Edward Gibbon, one of the most influents historians of modern times, said in his seminal work Decline and Fall of the Roman Empire that the 1000 years of Byzantine Empire were an epic of unrelieved degradation and corruption. He was based on the somewhat troubled political history, full of overthrows of emperors, rebellions, and foreign treats (despite being far calmer than any of the Western and Islamic states of the time) and in a congenital prejudice against the orthodox culture (they said Byzantines were corruptors of the great classical culture, mainly due to a weird Herderian view).
But modern scholarship, through all 20th century, worked to refute this theory, and, these times, not a single Byzantinist dare to agre with Gibbon or Montesquieu. First of all, the Byzantine Empire was the most important power in Middle Ages Europe, his currency was the base of monetary Mediterranean until the Latin Empire; the Renaissance of the 10th century, when Plato's work and thought were re-introduced, influenced decisively the Italian Renaissance; and until nowadays, Constantinople is the baluart of Christian ortodoxy. Such influence, military, cultural and economical, would not come from a decadent empire or culture.
In fact, Byzantium had a history of ups and downs. The marked crisis of the 7th century, which has to do not only with the Arab invasion, but also with serious internal dissidences and troubles, was followed by the great renaissance of the 10th and 11th centuries, and culturally the Empire lasted great until the very end of the Comnenian dynasty, and probably at that time, Byzantium was more powerful than at the times of Justiniane and Belisarius. This fact discredits any "global décadence" theory.
Inuisus natalis adest, qui rure molesto
et sine Cerintho tristis agendus erit.
Dulcius urbe quid est? An uilla sit apta puellae
atque Arretino frigidus amnis agro?
Iam, nimium Messalla mei studiose, quiescas;
non tempestiuae saepe, propinque, uiae.
Hic animum sensusque meos abducta relinquo
arbitrio, quamuis non sinis esse, meo
Chega o odioso natal
e no incômodo campo, triste,
sem Cerintho, será passado
Ou há algo mais agradável
que a cidade? É por acaso
a villa apta à mulher
E o gélido rio Arretino?
Demasiado, meu Messala,
descanse. Pois são muitas vezes
inoportunas tais viagens
Deixo aqui, rapta, minha alma,
e o pensamento, por vontade,
por mais que não me deixes tê-la.
Sulpícia
(tradução minha)
Achei interessante falar desse poema. Não que eu me sinta dessa maneira, mas é um poema, digamos, apropriado, e interessante. Sobre a poetisa, quase nada se sabe realmente de Sulpícia, uma das suposições que são feitas, baseadas justamente neste poema, é que ela tenha sido sobrinha de Messala, o grande patrono da poesia latina da época (aliás, é o mesmo Messala do filme Ben Hur). Os textos foram legados inicialmente no livro terceiro de elegias de Tibulo, onde se diz estes versos terem sido escritos por uma tal Sulpícia, por falta de outros dados, é basicamente isto que nós temos, isto é, nem certeza de que eles pertençam a uma pessoa ou a uma persona.
Mas se de fato forem estes versos (um corpus de não mais de 40 versos) dessa Sulpícia sobrinha de Messala, serão estes os únicos versos que temos de uma escritora latina. Daí o interesse que se tem por estes versos. Ainda que não estejam no mesmo nível sequer de Tibulo, não podemos reputá-los de ruins, há numerosos indícios de que ela conhecia muito bem o código da Elegia Romana, e a sinceridade nos lembra um pouco de Catulo, apesar da menor destreza no uso da língua.
É provável que ela não tenha sido a única escritora, aliás, alguns testemunhos pictóricos e os graffitti de Pompéia mostram que as mulheres tinham, ao menos o domínio da escrita. Não há registro, entretanto, de haver alguma publicação de textos de escritoras, primeiro porque a "publicação", na época, só vinha depois da fama do poeta e provavelmente nenhuma mulher, por diversos fatores, conseguiu ter sua obra escrita. Além disso é importante lembrar que todas as poetisas gregas, Safo e Corina à frente, não tiveram a benevolência dos copistas cristãos, apesar de toda a fama da primeira.
Et regnera quasi universellement, une maladie bien horrible, & redoubtable: maligne, perverse, espoventable et mal plaisante, laquelle rendra le monde bien estonné, & dont plusieurs ne sçauront de quel boys faire fleches, & bien souvent composeront en ravasserie, syllogisans en la pierre philosophalle & es aureilles de Midas. Ie tremble de peur quand ie y pense, car ie vous diz quelle sera epidemiale & lappelle Averroys vii colliget. Faulte d'argent
Françoys Rabelais, Pantagrueline Prognostication
Fui apresentado a este ídolo das massas em janeiro ou fevereiro de 2002, conversando no ICQ com um habitante da Terra do Fogo, ou da Patagônia, algum desses lugares remotos da América. Falávamos sobre escritores argentinos, Jorge Luis Borges, que estava descobrindo à época e Júlio Cortázar que não estava descobrindo à época. Não sei se foi alguma falha do meu castelhano, o sei lá o que, que fez ele dizer que, além de Borges e Cortázar, me gusta mucho Bukowski, conoces?
