julho 31, 2004

Por uma universidade brasileira (1)

Com esta mensagem, pretendo iniciar uma série pela reforma universitária e pela adoção de cursos que correspondam à realidade e ao estilo brasileiro. Este primeiro, serve para todos aqueles jovens que, na falta de uma opção que correspondesse à verdadeira vocação, acabaram empacando em cursos de Engenharia, sendo frequentemente reprovados em Cálculo e Resistência dos Materiais, dedicado a um dos mais populares e difundidos esportes brasileiros: o truco.

Curso de Truco - Faculdade de Cartas, departamento de jogos vernáculos
Modalidades Licenciatura e Bacharelado

Ciclo Básico:

Primeiro Semestre

Teoria Geral dos Jogos de Carta I
Iniciação ao Truco I
Introdução ao embaralhamento I
Psicologia
Economia

Segundo Semestre

Teoria Geral dos Jogos de Carta II
Iniciação ao Truco II
Iniciação ao embaralhamento II
Buraco I
Filosofia aplicada aos jogos de carta


Terceiro Semestre

Teoria Geral dos Jogos de Carta III
Truco Avançado I- Habilidades integradas
Iniciação ao embaralhamento III- Técnicas e práticas
Sociologia
Jogos de cartas brasileiros- História

Quatro Semestre

Teoria Geral dos Jogos de Carta IV
Poker I
Bridge I
História dos jogos de cartas I
Truco Avançado II- Teoria geral das manilhas

Núcleo Específico

Quinto Semestre

Embaralhamento aplicado ao Truco
Jogos de cartas brasileiros- Teoria e Prática
Artes Cênicas aplicadas- Dissimulação e inferência
Tópicos em embaralhamento- o corte por cima
Truco Avançado III- As Mãos

Sexto Semestre

Tópicos em Truco- Teoria dos sinais
Praticas em truco I
Truco Avançado IV- A Mão de dez
Técnicas de trucagem I
Optativa- Bacharelado
Didática do Truco- Licenciatura

Sétimo Semestre

Tópicos em Truco- O Truco paulista aplicado
Técnicas de Trucagem II - o blefe
Práticas em Truco II
Monografia I
Optativa- Bacharelado
Didática do Truco- Licenciatura

Oitavo semestre
Monografia II
Tópicos em Truco- O Truco mineiro e suas variantes
Técnicas de Trucagem III- blefe avançado
Boxe I
Optativa

PS: Agradeço ao Radamanto, pela inspiração e à Milena pela ajuda na montagem da grade.

Posted by Bruno Hohenstaufen at 11:11 PM

julho 28, 2004

Fallmerayer- o nome da besta

Eu havia escrito esse post logo antes de me mudar para cá, para expor este texto, agora com uma maior visibilidade, e porque eu pretendo voltar a um assunto parecido em breve, fiz umas pequenas mudanças e republico este post, considero o assunto importantíssimo

A Antropologia do século XIX é uma bizarra manifestação do positivismo, tendo como frutos uma das mais vergonhosas passagens da história da humanidade: o racismo "científico", dentre eles o nazismo, o apartheid e outras formas de discriminação e genocídio de massa- da mesma forma que a sociologia da época tem como seu grande expoente Karl Marx (mais nada a declarar). Fato muito comum, ele nasceu de uma teoria "inocente", e o que é pior, de um suposto humanista e pacifista, a teoria da história de Herder. É evidente que há formas anteriores de racismo que datam desde tempos imemoriais, mas foi Herder no final do século XVIII que serviu de base científica para o desenvolvimento intelectual de todos os teóricos racistas: de Gobineau e Chamberlain a Hitler.


Bem por alto, Herder defendia que cada povo, no sentido étnico do termo, tinha uma unidade cultural própria e que cada um deles teve ou terá uma história de ascenção, auge, decadência e queda. A interação entre os vários povos que seria o motor da História, vários povos diferentes, em estágios diferente de "desenvolvimento, como os romanos e os bárbaros, os bizantinos e os turcos. Assim, Herder era contra a miscigenação, pois ela debilitava cada um dos dois povos, gerando híbridos que não se sustentariam com a mesma força de cada um dos pais, e também era contra a dominação estrangeira, pois ela impediria um povo de se manifestar legitimamente, e mesmo contra a monarquia, porque em uma monarquia havia a opressão de uma classe rica sobre uma classe pobre, o que, segundo Herder, "cristalizava" as manifestações mais próprias da cultura. Herder se configura também, como o inventor do conceito moderno de nação e um dos primeiros pensadores contemporâneos da democracia.

