Somos tentados a acreditar que coisas que nós conhecemos desde sempre existam desde sempre, como a frase de Borges que dizia que Buenos Aires era tão eterna quanto a água ou o ar (ou coisa assim). Evidentemente que Borges sabia que Buenos Aires havia sido fundada em 1521 e blá, blá, blá, não é o caso discutir sobre ele, o caso é que essa impressão de aere perennius existe para uma quantidade de assuntos e conceitos que estão longe de serem eternos ou perenes.
Ontem mesmo, graças a um livro que ganhei, La vida literaria en la Edad Media (La literatura francesa del siglo IX al XV) estes pensamentos me invadiram. É extremamente sedutor para nós, depois de quase dois séculos de "evolução" da literatura, pensar que haja uma "história" da literatura, que ela tenha "desenvolvido", de um protozoário inicial, até formas mais complexas e, portanto, mais belas. A mente razoavelmente romantizada do homem médio deixa-se enganar por isso. Imagina-se que, por exemplo, a literatura tenha evoluído de Homero e por uma maior racionalização e domínio dos metros, tenha chegado aos trágicos, e deles, por uma racionalização ainda maior, chegou-se a Platão. Essa é uma linha de pensamento muito comum, mas extremamente complicada, pois não dá para negar, por exemplo, o influxo homérico em Platão, como nos mitos que ele criava para explicar dados do mundo, coisa que não ocorre em Eurípides.
Destarte, escrever uma história da literatura é se propor a fazer elos muito perigosos. Afinal, qual é a premissa básica para se fazer uma história da literatura? É acreditar que a sucessão de eventos literários tenha uma lógica claramente definível e que estes eventos se encadeiem de forma coerente. E o grande sonho de todo estudante da literatura de um determinado período é descobrir que as obras dentro desta época tenham uma relação maior do que o fato de pertencerem í mesma janela de tempo. Tudo isso que eu disse não é de fácil demonstração, mas não é impossível ter uma idéia do fenômeno.
Alguns exemplos interessantes. O estudioso do romance grego uma hora ou outra vai se encontrar com o tal do "problema das fontes": não há uma teoria aceita para seu surgimento e costuma-se dizer que ele surgiu de uma mistura da retórica com a historiografia e a epistolografia, o problema é não há nenhum registro que comprove esta teoria, que não passa de mera especulação. Outro exemplo: geralmente costuma-se dizer que o romance de corte (Roman courtois) francês de Chrétien de Troyes, nasceu das canções de gesta, sendo que são contemporâneas, nasceram praticamente juntas, e a única coisa que têm em comum é o fato de contar histórias em versos, o que faz essa aproximação ser um tanto aberrativa. Isso para não falar na controvertidíssima questão da origem dos trovadores, disputa onde todo mundo manda seu palpite mas ninguém parece se concordar.
Qual é o grande problema da história da literatura? Primeiro, muitas vezes, o desenvolvimento de um gênero ou de um estilo não decorre de outro visível mas, por exemplo, de uma tradição popular não documentada ou de algo que não era antes considerado literatura, o que faz com que esses desenvolvimentos não sejam sequer perscrutáveis; depois que a história da literatura apresenta um caráter episódico e particular ainda maior do que a história geral (lembremos-nos de Aristóteles, lembremos-nos de Aristóteles), pois é a regra que o desenvolvimento de um gênero, de um estilo, dependa tanto ou mais da habilidade de um escritor (exemplo: Petrarca, que se impôs aos dialéticos) quanto daquela ideia hegeliana de Zeitgeist, resumindo: nem sempre a literatura exprime os pensamentos de seu tempo. Querer teorizar ou explicar algo tão aleatório quanto isso é, em si, um erro.
