
Françoys Villon
Eu iria fazer um diálogo sobre porque eu escolhi Bizâncio, mas isso fica para mais tarde, é imperioso prosseguir na minha série de poetas.
Se eu falei no Arquipoeta, foi para, de certa forma, preparar-vos para François Villon, o grande goliardo. Sabem aquela história do amigo que é inimigo? Pois é, no caso de Villon acontece algo do tipo, parece que um véu ideológico encobre a crítica desse poeta, pois ele normalmente é citado como um iniciador, "o primeiro lírico francês", "o primeiro poeta a falar de suas próprias emoções", etc, etc. Isso é muito complicado de afirma, até porque esquecer - ou mesmo ignorar - a tradição à qual Villon está filiado é, de certo modo, se recusar a compreender o poeta, para venerar um simulacro.
Villon não foi o iniciador de poesia nenhuma, na verdade, ele significa o fim de uma era: Villon é o último dos goliardos, o último dos poetas medievais. Sua ligação à estética goliárdica é praticamente completa, sua biografia o coloca como um estudante da universidade de Paris, seu estilo, pelo verso, pela rima, pelas alusões e citações fazem dele um representante característico da estética goliárdica. Desse modo, conhecendo-se isto, a afirmação da crítica francesa, de que ele teria sido o primeiro lírico francês, soa de forma muito esquisita- está sendo esquecida uma enorme tradição à qual Villon está filiado, dos troveiros aos goliardos. A "desculpa" dessa mesma crítica francesa dizendo que Villon é o primeiro lírico de valor, enquanto seus antecessores seriam meros "retóricos" soa preconceituosa e mistificadora.
Um fato quanto à recepção de Villon é que o próprio desconhecimento de sua tradição implica em uma não compreensão de sua obra. As opiniões apaixonadas dos primeiros românticos e de Baudelaire dificilmente podem se relacionar com o que nós conhecemos de Villon: primeiro, que assumir que o dito no Testament seja unicamente verdade é uma tarefa complicada, segundo, que o falar de seu meio dissoluto não constitui numa originalidade. Essa foi a razão de ter falado antes do Arquipoeta.
Então por que Villon é tão bom, tão elogiado?
Primeiro pela qualidade do seu verso, provavelmente o melhor em língua francesa, ao mesmo tempo elegante e coloquial, sonoro e simples. É significativo que este divertido manual de métrica cite-o tantas vezes. Segundo que nenhum outro poeta consegue ser tão refinado em sua expressão, e quando falo isso não me restrinjo nem à estética goliárdica e nem sequer à poesia francesa. Não se sabe até que ponto o Testament é uma confissão sincera, até que ponto é um código de expressão da época, até que ponto é uma paródia- especialmente nas passagens teológicas do texto. Villon ama os jogos de palavra, que estão longe de serem simplórios, os duplos, triplos, quádruplos sentidos de algumas de suas passagens servem não apenas como uma abertura de interpretação como também para compor essa figura de difícil trato que é Villon. Mas ainda mais importante que a discussão sobre a personalidade do poeta, é a importantíssima reflexão filosófica sobre a situação do homem no mundo, um tanto nihilista e amarga, em meio a um pensamento teológico e moral brilhante.
A obra de Villon se assenta ao lado da Divina Comédia, apesar da distância do tom, são ambas obras que sintetizam o que podemos chamar simploriamente de "pensamento medieval", tanto pela capacidade de crítica ao tempo, aos costumes, mas também pela poderosa discussão escatológica e moral que estes dois textos levantam. Uma outra possibilidade de comparação entre os dois poemas é a situação do amor: em Dante, Beatriz é a emissária divina que busca a salvação do poeta, as amantes de Villon, exatamente o contrário, o levam à desgraça (Qui me reste? Honte, et pechié!), mas para isso precisaria estudar mais a fundo os dois textos.
Termino com a balada dos enforcados, o texto que resume, de certo modo, a poética de Villon:
Frí¨res humains qui aprí¨s nous vivez
N'ayez les coeurs contre nous endurciz,
Car, ce pitié de nous pauvres avez,
Dieu en aura plus tost de vous merciz.
Vous nous voyez ci, attachés cinq, six
Quant de la chair, que trop avons nourrie,
Elle est piéca devorée et pourrie,
Et nous les os, devenons cendre et pouldre.
De nostre mal personne ne s'en rie:
Mais priez Dieu que tous nous veuille absouldre!
Se frí¨res vous clamons, pas n'en devez
Avoir desdain, quoy que fusmes occiz
Par justice. Toutefois, vous savez
Que tous hommes n'ont pas le sens rassiz;
Excusez nous, puis que sommes transsis,
Envers le filz de la Vierge Marie,
Que sa grâce ne soit pour nous tarie,
Nous préservant de l'infernale fouldre
Nous sommes mors, ame ne nous harie;
Mais priez Dieu que tous nous vueille absouldre!
La pluye nous a débuez et lavez,
Et le soleil desséchez et noirciz:
Pies, corbeaulx nous ont les yeulx cavez
Et arraché la barbe et les sourciz.
Jamais nul temps nous ne sommes assis;
Puis ca, puis lí , comme le vent varie,
A son plaisir sans cesser nous charie,
Plus becquetez d'oiseaulx que dez à couldre.
Ne soyez donc de nostre confrairie;
Mais priez Dieu que tous nous vueille absouldre!
Prince Jhésus, qui sur tous a maistrie,
Garde qu'Enfer n'ait de nous seigneurie:
A luy n'avons que faire ne que souldre.
Hommes, icy n'a point de mocquerie;
Mais priez Dieu que tous nous vueille absouldre!
Tradução do Augusto de Campos revisada por mim
Irmãos humanos que depois viveis
Não olheis com duro coração
Pois se aos pobres de nós absolveis
Também a vós Deus vos dará perdão
Aqui nos vedes presos, cinco, seis
Quanto era carne viva, que eu comia
Foi devorado e em pouco apodrecia
FIcamos, cinza e pó, os ossos, sós
Que de nossa aflição ninguém se ria
Mas suplicai a Deus por todos nós!
Se dizemos irmãos, cós não deveis
sentir desprezo, embora condenados
Tenhamos sido em vida. Bem sabeis:
Nem todos têm os sentidos sentados
Desculpai-nos, que já estamos gelados
Perante o filho da Virgem Maria
Que seu favor não nos falte um só dia
Para livrar-nos do Inimigo atroz
Estamos mortos, que ninguém sorria
Mas suplicai a Deus por todos nós.
A chuva nos lavou e nos desfez
E o sol nos fez negros e ressecados
Corvos furaram nossos olhos e eis
nos de pêlos e cílios despojados
Paralíticos, nunca mais parados
Para cá, para lá, comoo vento varia
Ao seu talante, sem cessar, levados
Mais bicados que um dedal. A vós
Não ofertamos nossa confraria
Mas suplicai a Deus por todos nós!
Meu príncipe Jesus que a tudo vês
Não nos entregues à soberania
Do Inferno, que só ouvimos tua voz
Homens, aqui não cabe zombaria
Mas suplicai a Deus por todos nós!