A facilidade com que as pessoas rejeitam a ópera italiana me assuta, não pelo fato de não ser possível não gostar dela, é possível não se gostar de tudo, até de Mozart ou de um bife de chorizo, mas pelas críticas ao mesmo tempo simplórias e contundentes que a ela fazem. Pois eu digo, agora com toda segurança, que nenhum outro artista foi tão difícil de eu entender e apreciar quanto Giuseppe Verdi, tanto que acho que apenas pessoas maduras conseguem apreciar Verdi, uma música ao mesmo tempo simples, expressiva e extremamente refinada. Nas primeiras duas décadas do século XX era difícil dizer isso- talvez acontecesse exatamente o contrário-, mas, hoje, só se consegue gostar de Verdi quem realmente se interessa por música, uma vez que não há praticamente "muletas" anti-musicais para se gostar dele, como há, em larga escala, com o concorrente alemão...
Acho que contar minha historieta ajuda a compreender o que quero dizer. Sempre houve música em minha família, desde tempos imemoriais lembro de minha avó ouvindo a Lucia de Lammermoor ("Maria Callas é que é cantora, meu filho, Maria Callas é que é cantora...", dizia) ou do meu bisavô, quase surdo, ouvindo a Viúva Alegre ("tam-dam-dam dam-dam-dam...", acho que era isso que ele dizia) esgüelante em uma vitrola que, para a época (1989, por aí), já era mais que ultrapassada. Sim, ouviam mais coisas, alguns Verdis (notadamente a Traviata), outros Bellinis e Rossinis, algum Mozart e outro bocado de Beethoven, mas a minha experiência musical de infância mais marcante se resume à obra-prima de Donizetti e a uma Tosca que vi, aos sete anos, minha primeira ópera ao vivo. Quando entrei na adolescência, e tinha lá pelos meus 14 anos, impulsionado por aquela atitude típica da idade, passei a rejeitar esse "patrimônio familiar" por vários motivos. O mais importante é que, estudando teoria musical, a música da ópera italiana passou a me parecer mais pobre do que a de Brahms, por exemplo, afinal, uma música com instrumentação pobre, com uma harmonia relativamente simples e ainda tão presa a formas clássicas quanto uma Norma, jamais seria páreo para a liberdade sem limites da música de Wagner? Isso me pareceu, na época, claro.
E comecei a desprezar a ópera.
Concorreram para esse desprezo as flores literárias da ópera germânica, afinal, a música bandística verdiana estava a quilômetros da sublimação da música em filosofia que Wagner tanto queria fazer, enquanto a ópera verdiana ficava ligada ao chão, a música Wagneriana me levava à contemplação das idéias. Enquanto no melodrama latino, imperavam a poesia rasteira de "Mia figlia non í¨ piú vergine", "Vendette", "Maledizioni", a Holde Deutsche Kunst me fazia o "tempo tornar espaço" e eu tinha delírios com a renúncia do mundo fenomônico (Schopenhauer apud Wagner) e o festival de Leitmotive, relações dialéticas, sublimações e outros substantivos abstratos tão caros ao ultra-romantismo alemão...
Não vou contar aqui as transformações que "ao longo de uma noite movimentada", mas, pouco a pouco fui abandonando essa concepção romântica. Primeiro porque ela era praticamente insustentável, afinal, pouquíssima coisa acabaria se enquadrando nesse ideal de "grande arte" alemã (uma janelinha entre Goethe e Proust, o que é muito pouco), segundo que, ao notar como pessoas extremamente admiradas por mim se interessavam por autores menores (aliás, por "autores menores" entenda-se gênios do calibre de Mozart e Dante, muito superiores a qualquer romantico alemão que apareceu por aí), me perguntava a razão disso.
Continua....
Posted by Bruno Hohenstaufen at março 15, 2004 6:47 PM