A música, por não ter um referencial evidente no mundo, como a literatura e as artes plásticas, tem sua referênca, seu valor e seu sentido colocados muito mais na cultura em que está do que em um valor absoluto.
E, evidentemente, com as mudanças culturais, esses valores se transformam. Na Grécia antiga, julgava-se a música capaz de induzir as pessoas aos estados de espírito os quais ela mimetizava, como exemplo bastante característico disso são as restrições feitas por Platão ao uso de determinadas escalas já que induziriam nas crianças comportamentos indesejáveis à nobre classe dos "Phylakes". Mas, desde o começo, com o Pitagorismo, introduziu-se uma visão diferente da música, a música como uma entidade perfeita, coerente, fechada em si, claro, isto vem do estudo das freqüências e da série pitagórica. O Neopitagorismo, parece (temos pouca informação sobre o primeiro pitagorismo, por ser uma seita pesadamente exotérica), ainda levou essa noção de harmonia mais profundamente, a música não é apenas uma ordem em si, mas representa a ordem cósmica dos seres imutáveis, ela é a perfeição em si, metafísica em todos os sentidos que essa palavra quer dizer. Daí que vem o conceito de harmonia das esferas, cada astro se encontra em uma proporção e em uma posição, cada cículo espacial seria uma nota musical, o universo inteiro seria considerado como uma música. E do neopitagorismo entra essa visão para a idade média.
Com efeito, a música fazia parte do ciclo científico do quadrivium (que podemos entender como uma espécie de ensino médio medieval), o ciclo dedicado às matemáticas, sim, a música era considerada uma matemática (se falarmos isso hoje depois do século XIX somos apedrejados, num tempo em que a música é identificada com a emoção em si). E essa visão é aprofundada nesta época, na verdade, o caráter da música medieval é eminentemnete acústico, especialmente a partir da descoberta da polifonia, ela se interessa enormemente pelas consonâncias e dissonâncias, associando a temas teológicos e filosóficos, ou melhor, continuando a interpretação neopitagórica. E isso não vale apenas para a música, como se expande para praticamente todos os domínios artísticos, o simbolismo, as alegorias e os paralelismos da arte desta época impressionam qualquer um. Com efeito, a música medieval prescinde da sua manifestação sonora, que chega a se tornar irrelevante em certos pensamentos: há uma definição fascinante de música feita por Aureliano de Reôme que diz haver três tipos de música: a musica universalis, a música das esferas de que falei lá em cima, a musica mundana, que seria a experiência da música no mundo sublunar (cf. Metafísica de Aristóteles) e a musica humana que seria a música que hoje interpretamos como tal.
Tudo isso serve para também entender à música desse tempo, pois é muita ingenuidade imaginar um Leonin redivivo ficando impressionado com a música de hoje, pois ele provavelmente acharia sem sentido, afina, não é uma música que espelhe o conceito de perfeição, harmonia, consonância, pelo qual ele se orienta.
É muito frutífero notar a evolução da palavra harmonia em todo este contexto cultura medieval, porque, de um significado inicial de "ajustamento", "concordância", passa a significar música em si que é considerada neste aspecto de algo ordenado, como um grande relógio.
O que podemos chamar de renascimento na música é a introdução de dois elementos: o primeiro é o popular, na música extremamente "científica", "acústica" e "erudita", que se tornou a música medieval. E o segundo são os elementos clássicos, tirados da leitura das obras de Boécio e, a partir das traduções para o latim, Plutarco. E são essas influências melódicas (e rítmicas) da música popular, uma ideologia neoclássica, e a música acústica polifônica e harmonicamente orientada, que vão se encontrar no final do século XVI e formar a música ocidental que conhecemos hoje. O pensamento sobre a música, entretanto, jamais vai voltar a ser neoplatônico, e vai tender sempre, desde Locke, Hume, Kant, Hegel até Nietzsche, a ser neoclássico-aristotélico.