março 22, 2004

Bizantinista carinhoso, jovem e prendado

Bizantinista carinhoso, jovem e prendado procura uma estudante de lí­nguas púnicas amorosa para relacionamento sério

Lí­nguas, lí­nguas, lí­nguas...

Uma das razões que me faz ler 90% de literatura antiga é um prazer filológico que o texto antigo pode me dar. Não dá para pegar a Amerika do Kafka e ficar tecendo muitas considerações prosódicas do alemão da década de 20 da Sudetenland... Agora, quando estou de frente com o texto do Nibelungenlied, ah, como é delicioso ficar remoendo aquele alemão do século XIII, mas, sim senhor, com reminiscências do alemão mais arcaico possí­vel. Eu devo ser louco, não conheço outro estudante de letras com esse fascí­nio por lí­nguas que eu tenho, chega a ser tara. Aliás, um dos meus passatempos é estudar lí­nguas mortas - e não falo de latim e grego, pois toda pessoa deveria aprender, e bem, latim e grego. Mas não pensem que sou tão maluco assim, eu acho, pois se há pessoas que colecionam tampas de cerveja, outras selos e ainda outras que colecionam camisas de times de futebol, eu posso sanamente colecionar lí­nguas mortas. Está bem, essa minha coleção está mais próxima da lista de Don Giovanni do que de uma mera coleção: In Italia seicento e quaranta, in Lamagna duecento e trentuna...

Comecei estudando gótico, um barato, me ajudou a compreender melhor o alemão e o inglês - tanto a aproximar o vocabulário de ambas quanto entender algumas idiossincrasias da conjugação elisabetana ou de Chaucer. Segundo uma amiga, o gótico parece com o islandês antigo- eu não falo islandês, quanto mais o antigo, dessa forma, só posso citá-la por aqui.

Mais tarde estudei, com ainda mais afinco, o provençal antigo. Hoje consigo ler um texto nessa lí­ngua, e não pensem que o francês vai ajudar, pois você terá muitos problemas gramaticais. Claro, a literatura provençal ajudou bastante, a poesia dos trovadores é o movimento literário mais rico de todos que já estudei mais aprofundadamente. Toda semana leio alguma coisa de Daniel, Ventadorn, Bornelh ou dos catalães Llull e March (este último um dos maiores poetas de todos os tempos, ainda falarei sobre ele).

Depois voltei í s germânicas, e, como quase todo mundo, tive uma queda pelo Beowulf, que é interessante. O inglês antigo é uma lí­ngua esquisití­ssima (oft scild scafing...), que tem um destaque meio exagerado por ser inglês, ser antigo e ter influenciado o JRR Tolkien que dizia seu épico ser a maior obra literária de todos os tempos. Devo discordar, o Nibelungenlied é a grande obra literária germânica da idade média, ele tem uma tragicidade toda singular. Ainda não li as sagas islandesas, essa mesma amiga me jura que elas são melhores que toda literatura inglesa, quite interesting...

Estudei um pouquinho de tupi, o que é sempre engraçado pois volta e meia você acha o nome de um bairro, um peixe ou uma cidade do interior de São Paulo. A lí­ngua parece fácil, e é, não há conjugação de verbo alguma, e só o tal do ergativo que vem te atrapalhar. Só estudando tupi para entender os argumentos lá do Policarpo Quaresma: para ser brasileiro, com tudo que isso quer significar, só adotando o tupi. Eu não defendo a adoção de uma lí­ngua com um vocabulário tão reduzido e estruturas sintáticas tão limitadas quanto o tupi, e não defendo a brasilidade, credo. Mas ainda vou estudar mais, só para me dar ao prazer de falar:

Aba-pé endé?
Xe Bruno porang

Fora isso estudo há já algum tempo o gaélico, na verdade apanho de seus fonemas e lenições (só tem menos formas de sandhi que o sânscrito...), mas tive que parar, pois perdi meu professor para a Guiness, ele voltou para Dublin. Nos meus seis meses estudando essa lí­ngua, acho que só aprendi a pedir peixe com batatas e cerveja e a comentar sobre o mar, não mais que isso (se bem que não acho que exista outro tipo de conversa na Irlanda). Ah, claro, aprendi como é "água": uisce, pronuncia-se "uí­sque". Só isso já justificou meu aprendizado.

