março 20, 2004

Eu acho que falta um Cícero nesse país, sim, um homem com ímpeto, coragem, inteligência e carisma para se contrapor a esse estado de coisas que estamos vivos. Vocês imaginam Cícero, redivivo, furibundo, apontando o dedo para seu oponente (claro, sem amassar a túnica ricamente brocada) e dizendo:

Quousque tandem abutere, Ioseph Dircee, patientia nostra?

Tirante o fato de que o acusado mal poderia compreender seu nome, seria muito interessante alguém que unisse todas as qualidades de um Cícero se levantasse contra algumas das mazelas do atual governo. Sim, há gente inteligente e capaz que critica o governo, há inúmeros blogueiros, professores, estudiosos, etc, etc, mas se a uns falta visibilidade e credibilidade, a outros falta carisma e vigor e, claro, nossos políticos se parecem com vendedores de pamonha.

Seria então necessária uma oposição tão forte? Creio que sim, há alguns movimentos desse governo que são, no mínimo suspeitos.

(sem contar que um alto político aceitar financiamento de um setor, digamos, ilegal, é, no pior dos casos, uma ingenuidade que desacriditaria sua capacidade de governar...)

Vejamos o caso das cotas das universidades. Para o governo, a questão de cotas é essencial, como se fosse um estandarte de sua vontade de justiça social, claro, fazer algo que aparente ser benéfico aos pobres é sempre útil quando se pensa em reeleição. Também, esse esquema de cotas tem tudo para agradar a todos, ou quase. Agrada aos negros, pois eles ganham vagas universitárias, agrada às outras minorias, que se sentem impelidas a pedir suas próprias regalias, agrada a boa parte da classe média, aliviada pela redução de sua dívida social, agrada à facção marxista pedestre das universidades públicas, apenas não agrada a quem realmente se importa com o assunto: os estudantes e professores universitários.

Pode parecer bom, bonito e justo querer fazer da universidade "um lugar de todos" e menos elitista, esse discurso, digamos, libertário (não no sentido econômico ou americano do termo, por favor) é extremamente sedutor, toca em algum ponto da nossa consciência. É completamente irracional, não se pensa no mal irreversível que pode recair sobre as universidades públicas, um misto de piedade e culpa.

Evidentementeo discurso "libertário" é equivocado: a universidade é e deve ser o lugar elitista por excelência. Lugar de produção de conhecimento, essencial para qualquer país que desejar "virar gente", não pode ser banalizado ou ter seu processo de seleção afetado por fatores exteriores à excelência do aluno. Universidade não é sopa para pobre, não é lugar para efetivar a tão sonhada "distribuição de renda" do governo, não se presta para isso, ou melhor, não deveria.

Está bem, a culpa não é completa do governo petista, ajuda o fato de o ensino superior ter virado um colejão, algumas faculdades particulares têm até bedel. Isso tudo porque, como comentava com uma amiga, o ensino médio, mesmo particular, está em um nível abismal. Quando se lê Cidade de Deus em sala de aula, é sinal de que se chegou ao fundo do poço e cavou mais um pouquinho. A maioria dos cursos do chamado nível superior tem que fazer aquilo que deveria ter sido aprendido no segundo grau, isto é, ler e pensar, e a maioria fracassa nesse objetivo. Boa parte do ensino superior tornou-se uma espécie de curso técnico, se presta a "preparar para o mercado de trabalho", não era para ser assim.

Claro, pensam os petistas, com mais negros nas universidades, mais negros conseguirão empregos de salários médios ou altos e de tal modo há de se fazer uma redistribuição de renda. O raciocínio é torto e baseado nessa concepção de ensino superior que é completamente equivocada, mas, se não bastasse isso, a própria idéia de intervenção exterior no processo de seleção de um órgão que deveria ser algo idependente já me parece absurda. Imaginem se, de gráficos e tabelas do IBGE, o governo Lula resolvesse corrigir o Brasil impondo cotas, por exemplo: 10% de canhotos, 40% de brancos e 5% de amarelos na seleção brasileira de futebol (alguém já viu algum jogador de futebol brasileiro de origem asiática?)?

Ou vocês imaginam a Universidade de Paris no século XIII recusando a vaga de um Tomás de Aquino para ensinar a um trabalhador rual de Limoges como usar o novo arado de ferro?

Posted by Bruno Hohenstaufen at março 20, 2004 6:08 PM