Até pensei em escrever alguma coisa sobre Rossini, por ser seu aniversário, mas tantas pessoas podem fazer isso com mais propriedade do que eu, que decidi apenas deixar aqui uma frase do Stendahl sobre sua "L'italiana in Algeri"
Une musique qui fait oublier toute la tristesse du monde
Acho que isso resume Rossini.

PS: Cliquem aqui para ler uma breve biografia e escutar um pouco de sua música, é necessário se cadastrar, mas tem gravações interessantes do compositor.
Uma das atitudes que mais me irritam é o anti-cristianismo radical, que diz que o aparecimento do cristianismo foi um retrocesso no pensamento. Não é preciso estudar muito história da filosofia para ver que, mesmo filosoficamente, o cristianismo se apresentou como o caminho mais eloqüente e convincente para o pensamento grego.
Tende-se a se esquecer de que a filosofia da época imperial já havia se afastado, e bastante, da filosofia clássica, para não ficar desfilando lugares comuns, eu me limito a dizer que o cristianismo, ou melhor, a filosofia cristã, foi a que melhor resolveu o problema da individualidade humana que é uma das grandes questões do helenismo. A noção cristã de igualdade e vontade são bases de fatores atuais e essenciais, como a política moderna.
Também não dá para negar o avanço epistemológico, operado principalmente na escolástica ocidental, mas que é fruto de uma posição teológica. Aliás, é interessante como é quase um chavão ser contra qualquer tipo de dogma e adotar um pensamento eminentemente cético. O dogma ao qual me refiro é a negação da pre-existência da alma. No Timeu, Platão se vale dessa doutrina para introduzir o intragável argumento da remniscência, e assim explicar o conhecimento das idéias. A filosofia ocidental a partir do século IX busca repensar a espistemologia partindo do pressuposto cristão de que a alma não é eterna: tratava-se de pensar como se chegava ao conhecimento das formas (ou categorias, ou universais) e mesmo em sua natureza. Os progressos em lógica e dialética nesse período são notáveis, como também o importante restauro do aristotelismo para a compreensão tanto da epistemologia quanto da metafísica.
A importância e lucidez do pensamento cristão jamais podem ser negadas.
Uma pessoa reclamou da quantidade de citações dos meus textos, quem fez isso certamente não leu Rabelais, ele cita tanto que chega às vezes parecer vaidade, não, é vaidade. E elas não fazem do texto de Rabelais ruim, cansativo, talvez; mas se eu escrevesse como Rabelais estaria feliz, mas por azar não tenho domínio da ortografia francesa do século XVI e nem tenho tantos ditados do interior da França decorados para me equiparar a Rabelais. Ah sim, e não uso tantas palavras de baixo calão, hoje elas são banais, na época de Rabelais, certamente não.
Não sei se alguém discordaria do fato de que Rabelais tenha sido um bom escritor, pelo contrário, a quantidade de imitações que foram feitas dele mostram, ao menos indicam, que ele foi um excelente escritor. É claro que não estou querendo aqui traçar algum paralelo com Rabelais, mas se eu fosse imitado, não ficaria triste, ao menos seria uma prova de que eu sou admirado. Mas, como disse quem me criticou, não escrevo bem, logo, sou imitado.
Acredito que escrever bem signifique isso: fugir da banalidade, ser claro e coloquial, conhecer os grandes mestres, amar e dominar o assunto. Tendo em vista isso, acho que não passo em nenhum dos quesitos, estou imerso na banalidade da academia (e criticá-la é uma banalidade da academia) que me enxerta chavões de todo modo: "enquanto", "a nível de" são dos poucos que não uso. Cabe ao leitor atento identificar os que uso. Claro eu tento ser, mas a internet é um meio tão agitado que me força muitas vezes- a maioria delas- a publicar com pressa, e assim a clareza, as idéias e o português ficam sacrificados. Coloquial acho que eu sou, é claro que não falo em uma coloquialidade de ponto de ônibus do subúrbio, imagine-se conversando com Machado de Assis e Eça de Queiroz e com, por um milagre, Cícero, Santo Agostinho e Montaigne falando português, acho que isso expressa o que penso por coloquial.
Também não conheço os grandes mestres, falta-me conhecimento em todas as áreas, e talvez eu engane bem ao falar de lírica latina e provençal e em música do início do barroco, que deve ter sido o que mais estudei na minha vida, mas se eu conseguir enganar será certamente porque não existe muita gente que domine esses assuntos. Nem domino o assunto, pois geralmente falo de autores que conheço, mas quase nunca estudei, como dizer?, a literatura auxiliar do assunto. Acho que o único assunto que domino seja eu mesmo, mas não sou cínico como Montaigne para dizer que esse é o meu assunto- seria demais e ninguém iria ler. Pelo menos eu gosto do que falo...
