
Archipoeta
O nome deste poeta pode assustar,afinal por que eu iria falar de alguém tão... anônimo? Da pessoa que chamamos de Arquipoeta não temos nem datas de nascimento, nem local onde viveu, sequer seu nome, só sabemos que ele foi apadrinhado do arcebispo de Colônia, Reinald von Dassel. Arquipoeta é seu apelido e tudo que temos dele são 10 poemas de tamanho médio, copiados em um manuscrito na cidade de Beuren, perto de Stuttgart, no cunjunto popularmente conhecido como Carmina Burana.
Os Carmina Burana dificilmente podem ser considerados um conjunto, já que contem de cantos morais até odes à vida na taverna e pequenas peças morais à Roswitha (ainda vou falar dessa mulher aqui, mas ela não pode ser enquadrada como poeta, no sentido estrito que uso). Mas de todo o conjunto, é a poesia chamada goliárdica que mais chama atençao, por ser a grande maioria, uns 70% de todo o corpus, e por ser uma da mais originais manifestações literárias da história da literatura.
Afinal, o que significa Goliardo? O nome vem da personagem bíblica, e deriva de um dos poemas do nosso poeta do dia, quando ele se compara a Golias por ser vagante e anti-civilizado. Os goliardos, ao contrários dos trovadores, troveiros, minnesí¤nger, não tinham o status reconhecido de poetas, assemelhavam-se a vagabundos que andavam de cidade em cidade, ganhando o que podiam do elogio dos ricos, mesmo de esmolas, ou de aulas particulares.
Ao contrário dos trovadores, nós conseguimos traçar com bastante nitidez as origens do goliardismo, elas nascem junto com a universidade. No final do século XI, começaram a surgir por toda a europa as universidades, um meio, extremamente erudito, cuja língua única é latim (aliás, o nome Quartier Latin para aquele bairro de Paris deve-se aos alunos da Sorbonne que falavam latim), nascida para o estudo de assuntos que o ensino eclesiástico não englobava, como medicina, gramática (hoje conhecida como letras), direito, as três grandes disciplinas universitárias (embora logo depois, em Paris, a universidade vai se tornar o grande centro teológico da cristandade). Não menos de 50 anos e a universidade de Bolonha já contava com 10mil estudantes, o inchaço da universidade já provocava um excesso de pessoas extremamente bem formadas, mas desocupadas, criando os primeiros vagabundos urbanos.
Os goliardos são esses vagabundos, sua poesia reflete esse meio degradado, são comuns os temas de bebedeira, amorosos (e este amor desidealizado contrasta pesadamente com os conteporâneos trovadores), dívidas, etc; mas também reflete sua formação, extremamente erudita. Fica muito interessante ler um poema goliárdico, pois ao lado de uma descrição cruenta de uma taverna, ou de uma prostituta, encontramos uma citação bíblica, ou de Virgílio, há esse gosto pelo grotesco, pelo sublime misturado ao mais baixo.
O grande gênero da poesia goliárdica, o mais original, que vai marcar os dois maiores poetas dessa escola, é a confissão. Arquipoeta tem duas: "Estuans intrisecus ira vehementi", que podemos titular de "a confissão do vagabundo"; e "Fama turba dante sonum", "a confissão de Jonas". São dois poemas que se completam.
Segue um trechinho do primeiro deles, "estuans ira vehementi", é o poema que "professa" os ideais do goliardo (para facilitar a leitura coloco um adendo de crítica textual ao final do texto):
Estuans intrinsecus ira vehementi
in amaritudine loquor mee menti.
factus de materia levis elementi
folio sum similis, de quo ludunt venti
Cum sit enim proprium viro sapienti,
supra petram ponere sedem fudamenti,
stultus ego comparor fluvio labenti,
sub eodem aere numquam permanenti
Feror ego veluti sine nauta navis,
ut per vias aeris vaga fertur avis;
non me tenent vincula, non me tenet clavis,
quero mei similes et adiungor pravis.
(...)
Quis in igne positus igne non uratur?
(...)
Meum est propositum in taberna mori,
ut sint vina proxima morientis ori;
tunc cantabunt letius angelorum chori:
"Sit Deus propitius huic potatori."
(...)
Tales versus facio, quale vinum bibo,
nichil possum facere nisi sumpto cibo;
nichil valent penitus que ieiunus scribo,
Nasonem post calices carmine preibo.
(Ardendo internamente de ira vehemente
com amargura falo à minha mente
Como sou feito de matéria inconstante
semelhante à folha, com quem os ventos brincam
Como é próprio ao homem sábio
colocar sobre pedra a sede do fundamento
Eu, ignorante, me comparo ao rio que escorre
que nunca permanece sob o mesmo céu
Sou levado como um navio sem comandante
como é levada a ave sob as vias aéreas
Vínculos não me seguram, chaves não me prendem
procuro meus semelhantes e me junto aos viciosos
Quem, colocado no fogo, não arderia no fogo?
Meu propósito é morrer na taverna
a fim de que o vinho esteja próximos de minha boca
Então cantarão mais alegres os coros dos anjos:
"Seja Deus favorável a este bêbado!"
Faço tal verso, qual o vinho que bebo
Nada posso fazer, a menos que o alimento esteja pago,
nada vale o que escrevo em jejum
Depois de uns copos colocarei Ovído no meu canto)
Este trecho corresponde a uns 20% de todo o poema, mas por ele dá para vislumbrar alguns dos pontos que citei acima. Neste caso, a referência reliosa é predominantemente irônica, há o reconhecimento da situação, mas não há vontade de mudança, o único pedido é por piedade. O próximo poema, de certo modo, acha o "comandante" do navio, embora ele seja intríseco, aqui, é Deus. Depois posso traduzir a "Confissão de Jonas", que, de certo modo, é uma continuação desse poema.
Quanto à sua técnica, o Arquipoeta escreve em um latim simples, mas eloqüente e extremamente conciso, esta concisão permite a ele fazer metáforas extremamente poderosas e sugestivas, como o início da "Confissão de Jonas" (A fama, soando com a tuba, a voz excitada dos arautos, clama aos homens do mundo), que podemos comparar com as de Dante no Inferno. Não posso dizer que isto é uma invenção dos Goliardos, há exemplos dessa retórica desde o Apocalipse de João, mas sua habilidade e sua força, em toda a poesia de língua latina, são inéditos desde então. Isso, e sua poética extremamente original faz dele um poeta a ser descoberto. Poderia falar mais, mas paro aqui para não me cansar ou cansar a vocês.
Posted by Bruno Hohenstaufen at fevereiro 14, 2004 12:39 AM