Ainda não entendo o que em Borges e Cortázar pode ter feito nosso amigo achar que eu gostaria de Bukowski, às vezes nada mesmo, só sei que, desconhecendo completamente o dito, afirmei que não conhecia, mas procuraria ler algo na net. O patagônio logo me incentivou e recomendou alguns livros "deste grande poeta", para eu ler. Acessei o Google, com aquela esperança de encontrar uma chef d'oeuvre inconnu e o que achei foram alguns poemas em uma coletânea e os li. É escusado dizer que os achei horríveis. Prontamente despedi-me do patagônio, com certo medo de que ele ainda me recomendasse Jack Keruac, John Fante, ou de que me contasse suas aventuras sexuais com prostitutas indígenas da região.
Por quase dois anos esse nome permanaceu para mim como sendo de um poeta medíocre e outsider que ninguém inteligente leria. Nenhum dos meus amigos me falou dele (meus amigos são de alto nível, não mexo com a escória), também ele não foi citado por nenhum livro ou professor, muito menos pelos que interessavam. O silêncio, porém, se interrompeu há alguns meses, quando comecei a ler alguns blogs culturais, vi que muitas pessoas gostavam de Bukowski, mas invariavelmente, os que mais respeitava ou não citavam, ou o faziam com um certo escárnio.
Quando entrei no Yakult, fiquei impressionado como havia pessoas que gostavam desse velho, logo pensei nossa, como esse lugar é mal freqüentado. Os via como devassos, seres curiosos que não eram muito normais, e quando se dirigiam a mim, os imaginava manquitolando, insinuando-se com seu bafo de cachaça virtual, como uma triste minoria excluída na sarjeta. Mas não, entre a "elite" cultural, id est, as pessoas que efetivamente lêem alguma coisa, daqui, ele é considerado um poeta importante e modelo de vida, etc. Tanto que seus imitadores são louvados por estas bandas como importantes escritores "vanguardistas" e tal. Pior para nós.
Ainda não considero Bukowski um escritor de relevo, o Ruy e o Mundo Perfeito já falaram o bastante sobre ele. Não vejo nele um talento poético raro, pelo contrário, qualquer sonetista é superior a ele, pelo simples fato de que se importa, o mínimo, com a poesia e não especificamente com uma pretensa mensagem, que no fundo é um moralismo às avessas. Sejamos sinceros, qualquer um escreve aquilo, vocabulário simples, sintaxe primária, sonoridade de tábua de passar roupa, a capacidade de fazer jogos de palavras e conceitos de um redator da Hora do Brasil. Onde está seu valor?
Não está em seus textos, pois Bukowski não passa de um Ossian do século XX, quero dizer, é mais admirado pelos valores que ele pretende representar do que por algum valor próprio de sua "poesia". Hoje ninguém mais lê Ossian, a poesia é de péssimo nível, mas ele fez sucesso, por supostamente representar a poesia "pura", popular, vocês devem saber como essa coisa era importante para os românticos. Bukowski vai no mesmo caminho, ele é admirado pelo que ele pretende representar, "living la vida loca", this sort of things. Ainda bem que isso passa com o tempo.
Parte 2 - não recomendável para pessoas que não querem saber o final da história
Confesso que depois de conhecer o Gilgamesh, passei a ver minhas atividades de helenista e bizantinista com outros olhos, jamais vou reclamar das dificuldades do grego, ou do preço da edição (fora de prelo) da Belles Lettres da Cronografia do Psello, nem mesmo da distância que me separa de Atenas ou Istambul. Mesmo com os detalhes da complexa gramática grega, pelo menos há uma tradução de quase 3000 anos de transmissão ininterrupta, existem dicionários de grego há mais de 1000 anos e um corpus completo e riquíssimo, não tabuinhas de barro difíceis de ler. Os livros custam 50 euros, mas podem ser encontrados com relativa facilidade e vez ou outra são lançados aqui no Brasil. Nada que se aproxime dos preços astronômicos da edições dos textos originais (algo como 200 dólares o volume) e da necessidade de se decifrar, sempre, os textos, tendo até que adivinhar significados de algumas palavras ou coisas piores, sem contar que nem Grécia, nem Turquia se encontram em uma zona de guerra.
Outra dificuldade, se é que posso nomear assim, é que um bom número de estudiosos, não todos, mas talvez a maioria, não está interessado em estudar a cultura mesopotâmica per se, mas sim em procurar relações desses mitos semíticos com os mitos bíblicos, e a maioria das pesquisas é financiada pelas Sociedades Bíblicas mundo afora. Não que não haja relação, mas ela é sobrevalorizada e feita de uma maneira temerária, antes de se compreender a cultura estudada, que leva a um sem número de generalizações.
Apesar de tudo, foi possível aos especialistas reconstruir um "ciclo" e escrever uma história minimamente legível, e o que realmente me espantou foi o fato de ser um livro com uma qualidade literária muito boa. Há uma unidade que o torna muito interessante, tem um poder de comoção que não deve ser desprezado e é uma das obras mais singulares que conheço. Com efeito, este ciclo se encontra no limite do que podemos chamar de épico, as batalhas, se é que podemos nomeá-las assim, não ocupam uma posição relevante no texto completo, há logo no começo a luta com Enkidu, que acaba se tornando seu fiel amigo, e há as batalhas na floresta contra Humbaba, que não ocupam um grande volume.
