
Luís Vaz de Camões
Estudando em uma faculdade de Letras, estou em uma posição privilegiada para reponder: parece que não, não há mais interesse no nosso grande Camões. Acho que tem muito a ver com o fato de que, depois do modernismo, a poesia deixou de ser o que era antes: as (poucas) pessoas que a lêem, não mais estão acostumadas à poesia pré-romântica, cuja produção de sentido está muito na relação entre a poesia, sua forma e seu gênero. É necessário, de fato, se reconstruir um texto antigo para platéias normais (não estou falando da massa, mas de leitores extremamente cultos) conseguirem captar toda sua beleza. A nova poesia se refere esparsamente à sua forma: é, infelizmente,a vitória inconteste do idealismo, pois ele está presente em toda a poesia pós-1800 seja em afirmação, seja em negação. Esta é, creio, a razão principal para o abandono de Camões. Hoje, prefere-se autores com campos mais vastos para a prática da intragável psicanálise na literatura, inclusive, às vezes, eu acho que esse é o único método de análise literária existente...
De qualquer forma, Luís Vaz de Camões é o maior escritor de língua portuguesa, seja pela sua importância histórica, seja pela sua qualidade. Nós não estamos acostumados a ler Camões, mas a sua lírica petrarquista é tão graciosa a poesia de tradição ibérica tem jóias incríveis, como o "Sôbolos rios" (Super Flumina Babylonis), e quem sabe sua leitura conseguiria ter mais sucesso que o pieguismo drummondiano? Costumam acusar Camões de copiar Petrarca, sim há muitas citações (e eu acredito que achar as citações seja, per se, um dos interesses de sua obra), mas embora formalmente eles muito se pareçam, a diferença em termos de conteúdo e espírito é tão grande que tal acusação parece loucura.
Já me peguei pensando se os ibéricos seriam naturalmente barrocos, ao passo que os italianos naturalmente clássicos, por exemplo. Uma idéia um tanto perigosa, mas há um fio condutor na história da poesia ibérica, tendo algumas características que são típicamente ibéricas e que acabamos associando ao barroco. Bem sei que a periodização literária é um assunto complicado e muitas vezes mistificador, mas se entendermos por barroco um gosto por contrastes e jogos de conceitos e idéias, sim os ibéricos são muito barrocos:
Oh como se me alonga de ano em ano
a peregrinação cansada minha
Como se encurta, e como ao fim caminha
este meu breve e vão discurso humano!
Vai se gastando a idade e cresce o dano
perde-se-me um remédio que inda tinha
se por experiência se adivinha
qualquer grande esperança é grande engano.
Corro após este bem que não se alcança
no meio do caminho me falece
mil vezes caio e perco a confiança
Quando ele foge, eu tardo; e na tardança
se os olhos ergo a ver se inda parece
da vista se me perde e da esperança.
Esse soneto de Camões é um bom exemplo de como os ibéricos têm gosto pelas antíteses, pelos jogos de palavra, pelo que se chama de conceptismo. O soneto inteiro joga com esses pares opostos, os dois primeiros versos são respondidos por um oposto perfeito: o alongamento da peregrinação vs. o encurtamento da vida, e todo o movimento do poema trata-se de harmonizar, e não de negar, esta contradição, o absurdo serve para mostrar o estado conflituoso do eu-lírico, como também para demonstrar a impossibilidade de alcançar seu objetivo. O quinto verso continua no mesmo ritmo e sozinho contém uma antítese: (gastar a idade e crescer o dano), os sexto, sétimo e oitavo versos introduzem a outra idéia do poema, que é a negação das aparências vãs (não há como não se esquecer de Calderón...) e introduz uma imagem petraquista "mil vezes caio" (mille volte il dì moro). Um outro exemplo é o verbo "corro", no nono verso, principalmente em contraste com a "peregrinação" do segundo verso, dá um caráter ao mesmo tempo de urgência e de desespero.
Enfim, o poema segue, mas como mostra da maneira que os ibéricos criam suas obras já está bom. Camões é especial nisso e está presente até em lugares que não imaginamos:
por mares nunca de antes navegados
passaram ainda além da Taprobana
Aliás, Os Lusíadas. Há muito a falar desta obra, deixeirei para um futuro, quando terminar de re-lê-la. Não se esqueçam de me lembrar.
Mas por enquanto, está razoável de Camões.
Posted by Bruno Hohenstaufen at janeiro 26, 2004 12:37 AM