Dizem os historiadores que Herder não chegou a dar o passo à frente e formular a quimera do nacionalismo alemão, mas, de qualuqer forma, os pressupostos já estavam lá para apenas serem reunidos logo depois por Fichte. E essa doutrina foi crescendo até se juntar com o racismo tradicional frente a judeus, africanos, árabes, etc. Durante essa época que os que podemos chamar de estudos culturais (Antropologia, Literatura, Artes e Lingüística histórica) nasceram, subjacendo e muitas vezes alimentando todo o movimento de nascimento do racismo moderno.

É um fato interessante que muitas dessas ciências nascem nessa época e tiveram franca influência e impulso do nacionalismo coetâneo, muitas vezes dando sustento a esse sentimento (não creio que nacionalismo seja algo superior a isto), como o estranho caso do embaixador Gobineau.

Arthur de Gobineau foi um diplomata francês que serviu na segunda metade do século XIX. Apesar de francês, podemos considerá-lo alemão (en esprit ou in Geist como creio que ele preferiria). Ele, anti-democrático (aqui vemos, de certa forma, que ele já está bastante afastado de Herder) e anti-Semita por natureza, foi um dos mais influentes homens de letra de sua época, serviu no Irã e no Brasil, onde ele coletou "dados" para sua "obra" que seria posteriormente publicada, Essai sur l'inégalité des races humaines, obra que influenciaria homens como Hitler, Wagner, Nietzsche e Chamberlain. Segundo ele, avaliando tamanho de cérebro e outras coisas, existia no mundo uma raça predestinada ao domínio mundial (Weltherrschaft), pois ela, e é claro que estamos falando da raça germânica, era mais forte, mais inteligente e mais criativa que as outras, e com a queda do império romano, havia mostrado sua força e valor. As outras raças seriam raças menores, como os latinos, fracos e preguiçosos, e ainda pior que as outras raças, segundo nosso "cientista", seriam as miscigenações, pois, como em alguns animais, elas produziriam "crias" inférteis e, no mais das vezes, fracas, inaptas à vida. Por essas e outras razões, nosso tão estimado cientista previu que a população brasileira iria acabar por volta de 2020, devido a alta taxa de miscigenação, e seria esta também a razão pela qual que o povo francês havia perdido a guerra franco-prussiana, essa população miscigenada não poderia com a força dos heróis (sim, ele usa esse termo) germânicos, uma curiosa teoria pela qual a antropologia substitui a estratégia militar e política. Imagino qual seria sua cara de surpresa se estivesse vivo em Versailles, 1919. E claro, não havia nada pior que os semitas, em hipótese alguma.

Claro, depois de provada a superioridade da raça germânica, só faltava demonstrar de onde ela veio. É claro que a Antropologia, devido às variáveis inconstantes das migrações e das, argh, miscigenações, jamais poderia emitir um veredicto justo para esta questão de origem, era necessário algo que deixasse rastros inevitáveis, que fosse a prova concreta de todos os movimentos migratórios, e, não seria óbvio?, era a lingüística história que forneceria a ferramenta indubitável e juízo decisivo.

Na penúltima década do século XVIII, antes mesmo de Herder, Napoleão, os revolucionários, e antes mesmo dos alemães se enxergarem como povo, quando Mozart estreava suas grandes óperas, um lord inglês (povo menor para os gobinistas, dada sua extrema miscigenação envolvendo quatro raças) voltava das Índias com uma surpreendente descoberta: era o sânscrito, uma língua antiga da Índia, aparentado com o latim e o grego, e presumiu que ambas as três descendiam de um ancestral comum, e assim finalizou seus estudos. Em não pouco tempo alguns pesquisadores descobriram que as línguas germânicas também eram aparentadas a essas línguas e aqui que nossos heróis retornam.

