julho 24, 2004

De Hérmias, o Filósofo, o escárnio dos filósofos gregos

Esse texto é longo, mas é extremamente interessante, talvez eu use os comentários para fazer... comentários a ele. Fiz para uma matéria uns dois semestres para trás, o autor é um obscuro cristão do século II dC, e esta obra se insere nas questões da época sobre a relevância ou não da filosofia grega para o nascente cristianismo. Espero que gostem:

Paulo, o apóstolo bem-aventurado, escrevendo aos coríntios que habitavam a lacônia, na Hélade, declarou: “ó caros, a sabedoria deste mundo é loucura da parte de Deus”. Disse isso não irrefletidamente, pois me parece ela ter tido seu começo a partir da apostasia dos anjos. Por esta causa, os filósofos expõem opiniões um contra o outro que não são nem consoantes e nem semelhantes.

Pois uns diziam que a alma deles era fogo; outros, ar; outros, inteligência; outros movimento; outros, exalação; outros, força que flui dos astros; outros, números em movimento; outros, de água gerativa; outros, elemento sobre elemento; outros, harmonia; outros, sangue; outros, vento; outros, mônadas; e os antigos coisas contrárias. Quantos discursos sobre estas coisas, quantas argumentações, quantos discursos de sofistas que mais questionam do que descobrem a verdade!

Mas seja assim: dividem-se sobre a essência da alma, por outro lado em relação a outras de suas características, eles declaram em concordância; mas outros dizem o prazer da alma ser ruim, outros no meio do bom e do ruim; uns dizem sua natureza ser imortal, outros mortal, outros que permanece por pouco tempo, outros a bestificam, outros a dissolvem em átomos, outros dizem que ela encarna três vezes, outros limitam-na a períodos de três mil anos. E quem nem chega a viver cem anos, já anuncia sobre três mil anos por vir...

Como devemos chamar isto? Segundo me parece, fábula, loucura, mania, desacordo, ou tudo ao mesmo tempo. Se tivessem descoberto a verdade, concordes e unânimes, eu então alegremente estaria convencido, se eles se esquecessem da alma e tomando outro rumo a natureza a uma outra natureza, essência a uma outra essência, transformando matéria em matéria; confesso estar irritado com as idas e vindas dos assuntos. Agora sou imortal e me alegro com isso, agora me torno mortal e choro; neste instante estou dissolvido em átomos, me torno água, me torno ar, me torno fogo. Mas pouco depois nem ar, nem fogo, fazem-me besta, fazem-me peixe - então, depois, tenho como irmãos os golfinhos. Quando vejo a mim mesmo, o corpo e me assusta e não sei como o chamo: homem, cachorro, lobo, touro, ave, cobra, dragão ou quimera. Sou transformado em todas as bestas pelos filósofos, terrestres, aquáticos, multiformes, campestres, domésticos, mudos, racionais, falantes, irracionais, racionais. Nado, vôo, arrasto-me, corro, sento. E ainda Empédocles me transforma em árvore!

Tanto que, não sendo possível aos que filosofam encontrar unanimemente a alma, ainda menos eles podem declarar algo verdadeiro sobre os deuses ou sobre o mundo. Mas também têm coragem, para que eu não diga estupidez. Eles, que não conseguem encontrar sua própria alma, procuram a natureza de seus deuses e os que não enxergam seu próprio corpo, fuxicam a natureza do cosmo.

Eles se opõem firmemente em relação ao princípio da natureza. Quando Anaxágoras me encontra, ensina-me isto: o princípio de tudo é a inteligência e esta é causa e senhora de tudo e fornece ordem ao desarranjado, movimento ao imóvel, separação ao que está fundido e ordenação aos desordenados. Dizendo isto, Anaxágoras é meu amigo e sou convencido com o julgamento. Mas Melisso e Parmênides se opõem a isto. Parmênides com palavras poéticas relatou a essência ser o Uno e esse Uno sendo eterno, imóvel e semelhante a tudo. Por outro lado, então, neste argumento não sei como retornar.
Parmênides libertou Anaxágoras do meu julgamento. Depois seguirei a tê-lo imóvel, Anaxímenes, elevando, grita em resposta: “Mas eu te digo: o todo é ar e este é diminuindo e condensando, torna-se água e terra, e se rarefazendo e se dissolvendo, torna-se éter e fogo, e relaxando, volta a sua própria natureza, o ar.” E então, transformado nisto, amo Anaxímenes.