Ainda tenho outras lí­nguas heterodoxas para aprender: comecei a estudar sânscrito e chinês só para perceber que eu vou precisar de um professor, para as duas. Já me falaram que a literatura chinesa é a maior e melhor de todas, como eles inventaram a pólvora, a imprensa e o macarrão, não duvido e vou pagar para ver. Uma outra amiga viajou í  China e saiu dizendo que foi a maior experiência da vida, disse que perto deles os americanos são humildes e minimalistas, bem, a Grande Muralha, a Grande Marcha e os guerreiros de Xinjian estão aí­. O sânscrito é aquela coisa: casos demais, palavras demais, infinitivos demais, particí­pios demais, sandhi demais e aquele alfabeto infame. Também quero aprender uma lí­ngua semí­tica, ou hebraico ou árabe, mas acho que vou aprender aramaico para manter uma posição neutra na questão palestina.

Tenho gramáticas de duas outras lí­nguas: egí­pcio antigo e hitita. Eu sinceramente ainda não descobri para que vou precisar do hitita, talvez se eu resolver me tornar um indo-europeí­sta, mas a hipótese não me anima, quer dizer, não muito. Não obstante, o hitita, apesar de completamente inútil, é interessante, só que, ao contrário das outras acima, qualquer comentário sobre ela em uma festa ("você sabia que o hitita não tinha a divisão de gêneros das outras lí­nguas indo-européias?") vai fazer você passar por mentiroso.

Já o egí­pcio clássico (!) é bem mais sedutor. Vai dizer que você nunca se sentiu tentado a ser um egiptólogo? Todos nós ficamos, todos nós sonhamos em ser Indiana Jones alguma vez na vida, não negue, você também. Tenho vontade de visitar o Egito, mas parece que há mais de um século ele virou um misto de playground europeu com playground de terroristas islâmicos. Já me decidi, viajo para lá quando um dos dois sair, as camisas floridas dos ingleses e os guias turí­sticos são letais, ah, terroristas também.

Esqueci de citar as lí­nguas semí­ticas da mesopotâmia, falei do aramaico, mas há outras, acadiano, sumério, assí­rio, tudo isso resta para mim como algo meio esotérico, ao menos por enquanto. Devo confessar algo meio torpe aqui: já quis casar-me com uma estudiosa dessas lí­nguas. Algumas pessoas querem mulheres com certos dotes fí­sicos, outras com dotes caseiros; eu quero uma que estude o púnico, simples, não?


Update

Como não basta se vangloriar, tem que compartilhar, eis links para aprendizado das lí­nguas citadas:

Gótico: Não há muita coisa sobre gótico na internet. Eu aprendi em um manual francês Manuel du Gothique, ou coisa parecida. Mas há este site, que deve ter alguma utilidade.

Provençal: Se quiser algo especí­fico sobre o provençal antigo, desista, eu suei muito para conseguir um dicionário e uma gramática. Mas a Occitanet oferece algumas lições de provençal moderno, este site peca pelo seu tom exageradamente polí­tico.

Islandês: A Joana não é padrão para qualquer coisa, mas ela, que morou na Noruega, diz que, sabendo islandês moderno (que é muito parecido com o norueguês bokmí¥l, segundo ela, segundo ela), as sagas são perfeitamente legí­veis. Então vai aí­ um "An Idiot's Guide to Icelandic"

Inglês Antigo: Há vários sites ótimos para se aprender a ler o Beowulf, agora que virou moda.

Althochdeutsch e Mittelhochdeutsch: O Antigo alto alemão é de datação e registro tão escassos, que não há muita coisa, se alguém se dispuser a encarar o Hildebrandslied, boa sorte. Do Médio alto alemão, a lí­ngua do Nibelungenlied, do Tristan e ainda dos Minnesí¤nger, há uma boa gramática e um excelente dicionário. Se faltou alguma coisa, há o excelente mediaevum. Obrigatório saber alemão para estes sites.

Tupi: Não há muita coisa sobre o tupi por aí­. Mas esta página dá para matar a sede.

Gaélico irlandês: Tenho continuado meus estudos de gaélico por esta página, que peca por seus objetivos claramente polí­ticos. Chega a ser desagradável, mesmo para quem, como eu, é simpatizante da causa irlandesa.

Sânscrito: Comecei a estudar aqui, o curso parece ser muito bom.

Chinês: Aqui há tudo que se precisa para aprender o chinês.

Egí­pcio: Acabei de descobrir este site, que parece ter bons links, ainda não explorei. Você consegue até as fontes Unicode (aliás, alguém me ensine a instalar o devanagari em Unicode, pois não consegui!)

Hitita: Sorry, no online resources for the Hittite language..., mas se ainda assim você quiser (sabe-se lá por qual motivo), prosseguir na hititologia, pode comprar esta gramática, que é a que tenho.

Lí­nguas semí­ticas: Achei cursos de Aramaico assí­rio, Acadiano (ou assí­rio-babilônio), e, glória das glórias, uma gramática de Fení­cio (ou púnico).

Posted by Bruno Hohenstaufen at março 22, 2004 11:51 PM