fevereiro 26, 2004

Uma pessoa reclamou da quantidade de citações dos meus textos, quem fez isso certamente não leu Rabelais, ele cita tanto que chega às vezes parecer vaidade, não, é vaidade. E elas não fazem do texto de Rabelais ruim, cansativo, talvez; mas se eu escrevesse como Rabelais estaria feliz, mas por azar não tenho domínio da ortografia francesa do século XVI e nem tenho tantos ditados do interior da França decorados para me equiparar a Rabelais. Ah sim, e não uso tantas palavras de baixo calão, hoje elas são banais, na época de Rabelais, certamente não.

Não sei se alguém discordaria do fato de que Rabelais tenha sido um bom escritor, pelo contrário, a quantidade de imitações que foram feitas dele mostram, ao menos indicam, que ele foi um excelente escritor. É claro que não estou querendo aqui traçar algum paralelo com Rabelais, mas se eu fosse imitado, não ficaria triste, ao menos seria uma prova de que eu sou admirado. Mas, como disse quem me criticou, não escrevo bem, logo, sou imitado.

Acredito que escrever bem signifique isso: fugir da banalidade, ser claro e coloquial, conhecer os grandes mestres, amar e dominar o assunto. Tendo em vista isso, acho que não passo em nenhum dos quesitos, estou imerso na banalidade da academia (e criticá-la é uma banalidade da academia) que me enxerta chavões de todo modo: "enquanto", "a nível de" são dos poucos que não uso. Cabe ao leitor atento identificar os que uso. Claro eu tento ser, mas a internet é um meio tão agitado que me força muitas vezes- a maioria delas- a publicar com pressa, e assim a clareza, as idéias e o português ficam sacrificados. Coloquial acho que eu sou, é claro que não falo em uma coloquialidade de ponto de ônibus do subúrbio, imagine-se conversando com Machado de Assis e Eça de Queiroz e com, por um milagre, Cícero, Santo Agostinho e Montaigne falando português, acho que isso expressa o que penso por coloquial.

Também não conheço os grandes mestres, falta-me conhecimento em todas as áreas, e talvez eu engane bem ao falar de lírica latina e provençal e em música do início do barroco, que deve ter sido o que mais estudei na minha vida, mas se eu conseguir enganar será certamente porque não existe muita gente que domine esses assuntos. Nem domino o assunto, pois geralmente falo de autores que conheço, mas quase nunca estudei, como dizer?, a literatura auxiliar do assunto. Acho que o único assunto que domino seja eu mesmo, mas não sou cínico como Montaigne para dizer que esse é o meu assunto- seria demais e ninguém iria ler. Pelo menos eu gosto do que falo...

Mas pelo menos eu me conforto por não ser o único a não saber escrever, a maioria dos elogiados escritores não têm domínio mínimo do que escrevem, e, claro, posso sempre usar do argumento cafajeste de não culpar a mim e sim à minha educação por isso. Não interessa o fato de eu nunca ter sido obrigado a ler algo de algum valor até a faculdade, nem que se dependesse dos outros eu até agora estaria falando português e arranhando um inglês de padaria, tampouco que se não fosse por um acaso da vida, não, nehuma Beatriz, eu ainda estaria malhando em uma selva oscura; o que interessa é que essa é uma escolha pessoal e eu sou o único responsável por isso, e em nossa época há excepcionais escritores como o... bem, isso não vem ao caso.

É claro que é uma brincadeira essa minha última frase, pois há na internet mesmo inúmeros excepcionais escritores que nos brindam com textos maravilhosos e ainda de graça! Mas é evidente que não passarei seus endereços, para não perder público. Mas o que há de mais espetacular é a miríade de excepcionais escritores, especialmente brasileiros, que vemos surgir hoje, romancistas, poetas, todos mundialmente conhecidos e geniais, de grande alcance humanístico. Claro, grandes conhecedores da tradição, enormes poços de erudição e, principalmente, homens de enorme maturidade, tanto estilística quanto intelectual!

Sarcasmos à parte, o que é sério que essa educação de reportagens de jornal e contagem de maçãs está acabando com nossos escritores. Faltam homens no mundo, sobraram os adolescentes. Será que pessoas maduras em tempos imaturos estão condenadas ao fracasso? Quando teremos de volta homens que enfrentem os assuntos com seriedade e conhecimento e que se dediquem às artes e à filosofia mais por amor do que por mera vaidade?

Posted by Bruno Hohenstaufen at fevereiro 26, 2004 9:39 PM