Um outro fator importante, essencial até, foi um gosto incipiente que tinha pela literatura simbolista francesa: Mallarmé, Rimbaud, esse povo. Pois me causou muita impressão uma daquelas frases de efeito, típicas do Mallarmé, "poesia é feita com palavras, não com idéias", de início, hegeliano que era, achei essa frase absurda, porém, o estrago no edifício wagneriano já era irreversível. É curioso o início do simbolismo dever tanto ao romantismo tardio e alguns de seus desenvolvimentos ulteriores se afastarem tanto de algumas de suas premissas. Posso dizer que o poema The Bells do Poe me ajudou a compreender o que Mallarmé quis dizer e me ensinou uma forma de fruição que ia além de uma recepção meramente conteudística.
Inclusive porque creio que a recepção de uma obra de arte por aquilo que ela pretende representar - o amor, a liberdade, um porco, qualquer coisa- é contrário até à própria definição de arte. É significativo e temeroso que essa seja a principal maneira de fruição dos diletantes e iniciantes em qualquer arte, significativo porque mostra que quando não se está acostumado à linguagem, o conteúdo serve de âncora, temeroso porque há muita gente que se interessa por arte não por ela, mas por algo que é, de certo modo, exterior a ela. Agora me lembro de Ezra Pound, quando a literatura começa a ser avaliada por fatores exteriores, como, por exemplo, as tendências políticas de um determinado autor, ela já não está funcionando mais como arte.
Pound foi sempre um grande crítico de diversas tendências do século XX, já visíveis e em gestação desde o século anterior, em resposta, ela é o mais criticado e incompreendido poeta do século passado. E não é à toa, o meu preferido. Não sei se ele chegou a dizer isto, mas a literatura continental, e a arte em geral, nos séculos XIX e XX sofreu uma mudança que não havia experimentado nos 26 séculos precedentes, abandonou um caráter de exercício estético aristocrático para virar um exótico freak-show, uma competição meio macabra de quem consegue escrever, compor, pintar, a peça mais original, mais sincera. Grifei essas duas palvras pois elas viraram o grande valor de boa parte da arte Romântica (especialmente a alemã) e uma parte ainda maior da arte do século XX, como se per se a orginalidade e a sinceridade fossem valores estéticos de apreciação. Chamar uma obra de feia, que era o maior insulto possível, tornou-se até um auto-elogio: "Nós não temos comprometimento com valores estéticos burgueses, nossa arte [sic] é propositalmente feia", declarava algum poeta futurista russo. Agora experimente chamá-lo de copiador para você ver a reação do homem de camisa amarela: irado, ele provavelmente faria contigo o que ele prometeu fazer com o burguês- não é coisa agradável...
Se alguém dissesse a Horácio que sua poesia não passava de mera cópia da poesia de Píndaro e Safo, o grande poeta latino, com seu olhar sereno, humildemente agradeceria o elogio e talvez até perguntasse se determinada passagem não era demasiado bárbara.
É esse o problema com Wagner, sua música valoriza fatores exteriores, anti-musicais até. As pretensas inovações chegam a cansar pela extrema insistência e o medo atroz de cair no que não fosse orginal. É a tal autocomplacência de nouveau riche que Stravinsky enxergava. A arte Romântica, a de Wagner em especial, tem o bombástico e o exagerado sem proporção e medida como objetivos "estéticos". Claro, pois era necessário extrapolar a arte para algo além dela, "abarcar o mundo", como diria Mahler mais tarde. Nesse movimento a arte perdeu sua ordem apolínea e seu sorriso dionisíaco, caiu-se em uma vala escura e fria, de onde o artista, não mais podendo compreender o mundo e sem qualquer limitação que o permitisse criar, passou a gritar, a berrar e a chorar, tudo isso para tentar justificar uma arte que já tinha perdido seu sentido.
No próximo post volto a Verdi.
Posted by Bruno Hohenstaufen at março 19, 2004 3:07 PM