Parece, então, que o mais importante da história de Gilgamesh é sua procura pela vida eterna. Filho de deus com mortal, Gilgamesh sofre com o destino que lhe foi reservado: por ser filho de deus, ganhou força descomunal e beleza inigualável, mas, por ser, também, filho de humano, ganhou a mortalidade como fardo. E é justamente o medo da morte que o move, inicialmente ele busca fazer feitos memoráveis para ter seu nome eternizado, e faz, vai até a floresta e mata o maligno Humbaba. Porém, por ter desagradado os deuses, seu amigo e companheiro Enkidu morre, o que atormenta Gilgamesh e a partir disso seu único objetivo é conseguir a imortalidade, o que faz ele viajar todo o mundo, fazer trabalhos descomunais para, no fim, não conseguir seu objetivo e morrer.
Há vários jogos interessantes no Gilgamesh, aquele mais interessante é a já citada mudança de sentido do significado da morte, no início, ela serve de estímulo para os dois, Gilgamesh e Enkidu, conseguirem feitos grandiosos, mas após a morte de Enkidu, Gilgamesh se torna um verdadeiro perturbado, e sua única razão de viver é simplesmente tentar continuar a viver para sempre, o que se mostra um erro. Outro jogo interessante é que o poema começa com um louvor à força da cidade de Uruk, suas muralhas, habitantes, etc, no passar da história, com todos seus acontecimentos grandiosos, esse louvor a algo completamente passageiro se torna um bocado prosaico, mas, logo após Gilgamesh ter certeza de que não conseguirá a vida eterna, ele volta a louvar a cidade de Uruk, alguns especialistas chamam esse final de zombeteiro, acho que concordo, para mim, se esse louvor for realmente intencional, é uma das passagens mais terríveis que já foram escritas.
É evidente que procurar um significado em texto de uma cultura tão estranha é um tiro no escuro, e bem me arrisco a fazer um julgamento incorreto. Mas o que mais me marcou nesse texto não foi o aspecto trágico de Gilgamesh e sua luta contra o destino, mas sim a mensagem da taberneira quando ele se encontra para partir à Dilmun para encontrar Utnapishtim, o Noé mesopotâmico, mensagem que usei como título destes dois posts. Pelo menos para mim, o Gilgamesh é como um "carpe diem" épico: desista de ser bravo e seja feliz, é essa sua "moral", de nada adianta buscar o inalcançável.
Parte 1
Às vezes tenho vontade de transformar isto aqui em uma versão pós-moderna da Bibliotheca do Patriarca Fócio, não o faço por preguiça, talvez, de ficar aqui registrando impressões de cada coisa que eu li, mas seria interessante para e mim e talvez para a humanidade. Imperscrutáveis são os desígnios dos deuses e, quem sabe, ou por um golpe de sorte - alguma característica especial do solo de onde eu morar- ou por eu conseguir um respeito tal em vida ou em morte, minha "obra" (digo isso com um certo sorriso) seja preservada e graças a ela ter-se-ia, no futuro, todo o testemunho de uma cultura e uma civilização? É uma possibilidade tentadora, útil trabalhar com ela, como o homem que mora em um bunker por medo de ser atingido por um meteorito. O destino é mais incerto do que imaginamos, não procure os números Babilônios, Leuconoe, não se sabe que destinos os deuses reservam a mim, a ti.
Claro que com minha obra preservada não se teria um quadro muito preciso do que era lido e discutido no Brasil do começo do século XX, não mais do que uma centena de pessoas deve ter lido a Chanson de Roland e deve haver um número parecido de estudantes de grego, se não menos. Mas eu, mesmo não querendo, não deixo de representar o que é o Brasil (per mia disgrazia) mesmo que seja apenas em potência. Por coisas assim que às vezes tenho um ataque de ceticismo quando leio sobre os "grandes leitores": Aristóteles, Fócio, Petrarca, Erasmo, etc, não se pode saber até que ponto eles liam o que estava no ar (para não citar Hegel e seu Zeitgeist) e até que ponto eles liam pelas suas idiossincrasias.
Mas uma divagação tão grande apenas para comentar um pouco sobre um livro que li ontem: o Gilgamesh. Não sei se vocês conhecem levemente a história da transmissão dessa obra, nem mesmo sei se vocês fazem idéia do que seja o Gilgamesh, portanto, comecemos do básico: O Gilgamesh é o grande épico babilônico (o termo é incorreto, mas estou me valendo dele pelos babilônios serem os mais conhecidos dos povos mesopotâmios, depois volto nisso) e trata basicamente da busca de seu herói, Gilgamesh, que é dois terços deus e um terço homem, pela vida eterna. Depois volto aos comentários literários, agora vou falar de sua "evolução".