Mas pelo menos eu me conforto por não ser o único a não saber escrever, a maioria dos elogiados escritores não têm domínio mínimo do que escrevem, e, claro, posso sempre usar do argumento cafajeste de não culpar a mim e sim à minha educação por isso. Não interessa o fato de eu nunca ter sido obrigado a ler algo de algum valor até a faculdade, nem que se dependesse dos outros eu até agora estaria falando português e arranhando um inglês de padaria, tampouco que se não fosse por um acaso da vida, não, nehuma Beatriz, eu ainda estaria malhando em uma selva oscura; o que interessa é que essa é uma escolha pessoal e eu sou o único responsável por isso, e em nossa época há excepcionais escritores como o... bem, isso não vem ao caso.
É claro que é uma brincadeira essa minha última frase, pois há na internet mesmo inúmeros excepcionais escritores que nos brindam com textos maravilhosos e ainda de graça! Mas é evidente que não passarei seus endereços, para não perder público. Mas o que há de mais espetacular é a miríade de excepcionais escritores, especialmente brasileiros, que vemos surgir hoje, romancistas, poetas, todos mundialmente conhecidos e geniais, de grande alcance humanístico. Claro, grandes conhecedores da tradição, enormes poços de erudição e, principalmente, homens de enorme maturidade, tanto estilística quanto intelectual!
Sarcasmos à parte, o que é sério que essa educação de reportagens de jornal e contagem de maçãs está acabando com nossos escritores. Faltam homens no mundo, sobraram os adolescentes. Será que pessoas maduras em tempos imaturos estão condenadas ao fracasso? Quando teremos de volta homens que enfrentem os assuntos com seriedade e conhecimento e que se dediquem às artes e à filosofia mais por amor do que por mera vaidade?
Tinha postado uma crítica feroz a Shakespeare, mas resolvi depois postar algo mais refinado sobre este autor tão importante.
Mas fica um pensamento.
"Shakespeare, perto de Racine, é um bêbado selvagem" (Voltaire)
Imaginem Racine sendo o classicismo, e Shakespeare o anti-classicismo.
Pensem nisso, e comentem.
Achei uma língua divertidíssima: o Português de Batticaloa, falado por umas 3000 pessoas em Taprobana (Ceilão ou Sri Lanka, mas prefiro o nome de Camões e Ovídio). É uma língua crioula do Português com uma base gramatical da língua local do Sri Lanka. O que faz dessa língua muito interessante é o fato de a língua do Sri Lanka também ser indo-européia com uma declinação desenvolvida (ela é próxima do sânscrito) e ter criado no Português um novo tipo de declinação, com nominativo, acusativo, dativo, genitivo e locativo, a partir das preposições do próprio Português "junto", "sua": para falar, "eu estou no quarto", diz-se "eu kwartu-junto", para falar "cachorro do Pedro", diz-se "cachorro Pedro-sua".
A mesma coisa é com os verbos, o passado é feito com "já", o subjuntivo com "se", o presente contínuo com "tá" (estar a fazer...), o futuro com "logo".
É cada coisa que a gente encontra por aí...
Quando percebo que sábado já é carnaval, lembro-me de uma cidade, e não é o Rio de Janeiro, é Veneza. E isso me entristece...
No século XVI, Veneza era uma das grandes cidades do mundo, se economicamente já perdera a força para Lisboa, culturalmente permaneceu como um dos grandes centros do mundo, com uma profusão inimaginável de artistas vivendo em suas fronteiras que viram, dentre outras coisas, uma das mais importantes escolas de pintura, a maturidade da ópera, e dois dos maiores compositores de todos os tempos, Monteverdi e Vivaldi- musicalmente só Viena é páreo para ela; em termos de pintura, talvez ninguém.
Durante boa parte dos séculos seguintes, Veneza foi um centro de peregrinação para as pessoas que queriam conhecer tanto as relíquias que ela gerou, quanto as que ela roubou; que fez, e faz, dela uma das grandes representantes daquilo que se costuma chamar de cultura ocidental.
Hoje, Veneza é destino turístico de 1a. classe, especialmente para casais apaixonados que querem desfrutar de seu ar "romântico" e passear de gôndola com seus gondoleses breguérrimos cantando canções napolitanas (nem venezianas elas são!), as multidões profonam o túmulo de São Marcos em busca dos últimos souvenirs. Desse modo é melhor que ela se afogue no mar Adriático.
"A cidade não tem culpa", meu demônio doméstico me avisa, "a culpa é de uma cultura decadente."
É, deve ser.

Uma rapidinha. Uma das grandes características da pós-modernidade (perdão para os de estômago fraco) é se vangloriar de ter inventado a paródia e a paráfrase. Pois um romance bizantino do século XII, Hysimines e Hysiminias, de Eustácio Macrembolites, tem nada menos que 290 (!) citações em cerca de 140 parágrafos, totalizando algo como duas citações por parágrafo, mais do que a maioria dos romances ditos, pós modernos (até porque eles não conhecem muita coisa além de Kafka, Freud, talvez Joyce e Ítalo Calvino).
Nihil noui sub sole...
