
A 20 de julho de 1304 nascia em Arezzo aquele que viria a ser o maior poeta dos tempos modernos, Francesco Petrarca. Longe de ficar gastando meu latim em discussões meio malucas sobre se Petrarca era Renascentista ou Medieval (Carpeaux joga no lixo algumas páginas de sua "história da literatura" nessa discussão nonsense), cabe dizer que Petrarca foi um gênio em si, dos mais importantes e dos mais diversos (o que talvez torne pertinente ma caracterização como renascentista, mas isso não agrega nada de valor): poeta, filósofo, teólogo, gramático, estilista em italiano, estilista em latim, numismata, copista, editor e precursor do Tour de France, Petrarca foi um homem complexo, às vezes contraditório e extremamente importante na história da literatura e mesmo do pensamento ocidental.
É evidente que este blog não pretende, nem mesmo é capaz, de tentar definir o que significa Petrarca para a História. A personalidade dos homens, ainda mais dos grandes, é mais recheada de contradições do que o que normalmente é licito apresentar. Não restam dúvidas, porém, de que suas grandes contribuições estão na poesia e a na filosofia. Comecemos por esta última, por ser menos, digamos, conteudística, e mais espiritual.
Mais do que um mero pensador, o Petrarca filósofo, foi um grande filólogo, talvez poucas outras pessoas tenham sido tão importantes para o desenvolvimento de uma cultura de belas letras. Cabe a ele, por exemplo, a descoberta de um manuscrito contendo as epístolas de Cícero, e com isso iniciou, ou ao menos contribuiu, toda uma era de descobertas de manuscritos e textos antigos, que proporcionou o último grande ciclo científico filosófico da idade média, aquele que geraria dentre outros, personalidades como Erasmo. Além disso, a briga de Petrarca contra os "dialéticos", e sua exortação em favor da volta aos antigos padres (Santo Agostinho, principalmente) e mesmo aos antigos filósofos (leia-se Platão e Plutarco), é um dos fatores que contribuiriam para o surgimento do que chamamos de Renascimento.
Por último resta comentar algo do Petrarca poeta. Muito foi dito sobre isto, algumas bobagens aqui, algumas coisas corretas ali. Mas o que é importante, talvez, de se pensar, é que a obra poética de Petrarca é indissociável do resto de seus escritos, e que mesmo que algo pareça destoar, o que o comanda é o amor ao passado e a tendência à eufonia. Sim, por muito que se fale, Petrarca foi um grande conhecedor de poesia, tanto antiga, quanto recente, e muito de seu talento daí reside: na reunião, harmonia de todo esse manancial poético, acrescentado ao seu talento poético excepcional. Uma mistura de Cícero, Virgílio e Horácio, com os Trovadores (de quem ele foi um dos grandes conhecedores), o Dolce Stil Nuovo e sua filosofia particular.
Talvez nenhum outro poeta tenha tido um arsenal poético de imagens, comparações e metáforas tão rico e sutil, nenhum outro conseguia compor quadros de maneira tão precisa, e nenhum outro poeta teve uma melodia tão característica, tão bela e tão imitada. E claro, o canzoniere de Petrarca é um vasto e variado manancial da mais pura e perfeita poesia lírica jamais escrita.
Talvez depois eu encontre tempo para falar mais deste grande poeta, mas por hoje basta um de seus mais belos sonetos:
L'aura che'l verde Lauro e l'aureo crine
soavemente sospirando move,
fa con sue viste leggiadrette e nove
l'anime da lor corpi pellegrine.
Candida rosa nata in dure spine,
quando fia chi sua pari al mondo trove,
gloria di nostre etade? O vivo Giove,
manda, prego, il mio in prima che'l suo fine.
Sì ch'io non veggia il gran pubblico danno
e 'l mondo rimaner senz'il suo sole,
né gl'occhi miei, che luce altra non hanno,
né l'alma, che pensar d'altro non vole,
né l'orecchi, ch'udir d'altro non sanno
senza l'oneste sue dolci parole.