Não existiu, para o Gilgamesh, uma história unificada em um livro, com um texto normalmente aceito, como aconteceu com a Ilíada, a Odisséia e boa parte das epopéias que conhecemos. O que nós temos da "epopéia" de Gilgamesh são histórias isoladas sobre o herói, o que o caracteriza mais como um ciclo. E este ciclo não se encontra unicamente em babilônico, a maior parte está em assírio, pois uma boa quantidade de tábuas foi encontrada nos escombros da biblioteca de Nínive (destruída no ataque dos medos que é contado no inciozinho da História do Heródoto), mas há pedaços em Hitita e em sumério. Aliás, os sumérios é que, provavelmente, foram os criadores dessa lenda, que se tornou uma espécie de entidade cultural pan-mesopotâmica, todos os povos da região parecem ter conhecido e acreditado nesse ciclo, mesmo os não semíticos, como os hititas (que eram indo-europeus). A dispersão é visível não somente pelos textos, como também pelos registros iconográficos nos templos, palácios e mesmo residências.
Após a destruição de Nínive, e o subseqüente domínio persa (com um pequeno interregno medo-babilônico), os registros de Gilgamesh e suas aventuras, junto com todos os registros da cultura babilônica, desaparecem em favor da cultura persa que já se mesclava com a cultura fenícia e egípcia, para logo depois desaguar, com Alexandre, no período chamado Helenístico. Portanto, tudo que temos dos antigo babilônios é o que foi conseguido nas escavações arqueológicas, inclusive Gilgamesh, que ficou desconhecido por 26 séculos.
Dessa forma os registros restantes do ciclo de Gilgamesh são extremamente precários e se limitam a fragmentos achados, ora em uma escavação nas ruínas de Nínive, ora em achados em Boghakzöy, na Turquia, ora em Uruk, no sul do Iraque. E as escavações nunca, obviamente, trazem um texto completo, são sempre fragmentos, difícieis de ler (aliás, ninguém senta na sua cama à noite e lê uma tabuinha de barro em Sumério, decifrar estas tábuas é sempre um trabalho lento e complicado) e frágeis. E é tão fragmentário que várias vezes se completa uma história em assírio com um fragmento escrito 400 anos antes em hitita, os problemas de uma aproximação são bem conhecidas mas, na maioria das vezes, é a única maneira possível para se decifrar e avançar um pouquinho no entendimento dessa obra, que é fantástica, e dessa cultura perdida.
Esse post serviu apenas para infomar um pouco sobre o Gilgamesh e esclarecer sobre o que falarei mais tarde sobre esta obra. Não existe uma epopéia de Gilgamesh, mas sim relatos que, dispostos tem ordem cronológica, ganham um ar de epopéia. Amanhã ou o mais cedo possível falo sobre a obra propriamente dita.
Ao ser criticado sobre uma passagem do seu Lamento di Arianna, Monteverdi respondeu:
-Ela foi traída pelo grande amor de sua vida, pelo homem a quem ela deu sua vida, e você espera que seu lamento seja agradável como um canto de primavera?
É o momento mais radical de Monteverdi, uma seqüência de trítonos encadeados e ritmo martelato, numa repetição obsessiva, uma música inesquecível. Não se usa Monteverdi para reportagens de jornal ou comerciais, ele é forte demais para ter o efeito "inócuo" desejado.
Parnaso
4. Lamento di Arianna-Claudio Monteverdi.
PS: Encerrei minha seção musical, agora volto à literatura e a reclamar dos comunistas e dos very authoritarians da vida.
Provavelmente não foi intencional, mas, de um modo ou de outro, o Renascimento foi, basicamente, a reintrodução da Poética de Aristóteles nas artes, primeiramente na Itália e depois no resto do continente. Podemos dizer, com todos os problemas ligados a tal redução, que o Renascimento foi o abandono da típica expressão simbólica, esotérica, medieval, em virtude de um neo-naturalismo, da imitação da natureza. Isso pode ser visto na pintura, com a busca de uma expressão mais fiel à realidade sensível, ajudada pelos desenvolvimentos científicos na perspectiva e na anatomia; e na literatura, com o abandono das práticas retóricas tardo-clássicas e medievais em busca de uma descrição mais única e precisa, abandono da forma esotérica da poesia medieval (vide a terza rima), e com a predileção por narrativas mais verossímeis, Petrarca e Boccaccio são dois exemplos característicos.
Porém, o status da música nessa transição de pensamento raramente foi pensado, e quando o foi, serviu para se criar afirmações absurdas, como a de que não houve renascimento musical. Se tal afirmação fosse válida, seria necessário refazer toda a classificação períodica da música, coisa que não foi feita. O problema da música é duplo: primeiro, a pesquisa histórica está na maioria dos casos ligada à interpretação; segundo, não há musicologia especulativa. Esse fato se agrava quando realmente notamos que a especulação musical é raríssima, e, quando existe, se assemelha mais a glosas dos filósofos franco-alemães dos séculos XIX e XX do que a algo de fato sério. A pesquisa se encontra, então, severamente prejudicada.