E acho que as pessoas ficariam ainda mais assustadas em saber que até o século XIX esse meu pensamento era comum. Foi o século XIX que resolveu achar que literatura era uma ciência como a biologia e que era dominada por regras facilmente compreensíveis, foi também esse século que inventou a tal da evolução, extremamente necessária para embrionária noção de vanguarda. Esta vanguarda só existe pelo fato de as pessoas que teoricamente participam dela, da guarda avançada, estariam contribuindo para levar a literatura, toda a arte na verdade, ao futuro, para poder, de algum modo levá-la a um ponto superior onde seria capaz de atingir uma expressão melhor, ou mais fiel.
Quando se critica a evolução, isto é o fato de não haver um movimento ordenado e nem que ele vá em direção a algo que seja melhor ou mais expressivo, não faz mais sentido uma obra ser vanguardista ou não e ela passa a ser avaliada como qualquer outra obra. Isto é um golpe fatal para seus desejos. Parece não muito exagerado, portanto, supor que a história da arte surgiu para legitimar um movimento que é anti-estético por natureza.
The righteous shall be had in everlasting remembrance
Muito me impressiona que as pessoas fiquem assustadas com a noção de uma guerra santa, dizendo que seria contraditório, não faria sentido, pois a guerra seria exatamente o oposto da santidade et cetera (ou et coetera, para os medievalistas)... Quem diz isso provavelmente é budista ou coisa do gênero, huius modi, ou melhor, huius soli modi a religião está ligada í passividade máxima pregada pelos pacifistas mais radicais. Afinal, praticamente todas as religiões estão ligadas í guerra, seja uma ligação í s vias de fato, ou seja uma guerra simbólica.
De todas, a religião que mais assusta nesses tempos em que é "politicamente correto" ser pacifista é a antiga religião germânica. Nessa religião a única maneira de se conseguir o favor dos deuses é através da bravura na guerra, e também é por uma morte gloriosa que se consegue chegar ao Valhall, o que seria uma espécie de "paraíso". Essa crença na "salvação" da guerra entrou de uma forma interessante em algumas manifestações cristãs: a Chanson de Roland apresenta isso, não sendo mais a guerra e a coragem em si, mas, para os douze pairs de France, pelos pecados que cometeram em vida, a única forma de salvação é lutar pelo "aumento da tão pequena Cristandade". Algo parecido ocorre em quase todas as epopéias cristãs e também, por exemplo, no Auto da Barca do Inferno, mas é preciso ter em mente que é um conceito germânico que se tornou a base da aristocracia medieval.
A aristocracia grega tem conceitos parecidos, mas não há "salvação", todos vão para o inferno, há, de fato, a noção de agradar os deuses pelo valor em guerra, mas isso não é adiquirido, é algo já dado de antemão. E na Grécia há toda aquela coisa de reverência aos deuses, o que modifica um pouco, pois é possível ser corajoso e ímpio, fica um pouco diferente.
Por fim, o Cristianismo também tem as suas batalhas, que são basicamente duas: a luta contra si mesmo e a luta pela expansão da cristandade. Quanto a primeira, apenas lembro de uma epopéia bastante curiosa, composta lá pelo século IV, chamada Psycomachia, que narra a guerra, literalmente, das virtudes contra os vícios, do bem contra o mal, que seria a guerra que todo cristão deveria travar diariamente. Já a segunda batalha está mais ligada í μοÏία (loucura) lá do São Paulo, quando falava que o cristão deveria ser louco para afirmar sua fé ou algo assim (se alguém souber precisar, me ajude).
Isso não significa, ça va sans dire, que eu seja um defensor árduo de atentados suicidas ou invasões prévias, pelo contrário, apenas estou aqui, claudicante, tentando mostrar que a guerra pode ser religiosa, tanto quando ela é idealizada como uma mostra de virtudes, quanto na afirmação de seus valores, e isso toda religião faz. O que também mostra que a disputa é necessária e talvez essencial naquilo que compreendemos como humano, não se trata de uma apologia da guerra em suas formas mais cruentas, mas falo de uma "guerra de formação", em todos os sentidos que essa expressão pode tomar.