Empédocles se põe agitado na boca do Etna gritando: “Os princípios de tudo são o ódio e a amizade, uma ajunta e a outra separa; e a disputa entre elas constrói tudo.” Limita estas coisas em iguais e diferentes, finitas ou infinitas, eternas ou criadas. Bem, ó Empédocles, falo contigo até a cratera do fogo.

Mas sobre as outras coisas, Protágoras pondo-se diante de mim, afasta-me dizendo: o homem é a escolha e o fim das ações, e as coisas subordinadas aos sentidos são ações e as que não estão a ele subordinadas não existem nas formas das substâncias. Alegro-me, adulado por Protágoras, com este discurso, pois o todo, ou o principal é compartilhado com o homem.

Em seguida Tales me jura dizer a verdade ao estabelecer a água como começo de tudo. E, a partir dela tidas as coisas se formaram e nela todas as coisas hão de se dissolver e disse que a terra mora sobre a água. Com isso, certamente não fui convencido por Tales, o mais velho dos Jônios; mas seu conterrâneo, Anaximandro, disse o movimento eterno ser um princípio mais velho que a água e nele, por um lado, todas as coisas vêm a ser e nele todas as coisas perecem. E seja assim o crível Anaximandro.

E não tem muita estima Arquelau que diz os princípios de tudo serem o quente e o frio? Mas o grandiloqüente Platão não concorda com ele e diz os princípios serem deus, matéria e modelo. Ah, agora estou convencido, pois como não acreditar no filósofo que tem a carruagem de Zeus? Depois, seu aluno Aristóteles se apresenta rivalizando com o professor da carroça. Este limita como princípios o fazer e o sofrer. E o que faz não sofre, o éter, e o que sofre tem quatro qualidades: seco, molhado, quente e frio, nesta mudança de uma qualidade em outra, todas as coisas vêm a ser e perecem.

Estamos cansados e fomos levados de cima para baixo pelas opiniões. Mas vou descansar na doutrina de Aristóteles e não vou deixar-me mover por nenhuma outra doutrina. Mas a que eu devo assentir? Filósofos mais velhos tocam minha alma: Ferecides diz serem os princípios Zeus, Ctônia e Cronos: Zeus seria o éter, Ctônia a terra e Cronos o , tempo, daí o éter seria o agente, a terra a entidade passiva e o tempo aquilo onde tudo seria criado. Quantos ciúmes esses velhos têm um contra o outro! Leucipo acha tudo isso besteira e segue dizendo os princípios serem o ilimitado, o eterno movimento e o minimal, e as coisas compostas de partículas mínimas sobrem e forma o ar, as compostas de partes grandes descem e foram a terra e a água,

Até quanto estudarei estas coisas não aprendendo nada de verdadeiro? A menos que Demócrito me liberte do erro dizendo os princípios serem o Ser e o Não-Ser, o Ser sendo cheio e o Não-Ser vazio. O cheio no movimento e na volta ao vazio constrói tudo. Igualmente eu queria concordar com o bom Demócrito e queria rir com ele, se Heráclito não tivesse me convertido, chorando e dizendo: “O princípio de todas as coisas é o fogo, duas são suas afecções: porosidade e densidade, uma forma, outra é afetada, uma mistura, outra separa.” É o suficiente para mim e já estou embriagado com esses princípios.

Mas eis que me chama de volta Epicuro sem exceder a bela doutrina dos átomos e do vazio: pois pela sua união, em vários lugares e de várias formas todas as coisas surgem e acabam. Não discordo de ti, Epicuro, ó melhor dos homens, mas Cleantes, tentando levantar sua cabeça da cisterna, ri de sua opinião e pesca os princípios verdadeiros: deus e matéria, e a terra transforma-se em água, a água em ar, este é levado para cima; que o fogo se origina em torno da terra e que a alma vaga por todo o mundo, de que participamos em uma parte que nos anima.