Acontece que o renascimento musical existiu. Sim, foi breve, mas sua brevidade não significa menor glória e importância. Pelo contrário, sua maniifestação mais evidente foi a criação da ópera, e pode-se dizer que a música moderna nasceu dos mesmos ímpetos que geraram a ópera (seria o caso de dizer que a ópera é o gênero moderno por excelência? Não sei, fica a cargo de vocês). Mas é além da ópera que temos que buscar as origens deste "aristotelismo musical", pois esta é apenas sua gloriosa, digamos, apoteose.
Estas influências, ao menos de início, foram secundárias, isto é, aconteceram mais por influência do Dolce stil nuovo do que por uma vontade de "volta às fontes". O Dolce stil nuovo, alcançando sua expressão máxima na figura de Petrarca, havia surgido com a manifesta intenção de expressar a alma interior do poeta, a poesia, então, deveria ser escrita de forma a ser o mais fiel à realidade íntima do poeta, ao mesmo tempo que deveria ser agradável e bela, daí a busca pela expressão mais preciosa e pela rima mais rica, típicas de Petrarca, Cavalcanti, Guinzinelli e o Dante lírico. Em contato com essa lírica, com essa visão de arte, músicos, pensadores, passaram a se perguntar se o mesmo não deveria acontecer com a música.
Não, esse não foi o último passo para o renascimento chegar à música. Dada essa pergunta, o fato de, nos textos antigos, a música ter um papel comovente muito forte, provocando ou lágrimas ou a maior das alegrias, também passou a ser notado. As afirmações de Platão, Aristóteles, Plutarco e Boécio sobre o papel da música como mimese dos estados de alma, foram também essenciais para esse período de "forja ideológica". Não podemos afirmar que tal movimento foi consciente, não houve alguém que tivesse escrito, até a Camerata Florentina, que a música deveria ter um determinado número de características, mas certamente serviu para modificar a visão da música e orientá-la em um sentido mimético-emocional.
Como foi da literatura que começou essa mudança ideológica, foi também nela que começaram as mudanças práticas. E no nascimento do madrigal e sua evolução e dissipação na ópera, pode ser resumida a história da música renascentista. Ele nasceu de um descolamento das canções populares (frottolle), isto é, ao invés de uma música meramente auto-referente, pensou-se como objetivo uma música que expressasse aquele novo tipo de texto. A partir daí foram criadas toda uma série de desenvolvimentos musicais com intenção expressiva, os madrigalismos, baseados ou em questões de tensão harmônica, dissonâncias, modulações, etc, ou flexibilidade rítmica, coloraturas, trinados, escalas, etc, contribuindo largamento para o nascimento da harmonia moderna.
Mas também houve uma adaptação das teorias antigas, Platão nos dá a entender que cada modo tinha uma característica própria, Plutarco nos diz que usava-se notas longas para a tristeza, e notas curtas para a alegria. Muitas vezes tratou-se de associar tonalidades e figuras rítmicas a estados de alma.
É importante notar que estes madrigalismos cedo evoluíram para uma retórica musical, algumas das convenções aí surgidas vieram a dominar toda a vivência da música tonal, como a associação de tonalidades menores com tristeza. Mas as convenções não se limitaram às que estamos mais acostumados, a ópera francesa do século XVII chegou a associar estados de alma a 16 das 24 tonalidades, sem contar um sem-número de figuras rítmicas e escalas, cada um relacionado a uma situação. Não obstante a construção desse código, a música renascentista permaneceu, sempre, com uma certa veia "expressionista", se podemos usar esta palavra.
Ainda que forme um círculo um tanto restrito de admiradores, a codificação da música foi de grande valia para o início de uma música que não fosse auto-referente, talvez a única possibilidade existente. Porém, o madrigal, de certa forma, sempre pareceu esgotar-se no texto, isto é, a música existia somente para o texto, como um suporte para sua compreensão (não devemos esquecer que era esta a função da música na Grécia), a recém-nascida ópera sofria do mesmo mal, talvez ainda mais, pois havia uma recusa dos compositores desse movimento, chamado de Camerata Florentina, em fazer uma música minimamente absoluta, ela deveria ser totalmente voltada ao texto e deveria servir unicamente para sua compreensão.
Pode-se dizer que a Camerata Florentina foi a radicalização do movimento madrigalesco, este, em sua busca de expressar o texto ainda se valia de técnicas polifônicas derivadas das escolas flamengas; a Camerata Florentina (ou Camereta Bardi, nomeada segundo o conde de Florença) rejeitava tudo que a música antiga cantava, em virtude da expressão monódica. Era uma aplicação radical dos preceitos antigos, de Boécio e Plutarco. Soa-nos um tanto estranha, e tremendamente anacrônica, essa volta a uma tradição desconhecida, mas o que ficou foi a abolição da polifonia (que era considerada o "esquartejamento" da poesia) e o estabelecimento do recitativo como o meio de expressão vocal.