Eu falei no último parágrafo de guerra idealizada, conceito perdido para nós, no século em que ela se industrializou e profissionalizou, em que deixou, e o exemplo são as duas grandes guerras, de ser uma demonstração de bravura e virtude para se tornar uma máquina onde se luta sem saber bem a razão da luta. Essa guerra sim, é sem sentido e brutal.
Adendo ao post anterior
Voltei a ler a minha gramática de hitita. Como decorar esse alfabeto cuneiforme é difícil! Não há a menor lógica na sua formação, credo.
PS: Gostaria de uma gramática de Francês antigo, alguém sabe de uma online?
Bizantinista carinhoso, jovem e prendado procura uma estudante de línguas púnicas amorosa para relacionamento sério
Línguas, línguas, línguas...
Uma das razões que me faz ler 90% de literatura antiga é um prazer filológico que o texto antigo pode me dar. Não dá para pegar a Amerika do Kafka e ficar tecendo muitas considerações prosódicas do alemão da década de 20 da Sudetenland... Agora, quando estou de frente com o texto do Nibelungenlied, ah, como é delicioso ficar remoendo aquele alemão do século XIII, mas, sim senhor, com reminiscências do alemão mais arcaico possível. Eu devo ser louco, não conheço outro estudante de letras com esse fascínio por línguas que eu tenho, chega a ser tara. Aliás, um dos meus passatempos é estudar línguas mortas - e não falo de latim e grego, pois toda pessoa deveria aprender, e bem, latim e grego. Mas não pensem que sou tão maluco assim, eu acho, pois se há pessoas que colecionam tampas de cerveja, outras selos e ainda outras que colecionam camisas de times de futebol, eu posso sanamente colecionar línguas mortas. Está bem, essa minha coleção está mais próxima da lista de Don Giovanni do que de uma mera coleção: In Italia seicento e quaranta, in Lamagna duecento e trentuna...
Comecei estudando gótico, um barato, me ajudou a compreender melhor o alemão e o inglês - tanto a aproximar o vocabulário de ambas quanto entender algumas idiossincrasias da conjugação elisabetana ou de Chaucer. Segundo uma amiga, o gótico parece com o islandês antigo- eu não falo islandês, quanto mais o antigo, dessa forma, só posso citá-la por aqui.
Mais tarde estudei, com ainda mais afinco, o provençal antigo. Hoje consigo ler um texto nessa língua, e não pensem que o francês vai ajudar, pois você terá muitos problemas gramaticais. Claro, a literatura provençal ajudou bastante, a poesia dos trovadores é o movimento literário mais rico de todos que já estudei mais aprofundadamente. Toda semana leio alguma coisa de Daniel, Ventadorn, Bornelh ou dos catalães Llull e March (este último um dos maiores poetas de todos os tempos, ainda falarei sobre ele).
Depois voltei í s germânicas, e, como quase todo mundo, tive uma queda pelo Beowulf, que é interessante. O inglês antigo é uma língua esquisitíssima (oft scild scafing...), que tem um destaque meio exagerado por ser inglês, ser antigo e ter influenciado o JRR Tolkien que dizia seu épico ser a maior obra literária de todos os tempos. Devo discordar, o Nibelungenlied é a grande obra literária germânica da idade média, ele tem uma tragicidade toda singular. Ainda não li as sagas islandesas, essa mesma amiga me jura que elas são melhores que toda literatura inglesa, quite interesting...
Estudei um pouquinho de tupi, o que é sempre engraçado pois volta e meia você acha o nome de um bairro, um peixe ou uma cidade do interior de São Paulo. A língua parece fácil, e é, não há conjugação de verbo alguma, e só o tal do ergativo que vem te atrapalhar. Só estudando tupi para entender os argumentos lá do Policarpo Quaresma: para ser brasileiro, com tudo que isso quer significar, só adotando o tupi. Eu não defendo a adoção de uma língua com um vocabulário tão reduzido e estruturas sintáticas tão limitadas quanto o tupi, e não defendo a brasilidade, credo. Mas ainda vou estudar mais, só para me dar ao prazer de falar:
Aba-pé endé?