Bem, disseram que apresentações são constrangedoras, de fato, concordo. Agora, se apresentar na metade é estranho e sem sentido, por isso, e para responder a algumas perguntas feitas em particular, escrevi este pequeno texto:
1)Do nome. Fogo Grego é um trocadilho, nada muito difícil de se descobrir, não? Mas, especificamente, o "fogo grego" era uma substância extremamente volátil, feito de uma mistura de cal (CaO), magnésio, petróleo e outros elementos; cuja chama a água não consegue extinguir. Teve uso disseminado na marinha bizantina, essa substância era bombeada por sifonagem e lançada em direção a outras embarcações, como a água era ineficaz, muitos navios eram consumidos por completo. O fogo grego foi responsável por uma série de vitórias sobre os árabes nos séculos VII e VIII que significaram o fim da expansão oriental do império árabe; o fogo grego também foi usado na defesa de Constantinopla, graças a ele a cidade conseguiu suportar quase 6 cercos até que, a 7 de abril de 1453 os turcos chegaram com uma arma mais letal, a pólvora.
2)Do tema. Este sítio não tem um tema definido. Ou antes, o que eu gosto. Jamais falarei de minha vida pessoal, não me sinto confortável nisso e, acreditem, minha vida seria muito chata. Portanto ele não fala unicamente de arte, literatura e filosofia, mesmo este sendo seu assunto principal, por ser aquilo com que mais me ocupo. Mas volta e meia sentirei-me no direito de tecer alguns comentários politicos, talvez religiosos.
3)Do autor. Não quero dizer muito sobre mim. Basta que meu nome é Bruno e estudo grego clássico. Mas não me restrinjo unicamente ao grego clássico, pois tenho pretensão de conhecer a fundo também a cultura latina (mais a medieval, que me parece mais dotada de força expressiva do que a de Virgílio, sem esquecer de seus monumentos literários).
4)Você só gosta de coisas velhas? Não exatamente, talvez eu fale alguma vez de Pirandello ou mesmo do Pynchon que ando lendo, ou de Kierkegaard, Bartók, sabe-se lá do que; mas, como diz Aulo Gélio, meus maiores interesses se concentram em acontecimentos anteriores a 1792.
5)Por que você só fala de poesia? Eu não falo somente de poesia, mas, caso curioso na história, antes de 1792 a literatura tem uma ênfase na poesia, depois dessa época ela se passa para a prosa. A razão disso é um das coisas que gostaria de descobrir; tenho uma proto-resposta, mas não confio muito nela... Mas por ser o principal meio de expressão literária antes de 1792, me ocupo mais dela.
6)Qual seu poeta preferido? Petrarca. Qual seu prosador preferido? Montaigne.
7)Por que você evita falar em tragédia? Para não citarem Nietzsche, apolíneo, dionisíaco, Wagner, etc...

Françoys Villon
Eu iria fazer um diálogo sobre porque eu escolhi Bizâncio, mas isso fica para mais tarde, é imperioso prosseguir na minha série de poetas.
Se eu falei no Arquipoeta, foi para, de certa forma, preparar-vos para François Villon, o grande goliardo. Sabem aquela história do amigo que é inimigo? Pois é, no caso de Villon acontece algo do tipo, parece que um véu ideológico encobre a crítica desse poeta, pois ele normalmente é citado como um iniciador, "o primeiro lírico francês", "o primeiro poeta a falar de suas próprias emoções", etc, etc. Isso é muito complicado de afirma, até porque esquecer - ou mesmo ignorar - a tradição à qual Villon está filiado é, de certo modo, se recusar a compreender o poeta, para venerar um simulacro.
Villon não foi o iniciador de poesia nenhuma, na verdade, ele significa o fim de uma era: Villon é o último dos goliardos, o último dos poetas medievais. Sua ligação à estética goliárdica é praticamente completa, sua biografia o coloca como um estudante da universidade de Paris, seu estilo, pelo verso, pela rima, pelas alusões e citações fazem dele um representante característico da estética goliárdica. Desse modo, conhecendo-se isto, a afirmação da crítica francesa, de que ele teria sido o primeiro lírico francês, soa de forma muito esquisita- está sendo esquecida uma enorme tradição à qual Villon está filiado, dos troveiros aos goliardos. A "desculpa" dessa mesma crítica francesa dizendo que Villon é o primeiro lírico de valor, enquanto seus antecessores seriam meros "retóricos" soa preconceituosa e mistificadora.
Um fato quanto à recepção de Villon é que o próprio desconhecimento de sua tradição implica em uma não compreensão de sua obra. As opiniões apaixonadas dos primeiros românticos e de Baudelaire dificilmente podem se relacionar com o que nós conhecemos de Villon: primeiro, que assumir que o dito no Testament seja unicamente verdade é uma tarefa complicada, segundo, que o falar de seu meio dissoluto não constitui numa originalidade. Essa foi a razão de ter falado antes do Arquipoeta.
Então por que Villon é tão bom, tão elogiado?
