Ontem, Salvatore Accardo, um dos maiores violinistas em atividade (se não o maior), e uma orquestra de jovens italianos estiveram aqui em Belo Horizonte tocando um programa de Brahms. A divulgação do concerto, como costuma acontecer com os concertos promovidos pelo Estado de Minas, foi bastante insuficiente, só fiquei sabendo do concerto poucos dias antes, sendo que a presença de Salvatore Accardo era apenas uma nota de rodapé perto do destaque dado à "importantíssima" Orchestra Giovanile Italiana- uma prova de como os promotores de evento e do importantíssimo (segundo eles) Palácio das Artes são completamente amadores.
Certa vez eu entrei em discussão com uma das relações públicas do Palácio, que afirmava, com o maior orgulho, essa casa de concertos ser uma das mais importantes das Américas.
-Das Américas?
Sim das Américas. Confesso que adoraria conhecer esse tal teatro, não era o mesmo o que eu, a contragosto freqüentava. E a mulher elencava, junto a concertos de qualidade bastante duvidosa (lembro-me de um que tinha uma orquestra de cordas com músicos andando pelo palco e a bandeira americana hasteada no "Quarteto Americano" de Dvořák, coisa horrível), a montagem de dezenas (sic) de óperas (sic) por ano.
-Mas minha senhora, vocês estão com uma péssima divulgação. ou então fazendo récitas secretas, pois eu só ouço falar de uma por ano.
Ela ainda falava que o departamento de propaganda estava se esforçando para melhor divugar as óperas de câmara...
-Epa! Óperas de câmara? Aquelas récitas com piano e uma seleção de árias de cada ópera? E vocês chamam isto de ópera? Mas minha senhora, um punhado de árias acompanhadas de piano até eu faço aqui em casa. Já até imagino o cartaz da próxima ópera daqui de BH:
De Giuseppe Verdi
Rigoletto
Duca di Mantova: Bruno
Rigoletto: Bruno
Gilda (ui): Bruno
Orquestra Belo Horizontina de MIDI's
Preparada por Bruno
O ponto máximo, já aviso, será quando eu farei, comigo mesmo, o quarteto (Bella figlia dell’amore) terceto ("Ah piú non ragiono") do terceiro ato. Assim, minha senhora, tenho que discordar de você, a minha casa é a maior casa de espetáculos da cidade.
Bem, voltando ao concerto, compro dois ingressos para o balcão, bem de frente ao palco. Não sei por que, mas um comentário do homem que sentava ao meu lado ("eu gosto de ficar no balcão porque daqui dá para se ver tudo"), me fez prever uma noite longa.
Tive certa dificuldade em conseguir ingressos, não consegui comprar ingressos casados e eu e meus pais sentamos em fileiras separadas. Bem, parecia casa cheia, e não foi, talvez porque os patrocinadores e políticos convidaram pessoas que acham Brahms uma excelente marca de cerveja... Este quadro se repetiu ano passado, no concerto do Musica Antiqua Köln: ingressos esgotados, mas lugares vazios. O que não acontece nos recitais dos músicos nacionais, coisa curiosa- como Arnaldo Cohen tocando a pior música de todos os tempos: o "Concerto em formas brasileiras" de Hekel Tavares.
E foi longa a noite, assim como era "Buia" a noite lá do teceiro ato do Rigoletto que cantarei amanhã. A começar, como aperitivo, pela platéia, apinhada de políticos, de todos os partidos, angariar votos dos chamados "formadores de opinião", ou soi-disants. Logo em seguida, notei um palanquinho ao lado do Palco. E eis que sobe, em seu terninho de C&A, um legítimo "homo insipiens", o excelentíssimo sr. Fulano, secretário de Cultura de Minas Gerais:
-Prezados espectadores -bate no microfone- desta emérita casa de shows - eu bocejo - antes do início desse espetáculo, gostaria de agradecer a parceria...
-ih, esse cara está faturando...
(...)
-(...) deste público muito sofisticado e exigente de Belo Horizonte (...);
Até que eu gostei desse político, ele me lembrou, ainda que involuntariamente, o Seinfied, e seu estilo "piadas de palanque", tão tipicamente americano. "Público sofisticado" foi perfeito, tão sofisticado que aplaude de pé a quase qualquer coisa que produza som lá na frente. Até mesmo o concerto do Hekel, com seu tan-tan glorificando a cadência IV-V-I mais banal da história da música, mas não vamos baixar o nível.