Xe Bruno porang
Fora isso estudo há já algum tempo o gaélico, na verdade apanho de seus fonemas e lenições (só tem menos formas de sandhi que o sânscrito...), mas tive que parar, pois perdi meu professor para a Guiness, ele voltou para Dublin. Nos meus seis meses estudando essa língua, acho que só aprendi a pedir peixe com batatas e cerveja e a comentar sobre o mar, não mais que isso (se bem que não acho que exista outro tipo de conversa na Irlanda). Ah, claro, aprendi como é "água": uisce, pronuncia-se "uísque". Só isso já justificou meu aprendizado.
Ainda tenho outras línguas heterodoxas para aprender: comecei a estudar sânscrito e chinês só para perceber que eu vou precisar de um professor, para as duas. Já me falaram que a literatura chinesa é a maior e melhor de todas, como eles inventaram a pólvora, a imprensa e o macarrão, não duvido e vou pagar para ver. Uma outra amiga viajou í China e saiu dizendo que foi a maior experiência da vida, disse que perto deles os americanos são humildes e minimalistas, bem, a Grande Muralha, a Grande Marcha e os guerreiros de Xinjian estão aí. O sânscrito é aquela coisa: casos demais, palavras demais, infinitivos demais, particípios demais, sandhi demais e aquele alfabeto infame. Também quero aprender uma língua semítica, ou hebraico ou árabe, mas acho que vou aprender aramaico para manter uma posição neutra na questão palestina.
Tenho gramáticas de duas outras línguas: egípcio antigo e hitita. Eu sinceramente ainda não descobri para que vou precisar do hitita, talvez se eu resolver me tornar um indo-europeísta, mas a hipótese não me anima, quer dizer, não muito. Não obstante, o hitita, apesar de completamente inútil, é interessante, só que, ao contrário das outras acima, qualquer comentário sobre ela em uma festa ("você sabia que o hitita não tinha a divisão de gêneros das outras línguas indo-européias?") vai fazer você passar por mentiroso.
Já o egípcio clássico (!) é bem mais sedutor. Vai dizer que você nunca se sentiu tentado a ser um egiptólogo? Todos nós ficamos, todos nós sonhamos em ser Indiana Jones alguma vez na vida, não negue, você também. Tenho vontade de visitar o Egito, mas parece que há mais de um século ele virou um misto de playground europeu com playground de terroristas islâmicos. Já me decidi, viajo para lá quando um dos dois sair, as camisas floridas dos ingleses e os guias turísticos são letais, ah, terroristas também.
Esqueci de citar as línguas semíticas da mesopotâmia, falei do aramaico, mas há outras, acadiano, sumério, assírio, tudo isso resta para mim como algo meio esotérico, ao menos por enquanto. Devo confessar algo meio torpe aqui: já quis casar-me com uma estudiosa dessas línguas. Algumas pessoas querem mulheres com certos dotes físicos, outras com dotes caseiros; eu quero uma que estude o púnico, simples, não?
Update
Como não basta se vangloriar, tem que compartilhar, eis links para aprendizado das línguas citadas:
Gótico: Não há muita coisa sobre gótico na internet. Eu aprendi em um manual francês Manuel du Gothique, ou coisa parecida. Mas há este site, que deve ter alguma utilidade.
Provençal: Se quiser algo específico sobre o provençal antigo, desista, eu suei muito para conseguir um dicionário e uma gramática. Mas a Occitanet oferece algumas lições de provençal moderno, este site peca pelo seu tom exageradamente político.
