Foi em uma grande livraria em Nápoles que encontrei um livro com as obras de um poeta catalão do século XV, a grande curiosidade que este achado me trouxe, e meu interesse característico pela idade média me compeliram a comprar o volume. Depois de algum tempo li e achei um poeta digno de um retorno quando eu tivesse mais tempo, neste feriado o tinha e resolvi ler suas páginas, o que li me motivou para postar algo sobre este poeta.
Um dia apenas de leitura já me bastou para ser convencido que as palavras elogiosas da contracapa estavam corretas: Ausiàs March é o maior escritor da literatura catalã e mesmo o maior poeta do século XIV europeu - por mais que o lobby de Villon resmungue e faça cara de desgostoso, não há comparação entre os dois poetas. Ainda que o parisiense possa ser hoje mais reconhecido e lido, isso se deve mais a um fator contingencial - o declínio da cultura catalã depois de sua União com Castela e a difusão do francês ao longo da idade moderna.
Afinal, se hoje podemos afirmar seguros que a França é um país e uma cultra muito mais abrangentes do que a cultura catalã, certamente isso não era uma afirmação tão fácil de ser feita no quatrocento, o século de March. Os Catalães se viam, e também eram vistos, como legítimos herdeiros e donos da tradição trovadorística, o movimento literário medieval mais rico e influent. A primeira razão, e nosso poeta é um dos primeiros a mostrar uma certa separação disso, é que até então não há uma clara distinção entre o que seria a Catalunha e o que seria o Languedoc, além de línguas próximas - e na idade média certamente havia intelegibilidade mútua- a forte ligação política entre sul da França e o Reino de Aragão aproximavam a inda mais as duas regiões: durante o final do século XII, quase todo o sul da França se encontrava sobre controle catalão, Provença, Rosselló, Tolosa, Montpellier, Bearna (estou dando os nomes catalães/provençais, que se diferem um pouco dos franceses). E a outra razão é que a corte Aragonesa sempre acolheu cordialmente os trovadores, a ponto de um de seus reis, Alfons II, ser chamado de "El trobador".
Tudo isso torna a literatura catalã pelos próximos dois séculos indistinta da literatura provençal, língua a qual se tornou a manifestação literária única do país.
E Ausiàs March pode muito bem ser chamado de um Trovador, e também o primeiro da longa série de "últimos trovadores". É o primeiro, decerto, a escrever no seu dialeto natal, mas sua língua não está ausente dos provençalismos. Ele mesmo se confunde e chama sua língua, um registro que se aproxima mais do valenciano do que de qualquer dialeto occitano, de llemosí. Também, depois de dois séculos em que a poesia catalã é exclusivamente provençalista (até mesmo Ramón Llull, um grande estilista do catalão, escreve seus poemas em provençal), essas marcas permanecem - como comparação, o português, que teve uma fase de intensa influência do latim (diria refluência), tem até hoje estruturas sintáticas latinizantes, como ablativos absolutos.
Porém, mais importante do que o dialeto usado por March, é seu conjunto de temas, todo advindo da poesia occitana: o deleite, o amor recusado, o desejo de amor, a loucura do amor; o tratamento deste conjunto, entretanto, se diferencia enormemente do lugar-comum trovadoresco. Longe dos fogos de artifícios das invenções sonoras de um Arnaut Daniel, ou da clareza primaveril de Bernard de Ventadorn, ou dos jogos de palavras do Trobar clus, March vai mudar de forma decisiva essa poética, pelo uso fortíssimo da antítese, não pelo deleite do jogo conceitual, mas sim pela introdução de um tema não muito existente entre os trovadores, mas algo caracteristicamente novo e contemporâneo: a morte e a decepção com um mundo corrupto e imoral. É a partir do choque entre um mundo idealizado e um mundo baixo que se forma a poesia de March, e ele mesmo nos informa isso:
Mon car senyor, tot hom cerca delits
segons cascú sa qualitat requer,
mas a present la dona y lo diner
són los déus dos en lo món favorits
Meu caro senhor, todo homem procura deleites
cada um segundo sua qualidade requer
mas hoje em dia a mulher e o dinheiro
são os dois deuses preferidos no mundo
É exatamente deste conflito entre valores idealizados e ações vis que surge a noção e formulação característica de sua poesia: a de que na realidade o bom e o vil estão misturados e que, apesar de identificáveis, não são separáveis e fazem parte da própria natureza humana:
Quant de amor, indiferent, yo parle
sia entés lo que tot l'ome liga
e no aquell qui sols a l'àngel toca,
e menys als bruts, puix de rahó freturen.