Primeiro pela qualidade do seu verso, provavelmente o melhor em língua francesa, ao mesmo tempo elegante e coloquial, sonoro e simples. É significativo que este divertido manual de métrica cite-o tantas vezes. Segundo que nenhum outro poeta consegue ser tão refinado em sua expressão, e quando falo isso não me restrinjo nem à estética goliárdica e nem sequer à poesia francesa. Não se sabe até que ponto o Testament é uma confissão sincera, até que ponto é um código de expressão da época, até que ponto é uma paródia- especialmente nas passagens teológicas do texto. Villon ama os jogos de palavra, que estão longe de serem simplórios, os duplos, triplos, quádruplos sentidos de algumas de suas passagens servem não apenas como uma abertura de interpretação como também para compor essa figura de difícil trato que é Villon. Mas ainda mais importante que a discussão sobre a personalidade do poeta, é a importantíssima reflexão filosófica sobre a situação do homem no mundo, um tanto nihilista e amarga, em meio a um pensamento teológico e moral brilhante.
A obra de Villon se assenta ao lado da Divina Comédia, apesar da distância do tom, são ambas obras que sintetizam o que podemos chamar simploriamente de "pensamento medieval", tanto pela capacidade de crítica ao tempo, aos costumes, mas também pela poderosa discussão escatológica e moral que estes dois textos levantam. Uma outra possibilidade de comparação entre os dois poemas é a situação do amor: em Dante, Beatriz é a emissária divina que busca a salvação do poeta, as amantes de Villon, exatamente o contrário, o levam à desgraça (Qui me reste? Honte, et pechié!), mas para isso precisaria estudar mais a fundo os dois textos.
Termino com a balada dos enforcados, o texto que resume, de certo modo, a poética de Villon:
Frí¨res humains qui aprí¨s nous vivez
N'ayez les coeurs contre nous endurciz,
Car, ce pitié de nous pauvres avez,
Dieu en aura plus tost de vous merciz.
Vous nous voyez ci, attachés cinq, six
Quant de la chair, que trop avons nourrie,
Elle est piéca devorée et pourrie,
Et nous les os, devenons cendre et pouldre.
De nostre mal personne ne s'en rie:
Mais priez Dieu que tous nous veuille absouldre!
Se frí¨res vous clamons, pas n'en devez
Avoir desdain, quoy que fusmes occiz
Par justice. Toutefois, vous savez
Que tous hommes n'ont pas le sens rassiz;
Excusez nous, puis que sommes transsis,
Envers le filz de la Vierge Marie,
Que sa grâce ne soit pour nous tarie,
Nous préservant de l'infernale fouldre
Nous sommes mors, ame ne nous harie;
Mais priez Dieu que tous nous vueille absouldre!
La pluye nous a débuez et lavez,
Et le soleil desséchez et noirciz:
Pies, corbeaulx nous ont les yeulx cavez
Et arraché la barbe et les sourciz.
Jamais nul temps nous ne sommes assis;
Puis ca, puis lí , comme le vent varie,
A son plaisir sans cesser nous charie,
Plus becquetez d'oiseaulx que dez à couldre.
Ne soyez donc de nostre confrairie;
Mais priez Dieu que tous nous vueille absouldre!
Prince Jhésus, qui sur tous a maistrie,
Garde qu'Enfer n'ait de nous seigneurie:
A luy n'avons que faire ne que souldre.
Hommes, icy n'a point de mocquerie;
Mais priez Dieu que tous nous vueille absouldre!
Tradução do Augusto de Campos revisada por mim
Irmãos humanos que depois viveis
Não olheis com duro coração
Pois se aos pobres de nós absolveis
Também a vós Deus vos dará perdão
Aqui nos vedes presos, cinco, seis
Quanto era carne viva, que eu comia
Foi devorado e em pouco apodrecia
FIcamos, cinza e pó, os ossos, sós
Que de nossa aflição ninguém se ria
Mas suplicai a Deus por todos nós!
Se dizemos irmãos, cós não deveis
sentir desprezo, embora condenados
Tenhamos sido em vida. Bem sabeis:
Nem todos têm os sentidos sentados
Desculpai-nos, que já estamos gelados
Perante o filho da Virgem Maria
Que seu favor não nos falte um só dia
Para livrar-nos do Inimigo atroz
Estamos mortos, que ninguém sorria
Mas suplicai a Deus por todos nós.
A chuva nos lavou e nos desfez
E o sol nos fez negros e ressecados
Corvos furaram nossos olhos e eis
nos de pêlos e cílios despojados
Paralíticos, nunca mais parados
Para cá, para lá, comoo vento varia
Ao seu talante, sem cessar, levados
Mais bicados que um dedal. A vós
Não ofertamos nossa confraria
Mas suplicai a Deus por todos nós!
Meu príncipe Jesus que a tudo vês
Não nos entregues à soberania
Do Inferno, que só ouvimos tua voz
Homens, aqui não cabe zombaria
Mas suplicai a Deus por todos nós!
Ah, antes que eu me esqueça, vou colocar aqui meus sites preferidos pela web
1) Web Gallery of Art - O melhor site, o que mais visito e onde mais passo tempo. Também é de onde tiro 90% das minhas figuras.