Islandês: A Joana não é padrão para qualquer coisa, mas ela, que morou na Noruega, diz que, sabendo islandês moderno (que é muito parecido com o norueguês bokmí¥l, segundo ela, segundo ela), as sagas são perfeitamente legíveis. Então vai aí um "An Idiot's Guide to Icelandic"
Inglês Antigo: Há vários sites ótimos para se aprender a ler o Beowulf, agora que virou moda.
Althochdeutsch e Mittelhochdeutsch: O Antigo alto alemão é de datação e registro tão escassos, que não há muita coisa, se alguém se dispuser a encarar o Hildebrandslied, boa sorte. Do Médio alto alemão, a língua do Nibelungenlied, do Tristan e ainda dos Minnesí¤nger, há uma boa gramática e um excelente dicionário. Se faltou alguma coisa, há o excelente mediaevum. Obrigatório saber alemão para estes sites.
Tupi: Não há muita coisa sobre o tupi por aí. Mas esta página dá para matar a sede.
Gaélico irlandês: Tenho continuado meus estudos de gaélico por esta página, que peca por seus objetivos claramente políticos. Chega a ser desagradável, mesmo para quem, como eu, é simpatizante da causa irlandesa.
Sânscrito: Comecei a estudar aqui, o curso parece ser muito bom.
Chinês: Aqui há tudo que se precisa para aprender o chinês.
Egípcio: Acabei de descobrir este site, que parece ter bons links, ainda não explorei. Você consegue até as fontes Unicode (aliás, alguém me ensine a instalar o devanagari em Unicode, pois não consegui!)
Hitita: Sorry, no online resources for the Hittite language..., mas se ainda assim você quiser (sabe-se lá por qual motivo), prosseguir na hititologia, pode comprar esta gramática, que é a que tenho.
Línguas semíticas: Achei cursos de Aramaico assírio, Acadiano (ou assírio-babilônio), e, glória das glórias, uma gramática de Fenício (ou púnico).
Quem precisa de André Breton quando temos tradutores ruins?
Eu acho que falta um Cícero nesse país, sim, um homem com ímpeto, coragem, inteligência e carisma para se contrapor a esse estado de coisas que estamos vivos. Vocês imaginam Cícero, redivivo, furibundo, apontando o dedo para seu oponente (claro, sem amassar a túnica ricamente brocada) e dizendo:
Quousque tandem abutere, Ioseph Dircee, patientia nostra?
Tirante o fato de que o acusado mal poderia compreender seu nome, seria muito interessante alguém que unisse todas as qualidades de um Cícero se levantasse contra algumas das mazelas do atual governo. Sim, há gente inteligente e capaz que critica o governo, há inúmeros blogueiros, professores, estudiosos, etc, etc, mas se a uns falta visibilidade e credibilidade, a outros falta carisma e vigor e, claro, nossos políticos se parecem com vendedores de pamonha.
Seria então necessária uma oposição tão forte? Creio que sim, há alguns movimentos desse governo que são, no mínimo suspeitos.
(sem contar que um alto político aceitar financiamento de um setor, digamos, ilegal, é, no pior dos casos, uma ingenuidade que desacriditaria sua capacidade de governar...)
Vejamos o caso das cotas das universidades. Para o governo, a questão de cotas é essencial, como se fosse um estandarte de sua vontade de justiça social, claro, fazer algo que aparente ser benéfico aos pobres é sempre útil quando se pensa em reeleição. Também, esse esquema de cotas tem tudo para agradar a todos, ou quase. Agrada aos negros, pois eles ganham vagas universitárias, agrada às outras minorias, que se sentem impelidas a pedir suas próprias regalias, agrada a boa parte da classe média, aliviada pela redução de sua dívida social, agrada à facção marxista pedestre das universidades públicas, apenas não agrada a quem realmente se importa com o assunto: os estudantes e professores universitários.
