março 25, 2004

The righteous shall be had

The righteous shall be had in everlasting remembrance

Muito me impressiona que as pessoas fiquem assustadas com a noção de uma guerra santa, dizendo que seria contraditório, não faria sentido, pois a guerra seria exatamente o oposto da santidade et cetera (ou et coetera, para os medievalistas)... Quem diz isso provavelmente é budista ou coisa do gênero, huius modi, ou melhor, huius soli modi a religião está ligada í  passividade máxima pregada pelos pacifistas mais radicais. Afinal, praticamente todas as religiões estão ligadas í  guerra, seja uma ligação í s vias de fato, ou seja uma guerra simbólica.

De todas, a religião que mais assusta nesses tempos em que é "politicamente correto" ser pacifista é a antiga religião germânica. Nessa religião a única maneira de se conseguir o favor dos deuses é através da bravura na guerra, e também é por uma morte gloriosa que se consegue chegar ao Valhall, o que seria uma espécie de "paraí­so". Essa crença na "salvação" da guerra entrou de uma forma interessante em algumas manifestações cristãs: a Chanson de Roland apresenta isso, não sendo mais a guerra e a coragem em si, mas, para os douze pairs de France, pelos pecados que cometeram em vida, a única forma de salvação é lutar pelo "aumento da tão pequena Cristandade". Algo parecido ocorre em quase todas as epopéias cristãs e também, por exemplo, no Auto da Barca do Inferno, mas é preciso ter em mente que é um conceito germânico que se tornou a base da aristocracia medieval.

A aristocracia grega tem conceitos parecidos, mas não há "salvação", todos vão para o inferno, há, de fato, a noção de agradar os deuses pelo valor em guerra, mas isso não é adiquirido, é algo já dado de antemão. E na Grécia há toda aquela coisa de reverência aos deuses, o que modifica um pouco, pois é possí­vel ser corajoso e í­mpio, fica um pouco diferente.

Por fim, o Cristianismo também tem as suas batalhas, que são basicamente duas: a luta contra si mesmo e a luta pela expansão da cristandade. Quanto a primeira, apenas lembro de uma epopéia bastante curiosa, composta lá pelo século IV, chamada Psycomachia, que narra a guerra, literalmente, das virtudes contra os ví­cios, do bem contra o mal, que seria a guerra que todo cristão deveria travar diariamente. Já a segunda batalha está mais ligada í  Î¼Î¿ÏÎ¯Î± (loucura) lá do São Paulo, quando falava que o cristão deveria ser louco para afirmar sua fé ou algo assim (se alguém souber precisar, me ajude).

Isso não significa, ça va sans dire, que eu seja um defensor árduo de atentados suicidas ou invasões prévias, pelo contrário, apenas estou aqui, claudicante, tentando mostrar que a guerra pode ser religiosa, tanto quando ela é idealizada como uma mostra de virtudes, quanto na afirmação de seus valores, e isso toda religião faz. O que também mostra que a disputa é necessária e talvez essencial naquilo que compreendemos como humano, não se trata de uma apologia da guerra em suas formas mais cruentas, mas falo de uma "guerra de formação", em todos os sentidos que essa expressão pode tomar.

Eu falei no último parágrafo de guerra idealizada, conceito perdido para nós, no século em que ela se industrializou e profissionalizou, em que deixou, e o exemplo são as duas grandes guerras, de ser uma demonstração de bravura e virtude para se tornar uma máquina onde se luta sem saber bem a razão da luta. Essa guerra sim, é sem sentido e brutal.

Posted by Bruno Hohenstaufen at março 25, 2004 4:34 PM