É bom voltar a postar, reencontrar os amigos e lubrificar as engrenagens e juntas paradas há muito tempo, mas graças aos sábios conselhos de Felipe Ortiz resolvi postar estas pequenas notas.
Assisti a um programa na Globo News de uma estranheza única: um programa que defendia de forma manifesta o ateísmo. A despeito das minhas opiniões pessoais, nada contra, já que a liberdade de expressão é ao menos anunciada na nossa constituição. Ainda que não haja nada de exatamente ilegal nisso, surge uma dúvida ética em relação a Globo e sua posição em relação a este assunto, uma vez que foi uma das reportagens mais parciais que já vi nesta emissora. O fato de não ter buscado nenhuma opinião em contrário (ainda mais tendo em vista que foram feitas as mais primárias e ridículas acusações à religião no geral) fere qualquer princípio de jornalismo imparcial e demonstra uma estranha linha editorial da importante emissora cujos pronunciamentos a respeito de assuntos religiosos devem ser sempres duvidados e contestados daqui por diante.
Mas ainda não chegamos no pior, a escolha infeliz dos participantes revela mais do que se queria mostrar, três cientistas, das ciências exatas e biológicas a fim de discutir sobre a importância do ateísmo nas relações humanas, como ele seria saudável, limpo etc e tal. Só que, infelizmente, usou-se dos argumentos mais indigentes para falar sobre o assunto, para um biólogo tal lá, o ateísmo e seu filhinho menor, o cientificismo (para não chamar de positivismo), seria vantajoso porque ele traz uma aura de certeza em suas respostas que a religião não tem, por ser baseada na fé, emoção e tal (bem, o argumento é altamente contestável, mas vá lá, vou dar uma chance). E que, por isso, não haveria nada de científico que o aborto fosse uma coisa errada e que, exatamente por isso, sua proibição seria um absurdo lógico.
Pois bem, também não há nada de científico que prove que o assassinato seja errado, aliás, é exatamente o contrário: tanto o aborto quanto o assassinato são logicamente muito mais interessantes do que a defesa da vida, pelo simples motivo que você pode se valer deles para selecionar a melhor cepa de seres humanos para a competição futura, como fazemos com os bois. Aliás, também podemos selecionar os homens, como fazemos com os bois, para fazerem aquilo que são melhores: pessoas muito inteligentes, ou muito bonitas, podem servir de reprodutores; pessoas fortes, de operários e por aqui seguimos na nossa repartição lógica da sociedade. E claro, os incapazes sendo mortos da maneira mais rápida e barata possível, escória indesejável da humanidade.
Os resultados são sempre terríveis, é a velha fábula da velha usurária se repetindo ad infinitum, uma espécie de Ícaro moral da humanidade. A questão em torno disso são os valores de certo e errado serem medidos ou imaginados de maneira científica, querer reservar isto para a ciência é estar disposto para o fracasso. E se já demasiadamente negados, talvez seria o caso de se repensar tudo isto, muitos o fizeram, mas este velho argumento ainda seduz a muitos por um motivo simples:
Pois na verdade a questão da ciência justificar algum ato moral (apenas para evocar o velho Kant) é um mero acessório para uma batalha ética que se dispõe há já algum tempo. Duas visões de mundo conflitantes, excludentes até: uma visão tradicional, religiosa se quiser; e uma visão que não diria moderna, ela é muito antiga (bem, sempre existiu Anacreonte). A primeira busca um limite ou uma medida num sentido maior transcendente à experiência sensível, é de certo modo uma negação do mundo sensível e das experiências daqui "toutou kosmou" em busca de um bem maior, que pode ser alcançado mesmo "en totoi toi bioi", mas que não é nem fácil e nem evidente. A segunda é uma adoção simplória da máxima protagoriana do "homem como sua própria medida", uma tentativa dupla de maximizar os prazeres simples, da chamada alma apetitiva, e de minimizar as constrições causadas pela própria natureza humana, em uma espécie de hedonismo misturado com epicurismo (um tentanto o máximo de prazeres e outro o mínimo de preocupações), o grande problema dessa visão é que, como o próprio Epicuro já notou, a busca de prazeres é por si só trazedora de preocupações, assim como a sua solução para a maior preocupação dos homens, a morte, é bastante insatisfatória.
Basicamente um tenta puxar o homem para a negação de sua animalidade, o outro, busca a afirmação mais baixa de todos seus impulsos apetitivos, em uma superlatização dessa mesma animalidade negada, que chega até ao ponto de tentar acabar exatamente com o que é mais típico do homem em relação ao animal, a consciência de sua efemeridade. E é exatamente aqui que entra um outro ponto crucial para o pensamento de hoje: o uso da biologia e medicina como escape das frustrações geradas exatamente por esta consciência que é terrível ao homem. Muitos vêem hoje na medicina uma possível forma de tentar vencer essa constrição maior e por isso cada vez mais vozes se levantam para apoiá-la, mesmo se para isso seja necessário a morte de indefesos, pois, para a alma apetitiva, sua busca de prazer se torna sempre maior, não reconhecendo limites em si.
De onde chegamos que, embora muitos possam sinceramente não acreditar em Deus, São Tomás diria destes que eles negam a própria evidência do intelecto, a maioria o faz simplesmente que uma crença em algo maior é um obstáculo para o desenvolvimento pleno de seus objetivos baixos e egoístas.
Posted by Bruno Hohenstaufen at maio 8, 2005 10:40 PM