2) Bibliotheca Augustana - Não é a mais vasta biblioteca do mundo, mas é certamente a mais rica, e- mais importante- um enorme acervo de obras medievais, o maior da net
3) Verbix - Deseja conjugar verbos em Mirandês, Tamil ou Eslavônico? Aqui você vai conseguir.
4) Byzantium - Como Bizantinista, não posso deixar de recomendar este importante site
5) Corpus scriptorum latinorum - Se você quiser qualquer texto latino, é mais provável encontrá-lo aqui...
6) O Suda - Uma enciclopédia bizantina, extremamente interessante e importante
7) O Beowulf
8) Este blog
9) E se faltou alguma coisa, estes textos
Interrompo mais uma vez a série dos poetas para mostrar algo que achei interessante.
Minha habilidade em artes pictóricas é tão grande que quase fui reprovado no exame médico-psicotécnio do Detran, se fosse eu já teria me declarado o Duchamp do século XXI. Mas isso não me impede de apreciá-la, sem embargo, meu conhecimento está praticamente nivelado com minha habilidade.
Peguei um livro na biblioteca da faculdade "La Peinture Byzantine", ao lê-lo, uma relação entre pintores ficou piscando na minha mente. Acho que todos vocês já ouviram falar de Domenikos Theotocopoulos, certamente não com esse nome, se reconhecem sob esse nome, eu ficaria com muita vergonha de falar as bobagens que falarei... mas como ia dizendo, vocês o conhecem como El Greco, e os mais afortunados certamente viram suas obras-primas em Toledo, Madrid, Barcelona, Paris, etc. Pois bem, ele, cretense de nascimento, numa época em que Creta pertencia a Veneza, parece ter alguma ligação com a famosa batalha de Lepanto (1571), batalha de que outro expoente da arte espanhola participou, Cervantes, depois de algumas viagens a Veneza, Modena, Gênova, ele chegou à Espanha e se estabeleceu em Toledo.
Mas não é meu objetivo contar a biografia de El Greco, mas mostrar umas descobertas minhas, podem até já terem sido extremamente comentadas, mas foi algo que achei instigante.
Vocês todos devem conhecer o Cristo "Pantokrator" (todo-poderoso), o ícone típico da igreja ortodoxa. Vejam seu mais famoso exemplo, na Santa Sofia, em Istambul:

A imensa semelhança que este Cristo de El Greco, não é exatamente assustadora quando se sabe que ele teve treinamento iconográfico ainda em Creta:

A posição do cristo, os três dedos levantados (símbolo da Santíssima Trindade), o olhar sereno, o tipo físico, o manto azul, e a auréola, tudo isso é característico nas imagens do Pantokrator, e está presente nessa pintura de El Greco.
Mas de tudo, o que achei mais fascinante foi essa pintura, de uma Bíblia:

Agoram vejam uma pintura clássica de El Greco:

Pode não parecer à primeira vista, mas as figuras alongadas, as cores inusitadas, a superposição de dois planos, um "celeste" e outro "terreno" (aliás, coisa que El Greco fez inúmeras vezes, em mais de 20 telas...), o gosto pela pintura de grupos, o estilo desses grupos, as faces, etc, etc. Parece, ao menos para mim, que há uma relação muito próxima de El Greco com sua antiga pátria. Normalmente dizem que ele manteve esse herança menos tecnicamente do que no espírito, vendo essas imagens eu me pergunto, será?

Archipoeta
O nome deste poeta pode assustar,afinal por que eu iria falar de alguém tão... anônimo? Da pessoa que chamamos de Arquipoeta não temos nem datas de nascimento, nem local onde viveu, sequer seu nome, só sabemos que ele foi apadrinhado do arcebispo de Colônia, Reinald von Dassel. Arquipoeta é seu apelido e tudo que temos dele são 10 poemas de tamanho médio, copiados em um manuscrito na cidade de Beuren, perto de Stuttgart, no cunjunto popularmente conhecido como Carmina Burana.
Os Carmina Burana dificilmente podem ser considerados um conjunto, já que contem de cantos morais até odes à vida na taverna e pequenas peças morais à Roswitha (ainda vou falar dessa mulher aqui, mas ela não pode ser enquadrada como poeta, no sentido estrito que uso). Mas de todo o conjunto, é a poesia chamada goliárdica que mais chama atençao, por ser a grande maioria, uns 70% de todo o corpus, e por ser uma da mais originais manifestações literárias da história da literatura.
Afinal, o que significa Goliardo? O nome vem da personagem bíblica, e deriva de um dos poemas do nosso poeta do dia, quando ele se compara a Golias por ser vagante e anti-civilizado. Os goliardos, ao contrários dos trovadores, troveiros, minnesí¤nger, não tinham o status reconhecido de poetas, assemelhavam-se a vagabundos que andavam de cidade em cidade, ganhando o que podiam do elogio dos ricos, mesmo de esmolas, ou de aulas particulares.