Pode parecer bom, bonito e justo querer fazer da universidade "um lugar de todos" e menos elitista, esse discurso, digamos, libertário (não no sentido econômico ou americano do termo, por favor) é extremamente sedutor, toca em algum ponto da nossa consciência. É completamente irracional, não se pensa no mal irreversível que pode recair sobre as universidades públicas, um misto de piedade e culpa.
Evidentementeo discurso "libertário" é equivocado: a universidade é e deve ser o lugar elitista por excelência. Lugar de produção de conhecimento, essencial para qualquer país que desejar "virar gente", não pode ser banalizado ou ter seu processo de seleção afetado por fatores exteriores à excelência do aluno. Universidade não é sopa para pobre, não é lugar para efetivar a tão sonhada "distribuição de renda" do governo, não se presta para isso, ou melhor, não deveria.
Está bem, a culpa não é completa do governo petista, ajuda o fato de o ensino superior ter virado um colejão, algumas faculdades particulares têm até bedel. Isso tudo porque, como comentava com uma amiga, o ensino médio, mesmo particular, está em um nível abismal. Quando se lê Cidade de Deus em sala de aula, é sinal de que se chegou ao fundo do poço e cavou mais um pouquinho. A maioria dos cursos do chamado nível superior tem que fazer aquilo que deveria ter sido aprendido no segundo grau, isto é, ler e pensar, e a maioria fracassa nesse objetivo. Boa parte do ensino superior tornou-se uma espécie de curso técnico, se presta a "preparar para o mercado de trabalho", não era para ser assim.
Claro, pensam os petistas, com mais negros nas universidades, mais negros conseguirão empregos de salários médios ou altos e de tal modo há de se fazer uma redistribuição de renda. O raciocínio é torto e baseado nessa concepção de ensino superior que é completamente equivocada, mas, se não bastasse isso, a própria idéia de intervenção exterior no processo de seleção de um órgão que deveria ser algo idependente já me parece absurda. Imaginem se, de gráficos e tabelas do IBGE, o governo Lula resolvesse corrigir o Brasil impondo cotas, por exemplo: 10% de canhotos, 40% de brancos e 5% de amarelos na seleção brasileira de futebol (alguém já viu algum jogador de futebol brasileiro de origem asiática?)?
Ou vocês imaginam a Universidade de Paris no século XIII recusando a vaga de um Tomás de Aquino para ensinar a um trabalhador rual de Limoges como usar o novo arado de ferro?
Há uns 3 anos atrás visitei um fórum de música onde se discutia quem era melhor: Wagner ou Strauss II (o das valsinhas). Para qualquer pessoa que saiba ler uma partitura a pergunta é meio óbvia. Mas agora nem tanto.
Ouvindo o Morcego (não é boa música, não recomendo), percebo que o vienense pelo menos tem um senso de timing que Wagner jamais teve. Strauss termina a cena quando Wagner, arquejando, já começa a exagerar.
Um outro fator importante, essencial até, foi um gosto incipiente que tinha pela literatura simbolista francesa: Mallarmé, Rimbaud, esse povo. Pois me causou muita impressão uma daquelas frases de efeito, típicas do Mallarmé, "poesia é feita com palavras, não com idéias", de início, hegeliano que era, achei essa frase absurda, porém, o estrago no edifício wagneriano já era irreversível. É curioso o início do simbolismo dever tanto ao romantismo tardio e alguns de seus desenvolvimentos ulteriores se afastarem tanto de algumas de suas premissas. Posso dizer que o poema The Bells do Poe me ajudou a compreender o que Mallarmé quis dizer e me ensinou uma forma de fruição que ia além de uma recepção meramente conteudística.