Até então esta "nova" música havia se resumido a expressar o texto em si, não seria mentira dizer que ela deixou de ser ela mesma, isto é, se tornara uma arte para explicar outra arte. Também, como aconteceria não muito depois, ocorrera uma simplificação da arte musical, abandonara-se os requintes da arte antiga, e, especialmente na ópera, esse "doce estilo novo" tinha muito de rudimentar. Eis que, por fim, surge o último elo nessa cadeia de formação de uma nova poética musical: Claudio Monteverdi.
A importância musical de Monteverdi é enorme, entretanto, não raras vezes são dadas a ele inovações que ele não fez e muitas de seus valores mais importantes são esquecidos, ou trocados, por valores opostos. O principal papel de Monteverdi foi o de consolidar os novos gêneros, reformar os antigos e avançar no refinamento do nascente sistema tonal. Não é um trabalho desimportante, como se vê.
A primeira grande distinção entre Monteverdi e todo o grupo que o antecede, principalmente os músicos da Camerata Bardi, é que ele foi um músico profissional, estudou harmonia com um dos maiores teóricos de sua época: Marc'Antonio Ingenieri. Parece curioso, mas os primeiros compositores de ópera, os primeiros teóricos da ópera, eram helenistas que não sabiam grego e musicólogos com fraquíssima base musical, aliás, ainda mais espantoso, toda a ópera deriva de um erro de interpretação do Sobre a música de Plutarco.
Talvez derive dessa ignorância musical a constatação de Vicenzo Galilei (por acaso, o pai de Galileu) de que a música polifônica não era capaz de comover os homens e que, portanto, esta deveria ser esquecida em função da monodia, constatação infeliz que se tornou bandeira e identidade de um gênero- hoje em dia, basta ouvir um madrigal de Monteverdi ou uma cantata de Bach para perceber o absurdo. Os primeiros compositores de ópera permaneceram firmes e a nova ópera começou dessa forma, um espetáculo eminentemente literário, cuja "música", tanto pela rudeza quanto pelas limitações impostas por essa estética algo aberrativa, antes de significar um avanço, significou um retrocesso em relação ao madrigal e suas possibilidades expressivas.
Na próxima ocasião comento mais sobre Monteverdi e um pouco sobre seus sucessores.
Por alguma razão eu comecei a, como diz jocosamente uma amiga, colecionar óperas do classicismo. Ainda estou no começo da coleção (hehe), mas já tenho algumas óperas interessantes: Mitridade de Mozart, L'infedeltí delusa e Orlando Paladino de Haydn, Il matrimonio segreto de Cimarosa, Amadis des Gaules de JC Bach são as mais interessantes que encontrei no momento.
Não quero falar das óperas da maturidade de Mozart, tampouco de Gluck ou de Orfeo ed Euridice de Haydn, que já são óperas consagradas. Mas dessas óperas nem tão conhecidas, como as outras de Haydn e principalmente a óperas de Cimarosa, que foram as óperas que mais me impressionaram.
Parece-me que nenhum momento produziu óperas cômicas de tanta qualidade quanto o classicismo, e acho que o estilo tão criticado deste movimento favorece imensamente este gênero. Por exemplo, a total verticalização da música favorece a construção de duos, trios, quartetos, etc; pois me parece que o desígnio de uma função harmônica específica a um determinado personagem permite jogos de sentido e possibilidades expressivas muito maiores que a imitação barroca (por exemplo, o início (Susanna-Condessa-Conde) do finale do segundo ato das Bodas em comparação com qualquer conjunto barroco posterior a Monteverdi e Cavalli.
Há outros fatores, penso, como a nova interpretação da harmonia, que permite fazer jogos e brincadeiras com ela como em nenhum outro período, e isso é muito útil em termos dramáticos, sem cair no simbolismo interno do romantismo, que me parece algo anti-natural. O melodismo natural também facilita, o classicimo é o período da melodia, nele ela reina soberana, e em termos de ópera a melodia parece conduzir melhor a trama do que qualquer outro recurso musical, por ser facilmente memorável e compreensível. A prática do desenvolvimento temática, outro trunfo do final do barroco e início do classicismo, também podemos ver já em sua maturidade nas óperas de Mozart, e seus efeitos já podemos sentir nas citações internas das óperas de Mozart.
Por isso, creio que, ao contrário do que diz a crítica tradicional, a ópera é o grande gênero do classicismo, onde ele pôde se manifestar de maneira mais livre e total. De tanta importância que os outros gêneros podemos considerar tributários da ópera, principalmente em Mozart, mas quem quiser saber mais disso, por favor, ler o musicólogo Charles Rosen, já que a leitura ainda está fresca na minha cabeça.
A Paixão segundo São Mateus.
Sie Schrien aber noch mehr, und sprachen:
-Lass ihn kreutzen!
A Paixão segundo São Mateus é provavelmente a maior obra de arte musical de todos os tempos. O acme musical do maior dos compositores, 3 horas da música mais apaixonada jamais feita. Não dá para não ouvir e não ficar marcado pelas intervenções do evangelista, ou pelos coros, um mais bonito que o outro, ou pelas árias magníficas.
Essencial.