Ao contrário dos trovadores, nós conseguimos traçar com bastante nitidez as origens do goliardismo, elas nascem junto com a universidade. No final do século XI, começaram a surgir por toda a europa as universidades, um meio, extremamente erudito, cuja língua única é latim (aliás, o nome Quartier Latin para aquele bairro de Paris deve-se aos alunos da Sorbonne que falavam latim), nascida para o estudo de assuntos que o ensino eclesiástico não englobava, como medicina, gramática (hoje conhecida como letras), direito, as três grandes disciplinas universitárias (embora logo depois, em Paris, a universidade vai se tornar o grande centro teológico da cristandade). Não menos de 50 anos e a universidade de Bolonha já contava com 10mil estudantes, o inchaço da universidade já provocava um excesso de pessoas extremamente bem formadas, mas desocupadas, criando os primeiros vagabundos urbanos.
Os goliardos são esses vagabundos, sua poesia reflete esse meio degradado, são comuns os temas de bebedeira, amorosos (e este amor desidealizado contrasta pesadamente com os conteporâneos trovadores), dívidas, etc; mas também reflete sua formação, extremamente erudita. Fica muito interessante ler um poema goliárdico, pois ao lado de uma descrição cruenta de uma taverna, ou de uma prostituta, encontramos uma citação bíblica, ou de Virgílio, há esse gosto pelo grotesco, pelo sublime misturado ao mais baixo.
O grande gênero da poesia goliárdica, o mais original, que vai marcar os dois maiores poetas dessa escola, é a confissão. Arquipoeta tem duas: "Estuans intrisecus ira vehementi", que podemos titular de "a confissão do vagabundo"; e "Fama turba dante sonum", "a confissão de Jonas". São dois poemas que se completam.
Segue um trechinho do primeiro deles, "estuans ira vehementi", é o poema que "professa" os ideais do goliardo (para facilitar a leitura coloco um adendo de crítica textual ao final do texto):
Estuans intrinsecus ira vehementi
in amaritudine loquor mee menti.
factus de materia levis elementi
folio sum similis, de quo ludunt venti
Cum sit enim proprium viro sapienti,
supra petram ponere sedem fudamenti,
stultus ego comparor fluvio labenti,
sub eodem aere numquam permanenti
Feror ego veluti sine nauta navis,
ut per vias aeris vaga fertur avis;
non me tenent vincula, non me tenet clavis,
quero mei similes et adiungor pravis.
(...)
Quis in igne positus igne non uratur?
(...)
Meum est propositum in taberna mori,
ut sint vina proxima morientis ori;
tunc cantabunt letius angelorum chori:
"Sit Deus propitius huic potatori."
(...)
Tales versus facio, quale vinum bibo,
nichil possum facere nisi sumpto cibo;
nichil valent penitus que ieiunus scribo,
Nasonem post calices carmine preibo.
(Ardendo internamente de ira vehemente
com amargura falo à minha mente
Como sou feito de matéria inconstante
semelhante à folha, com quem os ventos brincam
Como é próprio ao homem sábio
colocar sobre pedra a sede do fundamento
Eu, ignorante, me comparo ao rio que escorre
que nunca permanece sob o mesmo céu
Sou levado como um navio sem comandante
como é levada a ave sob as vias aéreas
Vínculos não me seguram, chaves não me prendem
procuro meus semelhantes e me junto aos viciosos
Quem, colocado no fogo, não arderia no fogo?
Meu propósito é morrer na taverna
a fim de que o vinho esteja próximos de minha boca
Então cantarão mais alegres os coros dos anjos:
"Seja Deus favorável a este bêbado!"
Faço tal verso, qual o vinho que bebo
Nada posso fazer, a menos que o alimento esteja pago,
nada vale o que escrevo em jejum
Depois de uns copos colocarei Ovído no meu canto)
Este trecho corresponde a uns 20% de todo o poema, mas por ele dá para vislumbrar alguns dos pontos que citei acima. Neste caso, a referência reliosa é predominantemente irônica, há o reconhecimento da situação, mas não há vontade de mudança, o único pedido é por piedade. O próximo poema, de certo modo, acha o "comandante" do navio, embora ele seja intríseco, aqui, é Deus. Depois posso traduzir a "Confissão de Jonas", que, de certo modo, é uma continuação desse poema.
Quanto à sua técnica, o Arquipoeta escreve em um latim simples, mas eloqüente e extremamente conciso, esta concisão permite a ele fazer metáforas extremamente poderosas e sugestivas, como o início da "Confissão de Jonas" (A fama, soando com a tuba, a voz excitada dos arautos, clama aos homens do mundo), que podemos comparar com as de Dante no Inferno. Não posso dizer que isto é uma invenção dos Goliardos, há exemplos dessa retórica desde o Apocalipse de João, mas sua habilidade e sua força, em toda a poesia de língua latina, são inéditos desde então. Isso, e sua poética extremamente original faz dele um poeta a ser descoberto. Poderia falar mais, mas paro aqui para não me cansar ou cansar a vocês.