Inclusive porque creio que a recepção de uma obra de arte por aquilo que ela pretende representar - o amor, a liberdade, um porco, qualquer coisa- é contrário até à própria definição de arte. É significativo e temeroso que essa seja a principal maneira de fruição dos diletantes e iniciantes em qualquer arte, significativo porque mostra que quando não se está acostumado à linguagem, o conteúdo serve de âncora, temeroso porque há muita gente que se interessa por arte não por ela, mas por algo que é, de certo modo, exterior a ela. Agora me lembro de Ezra Pound, quando a literatura começa a ser avaliada por fatores exteriores, como, por exemplo, as tendências políticas de um determinado autor, ela já não está funcionando mais como arte.
Pound foi sempre um grande crítico de diversas tendências do século XX, já visíveis e em gestação desde o século anterior, em resposta, ela é o mais criticado e incompreendido poeta do século passado. E não é à toa, o meu preferido. Não sei se ele chegou a dizer isto, mas a literatura continental, e a arte em geral, nos séculos XIX e XX sofreu uma mudança que não havia experimentado nos 26 séculos precedentes, abandonou um caráter de exercício estético aristocrático para virar um exótico freak-show, uma competição meio macabra de quem consegue escrever, compor, pintar, a peça mais original, mais sincera. Grifei essas duas palvras pois elas viraram o grande valor de boa parte da arte Romântica (especialmente a alemã) e uma parte ainda maior da arte do século XX, como se per se a orginalidade e a sinceridade fossem valores estéticos de apreciação. Chamar uma obra de feia, que era o maior insulto possível, tornou-se até um auto-elogio: "Nós não temos comprometimento com valores estéticos burgueses, nossa arte [sic] é propositalmente feia", declarava algum poeta futurista russo. Agora experimente chamá-lo de copiador para você ver a reação do homem de camisa amarela: irado, ele provavelmente faria contigo o que ele prometeu fazer com o burguês- não é coisa agradável...
Se alguém dissesse a Horácio que sua poesia não passava de mera cópia da poesia de Píndaro e Safo, o grande poeta latino, com seu olhar sereno, humildemente agradeceria o elogio e talvez até perguntasse se determinada passagem não era demasiado bárbara.
É esse o problema com Wagner, sua música valoriza fatores exteriores, anti-musicais até. As pretensas inovações chegam a cansar pela extrema insistência e o medo atroz de cair no que não fosse orginal. É a tal autocomplacência de nouveau riche que Stravinsky enxergava. A arte Romântica, a de Wagner em especial, tem o bombástico e o exagerado sem proporção e medida como objetivos "estéticos". Claro, pois era necessário extrapolar a arte para algo além dela, "abarcar o mundo", como diria Mahler mais tarde. Nesse movimento a arte perdeu sua ordem apolínea e seu sorriso dionisíaco, caiu-se em uma vala escura e fria, de onde o artista, não mais podendo compreender o mundo e sem qualquer limitação que o permitisse criar, passou a gritar, a berrar e a chorar, tudo isso para tentar justificar uma arte que já tinha perdido seu sentido.
No próximo post volto a Verdi.
A facilidade com que as pessoas rejeitam a ópera italiana me assuta, não pelo fato de não ser possível não gostar dela, é possível não se gostar de tudo, até de Mozart ou de um bife de chorizo, mas pelas críticas ao mesmo tempo simplórias e contundentes que a ela fazem. Pois eu digo, agora com toda segurança, que nenhum outro artista foi tão difícil de eu entender e apreciar quanto Giuseppe Verdi, tanto que acho que apenas pessoas maduras conseguem apreciar Verdi, uma música ao mesmo tempo simples, expressiva e extremamente refinada. Nas primeiras duas décadas do século XX era difícil dizer isso- talvez acontecesse exatamente o contrário-, mas, hoje, só se consegue gostar de Verdi quem realmente se interessa por música, uma vez que não há praticamente "muletas" anti-musicais para se gostar dele, como há, em larga escala, com o concorrente alemão...