Mas vamos ao que interessa (ou pelo menos o motivo da presença daquela politicagem toda - mas é o que eu acho), à música. O programa era bastante interessante: apesar de Brahms ser o supra sumo do repertório tradicional, ele não costuma ser muito apresentado por aqui, dada as péssimas condições dos músicos autóctnoes. Ainda assim, qualquer melômano que se preze sabe de cor as obras lá tocadas. E eis que começa a música: a orquestra ataca meio lenta e desconjuntada o começo do concerto, em Ré Maior como seu "irmão", o de Beethoven. Comecei a temer pelo futuro da noite, com as cordas encobrindo as madeiras, que tão importantes são nesse concerto. Mas, por sorte, logo depois da exposição do primeiro tema, o maestro parece ter conseguido acertar a orquestra.
Logo estamos todos prontos e acalmados para aquilo que viemos, o violino de Salvatore Accardo. A entrada do violino no concerto de Brahms é uma das mais gloriosas do repertório tradicional, Accardo começou bem, sem exageros para arrancar aplausos fáceis, armadilha em que muitos violinistas costumam cair. O domínio que ele tem do violino é algo que nunca tinha visto antes, afinado, ágil e com volume, certamente ele foi a grande estrela do concerto.
E ele seguiu, Accardo sempre excelente, a orquestra muito boa (especialmente para mim, meio desconfiado de "orquestras de jovens"), com uns desencontros aqui e ali, mas nada comprometedor, e o estranho maestro, que comandou direitinho a orquestra, apesar do gestual tão esquisito quanto era incomum sua figura: cabelos à Levine e sobretudo (no frio antártico de Belo Horizonte...), ao invés de fraque. Ao final do primeiro movimento o "público sofisticado" se manifestou aplaudindo (com direito a um bravo!)- Signori, siamo in Brasile. E a noite prometia, menos pela música excelente e mais pela platéia.
O segundo movimento com um tempo levemente acelerado, o que foi uma vantagem em certos aspectos, pois facilita a compreensão do todo. No intervalo mais aplausos. E, por fim, o terceiro foi muito bem tocado pela orquestra, com tempos mais dançantes e stacatto, o que funcionou nesta partitura.
Intervalo, antes, um BIS, bastante óbvio: o Capriccio no. 24 de Paganini, a especialidade da casa, uma das mais conhecidas peças para violino solo tocada pelo seu violinista paradigmático, dizer da excelência da performance talvez não seja necessário. Repetiu-se o panorama do concerto do MAK, programa alemão, bis italiano, na última vez, foi comprovada a superioridade total da música italiana sobre a germânica, uma vez que a sonata “La Folia” de Domenico Gallo, um desconhecido italiano, o bis, foi o ponto alto de uma noite com alguns dos maiores compositores alemães, desta vez nem tanto. Merece também destaque o respeitável público que conseguiu o feito de aplaudir no meio da música.
É preciso comentar algumas coisas, primeiro é em relação ao entusiasmo afetado do público brasileiro, que aplaude desesperadamente qualquer coisa que vem pela frente. Isso não se explica apenas pelo desconhecimento de causa, creio que tem a ver com a própria característica social do brasileiro e sua cordial sociopatia. No medo de parecer "hostil" ou "desagradável", o brasileiro aplaude, e menos porque gostou ou está deslumbrado. E no meio artístico, especialmente musical, devido a seu tamanho, isso se mostra mais grave, afinal, todos são "amigos". Pode parecer engraçado, mas nunca fui a um concerto que alguém não tenha aplaudido de pé e gritado "bravo".
Voltando do intervalo, a orquestra apresentou a Quarta sinfonia de Brahms. Execução bastante correta, a orquestra e o regente se portaram muito bem, apesar de alguns desencontros aqui e ali, e alguns erros mais sérios na Passacaglia final, mas pouco perto do que estamos acostumados a ver por aí no Brasil. O público? Continuou aplaudindo no meio dos movimentos. O senhor à minha frente estava dormindo, e a digníssima senhora ao meu lado foi embora no meio do concerto, "essa música é uma porcaria" dizia a fulana. Falar mal de clássicos diz mais de quem critica do que do clássico...
Ao final, uma especialidade da casa, a abertura da ópera de Rossini L'Italiana in Algeri como bis. Um leve sol italiano, em um programa dominado pelo nublado Brahms, um contraste interessante para um concerto com um solista excelente, uma orquestra competente e um público que mostra estar caminhando a passos firmes ao fino do provincianismo.
Posted by Bruno Hohenstaufen at agosto 12, 2004 7:59 AM