Um dos meus sonhos literários é escrever uma epopéia virgiliana, em latim, sobre a Guerra do Paraguai (ou guerra da tríplice aliança, como querem os Argentinos). Juro que farei cheio daquela pomposidade absolutamente vazia, farei de Pedro II um herói sanguinário (caput, caput Solani uolo, diria ele), Duque de Caxias um antigo herói resignado e Solano Lopez uma versão oitocentista de Fidel Castro.
Para explicar o começo da contenda, eu explicaria que, expulsa do Olimpo, a deusa da falsificação, Paragualia, se estabeleceu como mortal na região do Gran Chaco, e um de seus descendentes, Solano Lopez seria elevado à categoria de caudillo. Este, quando em visita ao imperador Dom Pedro II, trouxe três presentes: uma garrafa de whisky, que era pinga guarani, um grande instrumentista, que era na verdade um tocador de harpa paraguaia, e uma concumbina, que era um "Homo factus mulier". Diante do ultraje, o Imperador exigiu as desculpas de Solano que, por ter recusado, deu motivos para a guerra.
A epopéia seria cheia de frases de efeito (Paraguai Delendus est, ait baro Pimenta Veigae), e cenas realísticas de guerra, princiapalmente entre os heróis Ioannes et Ludovicus Inacius Siluae, um negro que luta pela sua liberdade e um nordestino que procura acabar com a fome no Paraguai, isto é, matando todos os Paraguaios. Plenejo seu fim no clímax, quando Dom Pedro mesmo, que luta sob a proteção de Nossa Senhora da Conceição, descobre que Ludovicus Inacius, seu fiel soldado, cultua o deus pagão Leninis, e ordena a morte desse soldado. Em suas últimas palavras, o bravo herói tornado vilão jura que surgirá um descendente seu que irá vingar a sua morte e ultraje.
Agora, para entrar na competição que anima o Brasil, revelo, em primeira mão, os primeiros trechos do poema:
Baronem invictum cana, Musa, quem primum
missum ab Brasiliae oris, ad Paraguaium
flumen venit, et pugnatu hostes paraguaias
et satanici deletu imperium Solani Lopis
et hostes Tupinicines agitu in Platinam
Lebetem. Memora mihi, musa, causas belli
quis primum offensit regem Petrum
et qua iniuria tranxit odium toto
populo Brasiliae. Fuit ille Paragualieis,
nomine Solano Maiore, trahens regni
domino Petro tria dona per annos regum.
A Musa, non sciebat ille ipsum dolum
Malos maiores laturi esse ad populum!
Canta o Barão invicto, ó Musa, que primeiro
enviado das praias do Brasil veio para o rio
Paraguaio para lugar contra os exércitos paraguaios
e destruir o império do satânico Solano Lopez
e conduzir as hostes tupiniquins para a bacia
Platina. Lembra-me, ó musa, as causas da guerra
quem primeiro ofendeu o rei PEdro
e por qual injúria trouxe o ódio para todo
o povo do Brasil. Foi aquele filho de Paragualia
de nome Solano Maior, trazendo para o senhor
do reino, Pedro, três presentes pelo seu aniversário.
Ah, Musa, não sabia ele que aquele dolo
haveria de trazer males maiores ao povo!
Postquam ruina cecidit in terram Paragualiam
Rex Petrus meditabatur quo vindicare nefas
Criminem militis Ludovici, colantis paganos deos
sanguinolentemque Leninem atque crudelem
Stalinem, ministrorum satan. Ratus loquens
illo, potuerit salvare suum servum et regnum
Brasiliae. Nigram in noctem ad castrum militis
advenit Petrus, Ludovicus quiescabat, sed quia
rex sonitum fecit in castrum intrans, subito
incedit gloriosus miles et magno cum pavore
quaesivit cutella foedere corpus alienum.
Petrus velociter tripudiui et quaerens ensem
"Demens", ait "cur vis me regem tuum occidere?
Pone manum tuam hic, e converte ad Christum
Per salutem tuam e totae tuae generationis!"
"Es tunc christianus et vis me christianum facere?"
respondidit Ludovicus, "non volo tuum deum, patriam
suam nec volo". et ai Petrus: "Accipe veram religionem,
abici falsos leninem et stalinem, colentes satan"
"Nolo", Ludovicus "et volo te occidere, odio autem
patres, patriam e populum Brasiliae, odio deum,
sanctos et plus ultra Catholicam Ecclesiam
quia in vita mea solus Satan est".
Et cum cutella se iacet ad tuendum regem.
Petrus foedit ensem in guttur satanici
colentis. "Morior!" ait "ense foedita
in gutture mea. Maledico te, regem tupinicem
Blasphemo te, post te nunquam erunt reges
regni Brasliae et centesimo anno post mortem tuam
Filius nepotis mei veniet, ut iniuriam hanc
vendicare et delere tuum imperium ab orbe terrae
Depois que a ruína caiu na terra Paraguaia
o Rei PEdro pensava como punir o nefasto
Crime do soldado Luís, que cultuava deuses pagãos
tanto o sangrento Lenin, quanto o cruel
Stalin, ajudantes de Satan. Pensando que falando
com ele, poderia salvar seu servo e o reino
do Braisl. Na Negra noite, foi Pedro à barraca
do soldado, Luís dormia, mas porque
o rei provocou um som ao entrar na barraca, subitamente
levantou-se o soldado fanfarrão e com grande medo
procurou com a faca enterrá-la no corpo estranho.
Pedro rapidamente pulou e procurando a espada, disse:
"Louco! Porque queres matar teu rei?
Põe tua mão aqui e converta-se a Cristo
Pela tua saúde e de tua procedência inteira!"
respondeu Luís :"Então és cristão,
e queres me fazer cristão? Não quero teu deus, e
nem tua pátria quero" E Respondeu Pedro:
"Aceita a verdadeira religião, rejeita os falsos
Lenim e Stalin, cultuadores de satan"
E Luís: "Não quero, o que quer é te matar, pois
odeio teus pais, tua pátria e teu povo do Brasil, odeio Deus
odeio os santos e mais ainda a Igreja Católica,
pois em minha vida só existe Satan"
E com a faca se lança para matar o rei.
Pedro enterrou a espada na garganta do cultuador demoníaco
"Eu morro", disse "com a espada enterrada na garganta.
Te amaldiçoo e blasfemo: depois de ti, nunca mais haverá reis
do reino do Braisl, e no centésimo ano depois de tua morte
Um filho de meu neto virá, para vingar esta injúria
e apagar o teu império da face da terra!
A guerra foi muito representada na arte brasileira, temos aqui dois exemplos:

Este primeiro é a representação da Batalha de Riachuelo, feita por Jean de Cariacica, cerca de 50 anos após a guerra. Podemos notar algumas leves imprecisões históricas, como o uso de alguns instrumentos. Mas o mais importante é notar a dignidade com que Pedro II foi retratado e também Ludovicus, aqui representado segurando a lança com as duas mãos, entretanto já dá para ver em seus olhos os sinais da futura deserção.

Aqui está representada, em bronze magnífico, a luta entre Ludovicus e Pedro segundo, no exato momento em que, após a rejeição da "Rocha de Garunhuns", Pedro procura a espada para se defender. Notem a força descomunal que vemos nas expressões.
Posted by Bruno Hohenstaufen at maio 23, 2005 9:04 PM