Aquest és dit amor de home propi
car é copost de ses dues natures;
bell és e leig, segons de qual més toca
mas no pot fer que reste menys de mescla
Quando falo indiferentemente de amor
que seja então o que liga todo homem
e não aquele qui só ao anjo toca
e nem o dos brutos, porque privam de razão.
Este é chamado amor próprio do homem
pois é composto de suas duas naturezas
é belo e feio, da qual mais participa da segunda
mas não se pode fazer sem que reste uma mistura.
Essa mistura de bom com vil, ou feio, é o tema característico de March, ele está bem consciente de um estado humano que não consegue se separar do corpo, mas que ao mesmo tempo participa de uma profunda dignidade. Também sabe March, por própria experiência, que os simples prazeres carnais não conseguem lhe proporcionar a felicidade que almeja, embora ele deseje o amor Petrarquiano, puro e sublimado, pela sua aparente loucura e desconcerto ao mundo, ele se anuncia ao mundo:
Yo són aquell qui'n lo temps de la tempesta
quant les més gents festegen prop los fochs
e pusch haver ab ells los propris jochs
vaig sobre neu, descalç, ab nua testa
Eu sou aquele que na tempestade
quando os outros festejam junto aos fogos
e posso ter com eles os mesmos jogos
vago sob neve, descalço, com a cabeça descoberta
E de forma ainda mais eloqüente:
Així disposto, dolç me sembla l'amarch
tant és en mi enfecionat lo gust.
A temps he cor d'acer, de carn e fust
yo só aquest que-m dich Ausiàs March
Assim disposto, o doce me parece amargo
De tanto o gosto me acostumou
Hora tenho o coração de aço, carne ou madeira
eu sou aquele que me chamo Ausiàs March.
Ao procurar uma felicidade no amor que nunca é encontrada, ao mesmo tempo que reconhece sua natureza profundamente contraditória, Ausiàs March culmina no Cant Spiritual, uma longa oração a Deus, em tom patético e grandioso, onde essa separação entre as duas naturezas se mostra mais forte, e a oração é justamente pedindo para que Deus conceda a ele o poder de unir as duas em direção a Ele e à salvação. Suas considerações sobre a natureza humana e a possibildade de realização desta na Terra fazem deste longo poema uma das mais belas criações artísticas ocidentais e, talvez, deste grupo a mais desconhecida.
March viveu em uma época das mais negras da história, pois, ao contrário do que diz Vasari, por exemplo, o século XV foi uma das maiores crises da história: guerras na Europa, a sombra dos muçulmanos mais uma vez ameaçando a Europa, a cristandade em seu ponto mais fraco desde a batalha de Tours setecentos anos antes, os efeitos duradouros da Grande Peste, uma crise econômica seríssima, a falência do sistema feudal provocando um aumento da violência e da mendicância fizeram dos primeiros anos desse século, quando viveu Ausiàs, uma época assolada morbidamente pela idéia da morte, do grotesco, da violência, da efemeridade da morte e da onipresença do mal. Embora isso se aplique também a Ausiàs, é um traço mais marcante da poesia de Villon, por exemplo, mas o que nos marca em relação ao nosso poeta de agora é como ele converte esses pensamentos, de certa forma respostas diretas a males presentes, em especulações da mais alta universalidade.
Mas se também não foi frívolo e ingênuo como os renascentistas da Itália, na crença de que a busca do prazer e da satisfação dos apetites sozinha fosse capaz de trazer a felicidade (em vários pontos March se mostra um grande leitor da Ética de Aristóteles) sua poesia vive nestes dois âmbitos até se resolver gloriosamente no Cant Spiritual, qualquer dia eu traduzo esses 250 versos e coloco aqui, mas por hora, digo que não pronuncio uma sentença completa e realizada sobre esta poesia verdadeiramente notável, mas apenas anoto esboços para a compreensão de uma obra muito pouco lida, mas de valor inacreditável. E fiquem com esse menor:
Sí co·l malalt qui lonch temps ha que jau
e vol hun jorn esforçar-se llevar,
e sa virtut no li pot molt aydar,
ans, llevat dret, soptament, plegat, cau,
ne pren a mi, que m'esforç contr·Amor
e vull seguir tot ço que mon seny vol;
complir no u pusch, perque la força·m tol
un mal estrem atraçat per Amor
Se como o doente que há muito tempo jaz
E quer um dia esforçar-se a levantar
E suas forças não lhe podem ajudar
Ao contrário, diretamente levanta-se e cai
Como eu, que me esforço contra o Amor
E quero seguir tudo aquilo que meu desejo quer
Mas não posso conseguir, porque me tira a força
Um mal extremo induzido pelo amor.