De todas estas coisas, uma multidão me carrega da Líbia, Carnéades e Clitômaco e quantos dos seus discípulos que pisoteiam as teorias dos outros, e estes declarando em termos precisos tudo ser incompreensível e uma farsa, fantasia, sempre encobrindo a verdade. O que eu, miserável, hei de experimentar depois disso? Como vou compreender tantas opiniões? Pois se nada é compreensível, a verdade escapou dos homens a tão louvada filosofia é mais disputa que ciência das coisas.

Outros do grupo dos antigos, Pitágoras e seus consortes, veneráveis e taciturnos, transmitem-me ensinamentos como mistérios e diz o maior e mais secreto deles: “o princípio de tudo é a mônada e de suas formas e de seus números são feitos os seus elementos.” E demonstram o número, a forma e a medida de cada um: o fogo é composto por vinte e quatro triângulos de ângulo reto, contendo quatro eqüiláteros. Cada um dos eqüiláteros é composto por seis triângulos de ângulo reto de onde se assemelham a uma pirâmide. O ar é composto por quarenta e oito triângulos perfazendo oito triângulos eqüiláteros dos quais cada um se separa em seis de ângulo reto, da forma que são quarenta e oito no todo. A água é formada por cento e vinte triângulos, perfazendo vinte eqüiláteros, assemelhando-se a um icosaedro, o qual contém cento e vinte triângulos iguais e eqüiláteros. O éter é composto de doze pentágonos e é semelhante ao dodecaedro. A terra é composta por quarenta e oito triângulos perfazendo seis quadrados, é semelhante, pois, ao cubo. Este é feito de seis quadrados que são separados em oito triângulos, de modo em que tudo é feito de quarenta e oito triângulos.

Pitágoras mede o mundo. Eu, tornando-me inspirado por ele, desdenho minha casa, minha pátria, minha mulher e meus filhos, tudo isso não mais me preocupa. Escalo eu mesmo o éter e levando o esquadro ao modo de Pitágoras começo a medir o fogo. Pois Zeus medindo não é suficiente. A menos que eu, o grande animal, o grande corpo, a grande alma suba ao céu e meça o éter, o reinado de Zeus acaba. Depois que eu tiver medido e Zeus aprender de mim quantas medidas o fogo tem, então descerei do céu e comendo azeitonas, figos e legumes, vou-me o mais rápido à água e com cotovelos, dedos e semi-dedos meço a substância aquática e sua profundidade, a fim de que eu ensine a Posídon de quanto mar ele é senhor. Ando em volta de toda a terra em um dia reunindo seus números, medidas e formas. Pois estou convencido de que sendo do jeito que sou, experiente, não errarei sequer um centímetro. Sei também o número dos astros dos peixes e das feras, colocando o mundo tranqüilamente numa balança para poder conhecê-lo.

Minha alma até agora se ocupou disto, governar sobre tudo. Chegando perto de mim, Epicuro diz: “você mediu apenas um mundo, ó caro, mas existem muitos e infinitos mundos.” Destarte, sou forçado a medir outros céus, outros éteres muitas vezes. Vamos, sem demora, nos preparando em poucos dias para viajar aos mundos de Epicuro. Os limites, Tétis e Oceano, transporei facilmente. Saindo em direção ao novo mundo, como a uma outra cidade, meço tudo em poucos dias. E de lá irei ao terceiro mundo, e depois ao quarto, ao quinto, ao sexto, ao centésimo, ao milésimo, e até onde? Pois a partir daí todas as coisas são ignorância em relação a tudo, negra fraude, erro sem limite, fantasia sem fim e intangível loucura. A menos que eu resolva contar seus átomos de onde estes mundos nasceram a fim de que nada reste sem ter sido examinado, especialmente aquelas coisas necessárias e úteis, a partir das quais a cidade e a casa prosperam.

Estas coisas eu examinei querendo mostrar aquilo que é contraditório em suas doutrinas e como avançam ao ilimitado e ao indefinido. A finalidade da filosofia é inexplicável e inútil, não tendo sido comprovada claramente nem com trabalhos, nem com evidências, nem com discursos.

Posted by Bruno Hohenstaufen at julho 24, 2004 5:52 PM