Crucifixus etiam pro nobis
Eu pretendia escrever uma crônica chavão sobre a sexta-feira da paixão e dizer que (voz de velho) "na minha época, sexta feira da paixão era bem diferente de hoje, a gente não podia rir, só se vestia de preto e as rádios só tocavam músicas tristes"(fim da voz de velho), mas eu parei para pensar e vi que minha crônica não iria pegar, não houve muita mudança nesses últimos 8 anos, do Axé para o Funk, talvez seja o máximo. Mas é interessante falar da crucifixação depois de que insurgiram tantos teólogos nos últimos meses, eu não vi o filme, mas acho que essa frase da Paixão Segundo São Mateus, de Bach, encerra tudo:
Drum muss uns sein verdienstilch Leiden recht bitter und doch süíŸen sein
"Então seu sofrimento meritório deve ser corretamente amargo e doce"
Ok. Picandro não é o maior poeta de todos os tempos, mas acho que essa frase resume o que deve ser as comemorações da Paixão de Cristo: tristes, mas alegres. A tristeza obviamente entra pela extrema violência que é o flagelo, a crucifixação e a humilhação de Cristo. Mas a alegria, que í s vezes tende a ser esquecida, entra porque essa morte significa também a expiação da Morte; todos sabemos que ele ressucitou no terceiro dia segundo as escrituras, significa, de certa forma, uma libertação, ou melhor, a grande libertação. E acho que é essa alegria, misturada í gratidão, que deve ser encenada, comentada, fruída.
Pois é por isso que essa data é comemorada, de outra forma, a paixão seria apenas mais uma execução no mediterrâneo oriental.
Parnaso de Fogo Grego
3.Apolo e Dafne de Gian Lorenzo Bernini
Iria colocar uma outra obra musical, mas para evitar que essa listinha se tornasse unicamente musical, resolvi colocar essa verdadeira obra prima do barroco italiano. O mito da ninfa que fugindo dos amores de Apolo transforma-se em um loureiro é por demais conhecido para eu ficar explicando por aqui. O que interessa de fato é a forma impecável com que Bernini executou, veja a naturalidade da metamorfose, a sensação de movimento e inconclusão, não é, mesmo, uma das maiores esculturas que vocês já viram?
Temos um banner. Para quem (quem?) quiser linká-lo, eis:

Alguém ainda escuta Geraldo Vandré?
A história é mais cruel e justa do que imaginamos. Eles já foram chamados de libertadores, salvadores e outras lisonjas. Lembro-me muito bem dos meus livros e professores de história do segundo grau falando dos horrores da ditadura e de como eles lutavam (arduamente segundo um deles) por um Brasil mais digno e justo. Pois bem, agora que eles estão no poder, alguém tem ainda coragem de fazer apologias í benevolência deles?
Hoje é aniversário de morte de Igor Stravinsky. Aquele que, na opinião deste weblog, foi o grande compositor do século XX.
Não dispõe de fã clube organizado como Webern, nem de gritinhos fanáticos como Schoenberg; tampouco fez parte da vanguarda bolchevique de sua época. Não obstante, sua obra é a mais acessível dos grandes compositores do século XX, tanto por não ter caído no obscurantismo, quanto por buscar, sempre, um apelo instantâneo, sensitivo mesmo. Stravinsky não é um compositor cerebral, não busca os detalhezinhos de construção (embora eles existam), muito menos um compositor emotivo, suas brigas contra quem procurava "interpretar" suas partituras são famosas; chamaria de organizador, devido à sua manifesta definição de arte como um meio de se organizar o mundo. Fora isso, é difícil definir Stravinsky, por ele ter passado por tantos estilos e modas nos seus 90 anos de vida, ele pode resumir todo o século XX. Talvez seja correto chamá-lo de um compositor extremamente musical.

hats off, gentlemen
Les Noces de Stravinsky
Graças í efeméride, Stravinsky é o segundo a ser nomeado ao Parnaso. Nomeio Les Noces, tanto por ser sua melhor obra, como para evitar a mesmice de citar Le Sacre.
O Parnaso de Fogo Grego
2. Les Noces de Igor Stravinsky
He trust in god that he would deliver him, let him deliver him, if he delight in him
Pensando bem, no meu Paraíso, tem o Messias inteiro.
Taí Luíza, escolho Handel e seu Messias como o primeiro membro do meu cânone Parnaso. Serão 100 membros, e espero a ajuda de meus leitores.
Parnaso do Fogo grego
1-Messiah, GF Handel
Paraíso
O meu paraíso tem a Magdalena Kozená cantando But who may abide do Messias.
Os seus não?
