junho 21, 2005

Arma uirumque cano

Ovídio sempre foi um poeta muito importante para mim, desde que o descobri, sua obra representava, e representa, algo muito caro para mim na literatura, ela é absolutamente irrelevante, é consciente disso e faz o tempo todo troça de tudo que pode. O constraste é sério com a poesia clássica antiga, mas também, e para mim de forma ainda mais forte, com a poesia moderna, especialmente a contemporânea. Afinal, é uma poesia brilhante em sua burilação técnica formal e mesmo nas ligações entre idéias e jogos gnômicos, mas também é uma poesia autoconsciente e também sabedora de sua irrelevância, daí que, embora compartilhe um certo "pós-modernismo", muito se afasta do desbunde solene e serioso de um Augusto de Campos, só para citar o alvo mais fácil. Não estou com paciência e/ou tempo para aumentar mais alguma coisa, apenas vou citar e comentar um poema para ver se vocês entendem meu argumento.

Esta elegia, a primeira elegia do primeiro livro da primeira obra publicada de Ovídio, vale como uma carta de intenções, não apenas para os Amores, mas também para toda sua poesia. Afinal, é do amor e em dístico elegíaco que vai desenvolver a maior parte de sua obra, e talvez, salvo as Metamorfoses, o mais importante. Assim, Ovídio trabalha ao mesmo tempo um tema retórico chamado refusatio, que é a recusa a se tratar do assunto, e a confirmatio, que quando o poeta e/ou orador resolve tratar do assunto por motivos de força maior. E, não contente disso, Ovídio ainda surge com uma explicação mitológica que confirma duas tendências muito fortes da poesia da época: o uso do dístico elegíaco e o tema do amor - ou o que os antigos entendiam por esta palavra, e, para terminar, o uso de citações mitológicas e, ao mesmo tempo do exagero do patético da situação apenas vêm confirmar o aspecto debochado e puramente lúdico desse texto, longe das Terras devastadas, longe da morte e da vida, longe de uma poesia sagrada, a obra de Ovídio surge do próprio prazer de ler e fazer poesia, pode-se questionar sua profundidade, como muitos o fazem, não, se pode, porém, questionar o brilhantismo de Ovídio.

Na tradução, coloco o original e em seguida minha versão, eu fiz a minha tentativa mais ousada: tentei mimetizar ao máximo o efeito métrico do texto, isto é, o jogo entre hexâmetro dactílico, o metro da épica de Homero e Virgílio, e o pentâmetro, associado à elegia, e, para Ovídio, ao amor. Além disso, o uso às vezes frequente de citações da épica ajuda a criar o clima contrastante de toda a elegia. Para tentar criar o máximo de efeito possível, eu usei dois metros: o decassílabo heróico, usado por Camões, e a redondilha maior, o metro mais tradicional da poesia em português, usada desde o século XIII, para terminar, aproveitei para incluir uma e outra citação do Vate, para compor o clima da obra, e em algumas redondilhas, aproveitei para citar Tomás Antônio Gonzaga, pois Ovídio também usa frequentemente de vocabulário e citações de outros elegíacos, como Tibulo e Propércio. Talvez seja haroldístico demais essa tentativa, também nem sei o seu sucesso, mas sei que valeu pelo trabalho intelectual dada a rigidez da tentativa. Tomara que com minha manca tradução, vocês consigam sentir mais de perto a riqueza da poesia de Ovídio:

Arma gravi numero violentaque bella parabam
Edere, materia conveniente modis.
Par erat inferior versus: risisse Cupido
Dicitur atque unum surripuisse pedem.
'Quis tibi, saeve puer, dedit hoc in carmina iuris?
Pieridum vates, non tua turba sumus.
Quid, si praeripiat flavae Venus arma Minervae,
Ventilet accensas flava Minerva faces?
Quis probet in silvis Cererem regnare iugosis,
Lege pharetratae virginis arva coli?
Crinibus insignem quis acuta cuspide Phoebum
Instruat, Aoniam Marte movente lyram?
Sunt tibi magna, puer, nimiumque potentia regna;
Cur opus adfectas, ambitiose, novum?
An, quod ubique, tuum est? tua sunt Heliconia tempe?
Vix etiam Phoebo iam lyra tuta sua est?
Cum bene surrexit versu nova pagina primo,
Attenuat nervos proximus ille meos;
Nec mihi materia est numeris levioribus apta,
Aut puer aut longas compta puella comas.'
Questus eram, pharetra cum protinus ille soluta
Legit in exitium spicula facta meum,
Lunavitque genu sinuosum fortiter arcum,
'Quod' que 'canas, vates, accipe' dixit 'opus!'
Me miserum! certas habuit puer ille sagittas.
Uror, et in vacuo pectore regnat Amor.
Sex mihi surgat opus numeris, in quinque residat:
Ferrea cum vestris bella valete modis!
Cingere litorea flaventia tempora myrto,
Musa, per undenos emodulanda pedes!

E a tradução:

As armas e os barões assinalados
Preparava-me a cantar
Matéria conveniente a meu metro
Este verso inferior
Soava igual, mas Cupido, às risadas
Surrupiou uns três pés
“ Seu Moleque safado”, eu disse
Quem te deu nos nossos cantos
Este direito? Nós somos profetas
Das musas, não da tua laia
O que seria, da loura Minerva
As armas Vênus portar?
E quem permitiria, Ceres nas selvas
Reinar, e a Virgem da aljava
Dominar todo campo, legitimada?
E quem ensinaria Febo
Belo pelo cabelo a arte guerreira
Lutar, e Marte a lira grega
Tocar? São demasiados os seus reinos
Menino, ainda procuras
Novos trabalhos, outros mais cuidados?
Ou é tudo teu, dos templos
Do Hélicon, até, de Febo, a lira
E isto julgas a olhos belo?
E quando me aparece em verso novo
A folha, aquele me amolece.
Minha tuba canora não se adequa
A tais assuntos de alcova!
A garotas demais apaixonadas
Mostrando ainda brancas faces!
Mas assim eu falei. E da aljava
Tira uma seta e dispara
O espinho, p’ra falência total:
“Aceita o trabalho, poeta!”
Disse o menino e certas tinha as setas.
Ardo, e no vácuo do peito
Reina sozinho o Amor. Pois que assim seja:
Minha obra a partir de agora
Começará gloriosa em decassílabos
E em sete irás descansar.
Ó sangrentas batalhas, com seus modos,
De mim não mais ouvirão!
Cinja as frontes com este mirto, Musa,
Cantarás em sete sílabas!

Posted by Bruno Hohenstaufen at junho 21, 2005 12:22 PM