Interrompo brevemente a série dos poetas, que recomeçará amanhã com François Villon, o conseqüente do Arquipoeta, para falar um pouco de Mozart.
Ganhei um CD, depois de participar de uma espécie de "quiz" em um site, com as Bodas de Fígaro. Já a conhecia há tempos e não é nem a minha primeira gravação, nem a segunda, nem a terceira, mas quinta que tenho dessa obra. Porque eu tenho tanto? Um pouco por sorte de ganhar alguns concursos e heranças, mas também porque eu considero Le Nozze a maior ópera de todos os tempos e uma das grandes manifestações artísticas do século XVIII, se não a maior delas. E se há algum "concorrente", é Don Giovanni, composta um ano depois, em 1787.
Porque eu coloco esta ópera em tão alto nível? As razões são diversas, a começar, desagradando Salieri, delle parole. Poucas peças de teatro do fim do século XVIII podem ser comparadas a Le marriage de Figaro de Pierre Augustin Caron de Beaumarchais, seja pelo seu tom de tragicomédia (o autor foi fortemente influenciado por Lope de Vega, especialmente por Peribaí±ez y el comendador de Ocaí±a, que merece um post por aqui), seja por sua intriga ser a única legítima descendente de Molií¨re. E da Ponte compôs a partir deste um libretto, extremamente fiel, enxuto e livre dos trocadilhos, assonâncias de mal gosto que os libretistas da época tanto copiavam de Metastasio. Mozart pode se vangloriar de ter tido três excelentes libretos, número que talvez nenhum outro compositor pode ostentar, mas de todos, o de Le Nozze é o literariamente mais rico.
E poi, la musica, é inegável que o jovem Mozart não merece ser tratado com desdém, pois sua obra é extremamente interessante, rica e vívida, entretanto, também parece inegável que o Mozart maduro é um dos maiores artistas de todos os tempos, e, de certa forma, Le Nozze é, não a marca da maturidade, mas seu primeiro grande auge.
Nesta ópera Mozart introduz uma técnica extremamente eficiente e sutil que é carcterizar os personagens, não por meio de temas musicais, mas ritmicas, cada um dos quatro protagonistas, Figaro, Susanna, Conde e Condessa, mas especialmente as mulheres, têm características rítmicas marcantes, e estas características são derivadas das óperas que forneceram os personagens, ie. Fígaro e Susanna têm padrões buffos e o Conde e a Condessa de opera seria. Daí também sai o tipo de ária que eles cantarão, o que não significa que as árias sérias serão "trágicas" ou as buffas cômicas, Mozart brinca com isso de forma às vezes inacreditável: Cherubino que está sempre no âmbito "cômico", canta uma ária derivada diretamente da tradição da opera seria "Non so pií¹ cosa son, cosa faccio". Nós podemos encontrar outros exemplos de ária em sol menor com acompanhamento ostinato das cordas na Clemenza di Tito ou, para um exemplo mais fácil, a "ária" do primeiro movimento da sinfonia K. 550 (40).
Um outro exemplo de como nessa ópera Mozart está lidando com a tradição é o dueto "Crudel, perchí¨ finora" no início do terceiro ato, a ambientação, a música e o próprio tema está completamente na ópera seria, mas o texto já é cômico, e a situação acaba se tornando extremamente irônica.
Outro momento de genialidade acontece logo no comecinho, quando um dueto simples, "S'accaso madama", de repente sofre um revés inesperado com uma modulação, não para a dominante, mas para o tom relativo menor, costumo dizer que é nesse momento, quando Susanna introduz os desejos duvidosos do conde, que começa a intriga, e, de fato, o dueto que tinha um ar alegre termina angustiado.
Mas de tudo, o mais fantástico, o mais maravilhoso, o mais espetacularmente espetacular das Bodas de Fígaro, são seus conjuntos, especialmente os finales dos três últimos atos. É por isso que coloco esta ópera em tão alto nível.
De todos os grandes conjuntos, o finale do segundo ato é o mais elogiado, o mais comentado. Não é por pouco, não é exagero, certamente nunca uma música conseguiu ser tão... teatral. São vinte minutos de música ininterrupta, cobrindo uma ação de cinco cenas, vários momentos de tensão e distensão. Acho desnecessário ficar enumerando os efeitos desse verdadeiro monumento musical, mas o início dele, com a enérgica determinação do conde em matar Cherubino, e a música, em tom menor, com seus fortíssimos, aquela tensão imensa no ar, os cellos sublinhando as notas do Conde, e os sopros acompanhado a Condessa, é indescritível. E isso é seguido pela enorme distensão que é a aparição de Susanna, e as citações irônicas da cena anterior.
O conjunto do final do terceiro ato é bem mais singelo e de menores pretensões, mas é de um brilhantismo típico de Mozart. Primeiro é sua ambientação, ele, inteiro, é um fandango que começa pelo meio, termina e só vai começar depois, quando é interrompido sem terminar; segundo que durante sua execução, as vozes estão em um outro compasso (o minueto do Don Giovanni vai levar essas arritmias a níveis surpreendentes) e consistem basicamente de recitativos, mas a tensão provocada pela insistência na seqüência harmônica e pelo silêncio permanece para ser concluída no quarto ato.