Acho que contar minha historieta ajuda a compreender o que quero dizer. Sempre houve música em minha família, desde tempos imemoriais lembro de minha avó ouvindo a Lucia de Lammermoor ("Maria Callas é que é cantora, meu filho, Maria Callas é que é cantora...", dizia) ou do meu bisavô, quase surdo, ouvindo a Viúva Alegre ("tam-dam-dam dam-dam-dam...", acho que era isso que ele dizia) esgüelante em uma vitrola que, para a época (1989, por aí), já era mais que ultrapassada. Sim, ouviam mais coisas, alguns Verdis (notadamente a Traviata), outros Bellinis e Rossinis, algum Mozart e outro bocado de Beethoven, mas a minha experiência musical de infância mais marcante se resume à obra-prima de Donizetti e a uma Tosca que vi, aos sete anos, minha primeira ópera ao vivo. Quando entrei na adolescência, e tinha lá pelos meus 14 anos, impulsionado por aquela atitude típica da idade, passei a rejeitar esse "patrimônio familiar" por vários motivos. O mais importante é que, estudando teoria musical, a música da ópera italiana passou a me parecer mais pobre do que a de Brahms, por exemplo, afinal, uma música com instrumentação pobre, com uma harmonia relativamente simples e ainda tão presa a formas clássicas quanto uma Norma, jamais seria páreo para a liberdade sem limites da música de Wagner? Isso me pareceu, na época, claro.
E comecei a desprezar a ópera.
Concorreram para esse desprezo as flores literárias da ópera germânica, afinal, a música bandística verdiana estava a quilômetros da sublimação da música em filosofia que Wagner tanto queria fazer, enquanto a ópera verdiana ficava ligada ao chão, a música Wagneriana me levava à contemplação das idéias. Enquanto no melodrama latino, imperavam a poesia rasteira de "Mia figlia non í¨ piú vergine", "Vendette", "Maledizioni", a Holde Deutsche Kunst me fazia o "tempo tornar espaço" e eu tinha delírios com a renúncia do mundo fenomônico (Schopenhauer apud Wagner) e o festival de Leitmotive, relações dialéticas, sublimações e outros substantivos abstratos tão caros ao ultra-romantismo alemão...
Não vou contar aqui as transformações que "ao longo de uma noite movimentada", mas, pouco a pouco fui abandonando essa concepção romântica. Primeiro porque ela era praticamente insustentável, afinal, pouquíssima coisa acabaria se enquadrando nesse ideal de "grande arte" alemã (uma janelinha entre Goethe e Proust, o que é muito pouco), segundo que, ao notar como pessoas extremamente admiradas por mim se interessavam por autores menores (aliás, por "autores menores" entenda-se gênios do calibre de Mozart e Dante, muito superiores a qualquer romantico alemão que apareceu por aí), me perguntava a razão disso.
Continua....
¡Oh miserables hados, oh mezquina
suerte, la del estado humano, y dura,
do por tantos trabajos se camina,
y agora muy mayor la desventura
d’aquesta nuestra edad cuyo progreso
muda d’un mal en otro su figura!
¿A quién ya de nosotros el eceso
de guerras, de peligros y destierro
no toca y no ha cansado el gran proceso?
¿Quién no vio desparcir su sangre al hierro
del enemigo? ¿Quién no vio su vida
perder mil veces y escapar por yerro?
¡De cuántos queda y quedará perdida
la casa, la mujer y la memoria,
y d’otros la hacienda despendida!
¿Qué se saca d’aquesto? ¿Alguna gloria?
¿Algunos premios o agradecimiento?
(...)
Bien te confrieso que si alguna cosa
entre la humana puede y mortal gente
entristecer un alma generosa,
con grán razón podrá ser la presente.
Garcilaso de la Vega (1499-1536)

"A voga de Wagner diminuiu por razões tão diferentes quanto a falta de Flagstads e o declínio dos efeitos narcóticos da música, devido à circulação de drogas mais poderosas."
Igor Stravinsky