Dicas musicais da semana santa
Segunda-feira:
Isarel in Egypt, GF Handel
Parece que não sou apenas eu, várias pessoas no mundo se preocupam com o fato de se ler tantos escritores de má qualidade, Bukowski e Lya Luft, para citar alguns exemplos. É um tipo de escritor que não adiciona muito, quando não retira, e são pobremente escritos, nada muito útil pedagogicamente. Na verdade eu me preocupo também com "cousas maiores" (para citar um de boa qualidade): o fato de escritores medianos (Gabriel Garcia Marquez), bons (Júlio Cortázar) e muito bons (Jorge Luis Borges) serem lidos exageradamente e tomados como fim último da arte literária. Não sei se ler a obra completa de alguns escritores ou mesmo ler todo o corpus de um período ou estilo, signifique ter algum conhecimento válido. Explico, conheço uma pessoa que leu a obra completa de Mario Vargas Llosa (tá, eu sei que deve haver um pouco de masoquismo, mas nunca fui indiscreto a ponto de perguntar por isso), e, conversando com essa pessoa (estou sendo ultra indelicado, confesso), percebe-se que o fato de ter lido, sei lá, 9 ou 10 livros desse escritor não a tornou em nada mais culta ou inteligente- não emburreceu, é verdade, o que, para pessoas com 19 anos é uma vitória.
Acho que a resposta está em algo que geralmente temos medo em admitir: o hábito de leitura não é, per se, um indicativo nem de cultura, sequer de inteligência. Existe um estereótipo de que a pessoa que lê muito é inteligente- não culta, inteligente mesmo-, como se a inteligência fosse adquirida por uma longa exposição í s tintas, ou ao cheiro da cola das lombadas (se bem que esta hipótese é menos provável por excluir as edições costuradas ou grampeadas), e isso afeta mesmo as categorias mais, digamos, remediadas, da sociedade, até pessoas inteligentes e cultas caem nisso.
Vai aí a minha definição: ler é uma atividade como assistir TV ou ouvir música. Importa mais o conteúdo do que o ato, é até meio esquisito dizer algo tão óbvio. É claro que ninguém julga alguém que lê os romances de Sabrina como uma figura de vulto no mundo cultura, mas o que eu quero dizer é que a atividade de ler os romances de Sabrina não é em nada diferente da leitura de gibis do Maurício de Souza, pois a leitura, em larga escala, deve ser considerada uma diversão. Pode ser uma diversão sofisticada, de homens inteligentes e educados, mas há de permanecer como diversáo. Por isso não acho muito difícil classificar um livro como Os demônios do Dostoiévski ao lado do Senhor dos Anéis, ambos se prestam ao mesmo fim (os objetivos políticos de Dostoiévski são, hoje, absolutamente irrelevantes), o primeiro talvez seja melhor que o segundo por ser mais bem escrito, mais comovimente, ou não.
De certa forma se salva aquilo que podemos chamar de livros de formação: os livros mais importantes de filosofia, história e outras ciências, e as grandes obras literárias í s quais costumamos dar o nome de clássicas. No mínimo três blogs falam desse tipo de formação, o Noites íticas, o Alexandrinas e O Indivíduo, que pode ser levemente confundido com o que chamamos de educação liberal. Graças a isso, eu não vou precisar, no momento, falar sobre isso aqui.
Se me perguntam o que seriam as tais obras clássicas, outro dia conversava com uma amiga sobre isso, se me encarregassem de fazer uma lista das maiores obras literárias de todos os tempos, ou ela seria muito grande, ou muito pequena. Ou tereia aquilo que é absolutamente essencial, ou teria tudo aquilo que é importante. Talvez, como a idéia dos clássicos é uma idéia pedagógica, no sentido mais humanista possível da palavra, seria interessante uma leitura não cronológica, mas por etapas, do essencial (Ilíada, Divina Comédia, Dom Quixote í frente) até o menos importante.
O resto, por melhor que seja, fica sendo diversão e especialização. Você pode me argumentar que é arte, que arte não é só diversão etc. Mas, a princípio (e mesmo etimologicamente) é diversão, as outras funções da arte normalmente são construções teóricas.
Dicas musicais para a Semana Santa
Domingo de Ramos:
Paixão Segundo são João - JS Bach
Pensamento do dia
Boas aulas de português seriam essenciais: uma parte, que chamamos de gramática, nos ensinaria a dominar a sintaxe, a outra, que chamamos de literatura, dar-nos-ia um vocabulário mínimo* e uma modelo de pensar em palavras. Pois escrever não é mais do que uma forma de fazer seu pensamento ser compreensível em palavras através do domínio de uma sintaxe sutil e um vocabulário preciso. O problema é que hoje as aulas nos estimulam a não entender a sintaxe e a escrever como estagiários de jornal, daí vem essa cultura de analfabetos que é a atual, também explica porque os blogueiros brasileiros (eu incluso) escrevem tão mal.
* sem contar, evidentemente, com o caráter humanístico e cultural, mas isso não faz parte desse assunto.
Estava lendo alguns poemas dos troveiros (análogos aos trovadores, só que do norte da França), e vi alguns muito estranhos, achei interessante compartilhar com vocês, são todas anônimas do século XII. Por hoje, vai esse:
I RS 1564
Por coi me bait mes maris?
Laisette!
Je ne li de rienz meffis
Ne riens ne li ai mesdit
Fors c'acolleir mon amin
Soulete
Por coi me bait mes maris?
Laisette
Et s'il ne me lait dureir
Ne bone bie meneir
Je lou ferai cous clameir
A certes
Por coi me bait mes maris?
Laisette
Or sai bien que je ferai
Et coment m'an vangerai
Avec mon amin geirai
Nüete