso é, em si, um erro.
E acho que as pessoas ficariam ainda mais assustadas em saber que até o século XIX esse meu pensamento era comum. Foi o século XIX que resolveu achar que literatura era uma ciência como a biologia e que era dominada por regras facilmente compreensíveis, foi também esse século que inventou a tal da evolução, extremamente necessária para embrionária noção de vanguarda. Esta vanguarda só existe pelo fato de as pessoas que teoricamente participam dela, da guarda avançada, estariam contribuindo para levar a literatura, toda a arte na verdade, ao futuro, para poder, de algum modo levá-la a um ponto superior onde seria capaz de atingir uma expressão melhor, ou mais fiel.
Quando se critica a evolução, isto é o fato de não haver um movimento ordenado e nem que ele vá em direção a algo que seja melhor ou mais expressivo, não faz mais sentido uma obra ser vanguardista ou não e ela passa a ser avaliada como qualquer outra obra. Isto é um golpe fatal para seus desejos. Parece não muito exagerado, portanto, supor que a história da arte surgiu para legitimar um movimento que é anti-estético por natureza.
Posted by Bruno Hohenstaufen at março 26, 2004 10:16 PM