O finale propriamente dito chega a ser chocante, tamanha sua força. Para começar ele se inicia com um tema e variação, fazendo do Conde a variação do tema de Cherubino, o que nos diz bastante do parelelo feito entre os dois "Don Giovannis" (a citação é proposital). Toda essa passagem é uma seqüencia vertiginosa de travestimentos, com Susanna cantando como Condessa, Condessa como Susanna, Fígaro escondido e repentindo enraivecido as frases do Conde (como cada personagem tem sua identidade, isso tem uma força expressiva considerável), o Conde com sua declaração de amor, uma das passagens musicais mais lindas de Mozart, mas com um sabor "estranho", que aliás tem toda a cena, pela modulação inusitada e a orquestração única de cordas, e logo depois Susanna comentando como Susanna. Estou ficando confuso, mas é difícil explicar tudo isso. Não sei se preciso ficar enumerando mais passagens geniais, mas como não se comover com as "declarações" de Fígaro para Susanna travestida de Condessa, com sua música visivelmente zombeteira, e depois a cena da revelação, que gera o pedido de perdão do Conde. Ou como não se comover com a alegria sem limites do final?
Ah, eu ficaria falando o resto da vida sobre essa grande ópera...


Caius Valerius Catullus
Uma coisa é Catulo: ele é apaixonado. Não entra aqui a distinção entre autor e eu-lírico, e a referencialidade da poesia, descartando fatos pseudo-biográficos (que, aliás, em autores antigos devem ser ignorados), sua poesia permanece altamente passional. Dito isto, Catulo não é aquele burilador de versos, ou engenheiro de palavras que é um Horácio, mas um poeta que quando ama, ama muito, quando odeia também odeia muito. Suas invectivas contra rivais, políticos ou amorosos, estão sempre presentes nos livrinhos de insultos em latim -na verdade, Catulo é o maior fornecedor de palavrões da língua latina. Seus poemas a Lésbia formam, de todo, a parte mais acessível de toda a poesia antiga.
Isto para o inciante, para os que já conhecem Catulo com alguma profundidade: cuidado. Ainda que, aparentemente, Catulo seja um poeta simples, não devemos jamais esquecer de três coisas que abundam em seus versos:
1)Ars est celare artem, Catulo é tudo, menos ingênuo e temos que estar constantemente atentos no que é sinceridade e no que parece sinceridade. A crítica tradicional de Catulo parece ter esquecido isso, mas um especialista razoavelmente treinado consegue perceber alguns dos topos literários que Catulo visita. Nesse caso, Catulo é um poeta digno de louvor pela sua qualidade retórica: parece-me evidente que seu uso constante de coloquialismos desarma e conquista a simpatia do leitor.
2)Também não se costuma dizer que Catulo é um dos melhores metrificadores da lírica latina. Ele se vale de versos por vezes sofisticados, por vezes bizarros, e por vezes modelados com grande arte. Catulo tende a usar rimas, assonâncias, aliterações quando há alguma mudança de tom em seus poemas, como Itaque ut relicta sensit sibi membra sine uiro exatamente no momento da castração no poema 63. Ou ainda o uso de repetido de aliterações em "t e p" nos cinco primeiros versos, indicando a ansiedade de Atis.
3)Antes de tudo, Catulo é um Alexandrino que escreve em latim. Catulo tem enorme gosto pela erudição e ao menos dois de seus poemas são traduções de originais gregos. Mas fora isso o número de citações é muito grande, e, no caso de poesia, nós nem temos idéias do número delas: pois quase nada da lírica grega nos restou. Por isso nós temos que tomar muito cuidado ao afirmar algo de Catulo, à vezes ele está fazendo alguma piada ou joguinho erudito.
Como se vê, é um poeta extremamente conflituoso, pois ele "briga" conosco, nos desafia. De qualquer forma, mesmo se fingida, sua paixão é comovente, ele sabe como cativar o leitor, quando leio versos como:
Versibus ut nostris etiam post funera uiuat
"Que viva em meus versos mesmo após a morte"
ao lado de versos como:
Omnem ponite nunc seueritatem
nam uersus ueniunt proteruirores
"Afaste agora toda severidade
pois versos virão mais picantes"
Não dá para não se comover com um poeta tão fácil de se identificar. Essa é uma de suas qualidades. A outra que mais aprecio nele, e está próxima da primeira, é a maneira com que ele consegue empolgar o leitor. Parece meio vago, mas um exemplo são os poemas 61 e 62 onde ele vai trabalhando com arquétipos de casamento, que talvez sejam eternos, pois ainda são poderosíssimos, e com isso ele vai trabalhando em um crescendo de intensidade (outra marca sua) até um final verdadeiramente extático.
Obviamente há mais a se falar de Catulo.
That's all folks