junho 17, 2004

Um momento para os comerciais

Com licença senhores, agora desejo fazer um pequeno comercial não remunerado (coisa de bobo, bem sei) de um dos melhores livros que vocês podem encontrar no mercado: A lírica trovadoresca de Segismundo Spina, professor de Filologia da USP. Esse livro é a melhor introdução para se conhecer o que foi o movimento trovadoresco pan-europeu e não apenas alguma escola nacional em separadp, como sempre acontece em estudos literários (que são uma verdadeira Copa do Mundo...). Foi com ele que há uns dois anos que eu comecei a me apaixonar pela lírica dos Trovadores. E espero que o mesmo aconteça com quem o leia.

Não muitos outros livros em português tratam do lirismo provençal, menos ainda tratam dos Minnesänger, isso já bastaria pra comprovar o valor desta obra do Spina. Porém, trata-se, também, da melhor antologia existente do assunto em qualquer língua. Ao contrário do outro livro sobre o assunto, dos irmãos Metralha, esse livro apresenta as poesias no original seguidas de uma tradução literal e um comentário relevante e inteligente, não de um palpite poundiano. Que ele funcione para muitos conhecerem os poetas que tranformaram o provençal na mais bela das línguas modernas, afinal, são os poetas que dão beleza à língua, basta observar no português, temos exemplos de um português lindo:

ó cousas, todas vãs todas mudaves,
qual é tal coração qu'em vós confia?
Passam os tempos vai dia trás dia,
incertos muito mais que ao vento as naves

Como também um português horroso:

Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como o javali.


Aliás, como diria nosso presidente, "estou convencido" de que, se Camões pediu ao invés de uma frauta ruda, uma tuba canora e belicosa, Drummond, em sua invocação às Musas, pediu um som de cuíca ou apito, tamanha sua falta de traquejo com a última flor do lácio.

Mas para não ficar com um gosto ruim na boca, de coisa rançosa, um pouco de Raimbaut d'Aurenga:

Ara non siscla ni chanta
rossinhols,
ni crida auriols
en vergier ni dins forest,
ni par flors groia ni blava:
e si·m nais
jois e chans,
e creis en veillians,
car no·m ve cum sol
en somnians.

Car a midons atalanta
que·m lonh dols,
e serai be fols
s'eu totz temps ab leis non rest,
pus franh ma dolor plus brava:
si que fais
ni afans
no·m pot esser dans,
ni maltraigz no·m dol
paucs ni grans.


A tradução do Spina (e não minha):
Agora não silva nem canta o rouxinol nem agrita o "oropêndola" no vergel ou no meio do bosque, nem surge a flor amarela ou azul, e em mim nascem júbilo e poesia, que aumentam velando, pois não é em sonhos que me aparecem- como é costume.

Desde que à minha senhora seja agradável que eu afugente minhas penas, néscio seria eu se não permanecesse continuamente a seu lado, visto que ela suprime a angústia mais dolorosa, de tal forma que os próprios afãs e obstáculos deixam de ser penosos nem pequenas ou grandes angústias me consomem.

Posted by Bruno Hohenstaufen at junho 17, 2004 2:00 PM