janeiro 23, 2004

Dez dias, dez poetas


Inicia-se a qui a série, "dez dias, dez poetas", onde falarei, a cada dia, sobre um poeta que acho interessante comentar.
O primeiro da série é Arnaut Daniel


Arnaut Daniel


Arnaut Daniel é um dos grandes poetas de todos os tempos. Não entra aqui em questão o fato dele ser o melhor ou o pior, o qualquer coisa do tipo, não pretendo fazer julgamentos de tal natureza, mas sua poesia é uma das mais originais e sem dúvida a que gerou os julgamentos mais díspares possíveis.

Imediatamente, Daniel parece ter tido grande aceitação, pois um número razoável de canções sobreviveu, todas com música; não temos informação acerca de outras obras que não um romance em verso do qual Dante nos fala no De vulgari eloquentia. De qualquer modo, suas 17 canções formam um dos maiores corpora dos trovadores. Se ele parece ter sido conhecido, algumas estrofes aqui e ali, às vezes nos dão a entender que ele também teve seus problemas:

Ma chansos prec que no.us sia enois
Car si voletz grazir lo son el.motz
Pauc preza Arnaut cui que plassa o que tire

(Minha canção espero que não vos seja irritante, pois se quiseres apreciar o som e o verso, pouco se importa Arnaut com que ela agrade ou irrite)


Dante foi o primeiro a fazer um julgamento sobre a obra de Arnaut que chegou a nós. E seu julgamento chega a ser até desconcertante, pois classifica-o como o maior e mais hábil dos versejadores em língua vulgar. Afirmação difícil, mas vinda de quem vem, é necessário um certo respeito. Além de falar dele no seu tratado sobre as línguas vulgares, Dante colocou-o na Divina Comédia, dizendo:

Ieu sui Arnaut que plor e vau cantan
(Eu sou Arnaut que chora e vou cantando)

Mas nem todas as opiniões sobre ele são como as de Dante. Os românticos, que resgataram de certa forma o provençalismo no século XIX, tinham uma imensa dificuldade em aceitar as afirmações de Dante e Petrarca (que tinha um juízo parecido sobre o autor). Quando descobriram Daniel, não acharam nele nada além de uma irritante conformidade com os lugares-comuns da lírica trovadoresca, respeitando rigidamente seus preceitos, afinal, não havia nada de mais chocante para eles do que um poeta que não fosse "revolucionário" ser considerado genial. Um de seus críticos chegou a chamá-lo de pueril e falar em uma "insignificância total do pensamento". O nível de rejeição chegou a tal ponto que foi formulada uma teoria de que a melhor parte da obra de Arnaut fora perdida e o que se tinha eram poemas apócrifos. De qualquer forma é bastante curiosa essa afirmativa, já que todos os versos citados por Dante chegaram a nós, é, enfim, fazer um malabarismo teórico para adequar os juízos de Dante ao seu próprio pensamento.

Porém, no século XX, alguns autores dedicaram páginas extremamente elogiosas a Arnaut Daniel: TS Eliot, James Joyce, os irmãos Campos aqui no Brasil foram vários dos que o citaram. Mas o mais importante deles foi Ezra Pound que, sem mais delongas, disse que ele foi o maior poeta de todos os tempos. Embora esse tipo de afirmação seja de difícil comprovação -para mim é difícil afirmar até mesmo se Arnaut é o maior dos poetas provençais, algo que parece meio vazio- Pound e Dante são testemunhas, extremamente confiáveis, convenhamos, da imensa qualidade e singularidade deste poeta. Poucos poetas se aventuraram em seu caminho, no qual o significado primeiro do poema tem pouco valor, pois serve unicamente a uma forma com suas rimas inusitadas, com sua métrica extremamente requintada, com seus jogos de conceitos, enfim, é um virtuoso. Nenhum outro poeta foi tão artista, no sentido etimológico do termo, quanto ele, niguém tem um verso mais belo, mais musical do que ele. Se ele é o maior, eu não seu, mas, dos trovadores, Arnaut Daniel é o mais fascinante.

Posted by Bruno Hohenstaufen at janeiro 23, 2004 12:36 AM