A febre lingüística começada com o mesmo Herder lá de cima e Alexander von Humboldt se tornou, depois da descoberta da lingüística histórica, a grande coqueluche alemã. Claro que havia o interesse intelectual, já que se trata de um assunto dos mais fascintantes, mas a possibilidade de se descobrir as raízes de uma civilização, principalmente levando-se em conta que a lingüística histórica é a mais precisa ferramenta de estudo do passado remoto humano, foi sem dúvida um fator sedutor.

Nos achamos em 1810, e começa a produção desenfreada. Um dos grandes pesquisadores é Jakob Grimm, não se assuste, é exatamente um dos irmãos Grimm, que, influenciado novamente pelo onipresente Herder, coletou inúmeras histórias infantis, folclóricas, do povo alemão. A ligação não poderia ser mais óbvia. E cada vez mais se descobrem povos diferentes: celtas, eslavos, iranianos, armênios, albaneses, todos eles pertenciam a esse braço lingüístico que, evidentemente (basta pensar na teoria de que a língua determina a cultura de ninguém menos que... Herder) fazia parte de uma cultura comum. E, talvez o que tenha os fascinado mais, os semitas não pertenciam a esse povo. Logo começaram a surgir teorias sobre esta misteriosa Atlântida científica que poderia, enfim, explicar como toda a grandeza do mundo derivava da raça germânica.

Vejamos se consigo ser eloqüente, como eles eram. O povo indo-europeu, ou indo-germânico, como os alemães preferem, teriam se originado de alguma região na Alemanha ou na Escandinávia e dali partido para a conquista mundial, ocuparam a Europa ocidental, a Grécia, e desceram até o Irã e a Índia, conquistaram estes povos e, onde a colonização foi mais eficiente (Grécia) ou onde eles se isolaram em castas (no sul da Ásia) eles deixaram a mais forte presença cultural, como vemos nas grande obras gregas: Homero, Platão; Iranianas: o Avesta, Dario; e Indianas: as grandes obras épicas, o Mahabharata e o Ramayana. Esses povos, os "Aryas" (derivados do nome da casta indiana dos guerreiros), se destacavam pela sua força e valor guerreiro, por dominarem o cavalo e por não praticarem a fraqueza da fixação no solo e da agricultura, sendo assim predestinados ao domínio, uma raça de super-homens (digamos que Nietzsche não poderia ter um linguajar mais próximo). Mas infelizmente, modernamente, o valor dos antigos Aryas só subsistia na terra de origem, pois na Índia sua força se dissipara pela miscigenação e na Grécia, bem, agora finalmente chegamos ao assunto.

Até a independêcia, os gregos não se chamavam de Hellenes, como na época de Platão, eles se chamavam, como os bizantinos, de Romaioi, "romanos". Após a guerra de independência, muitos observadores europeus elogiaram a bravura daqueles gregos que mostrariam a descendência de Aquiles, Leônidas, Alcibíades, e outros bravos gregos. Eis que surge nosso homem: Jakob Phillip Fallmerayer, um viajante e historiador alemão, se levantou ex cathedra de um Liceu escondido no meio da Alemanha e muito pomposamente declarou não restar uma gota do sangue puro dos gregos antigos, que seria, evidentemente, o portador de toda a grande civilização já vista na história da humanidade. A raça helênica estava, então, há muito morta. Ele dizia isso baseado (acreditem) na fisionomia das estátuas antigas comparada com a fisionomia dos gregos contemporâneos, em alguns dados lingüísticos e em uma frase mal-interpretada de uma cronografia bizantina.

Ela teria acabado por volta do século IX, dada a invasão eslava na península, que teria feito com que toda ela fosse ocupada pelos eslavos, com esta etnia tendo prevalecido sobre os gregos. Os bizantinos do Bósforo, dada sua enorme miscigenação, jamais teriam sido gregos de verdade.

Os dados estavam evidentemente errados e a própria idéia dessa afirmativa soa-nos absurda, mas ela serve para fechar um círculo racista: não interessa que os objetivos de uns ou de outros não tenham sido, mas toda essas descobertas científicas serviram para embasar todos os “teóricos” da superioridade ariana (uma palavra por si só absurda para descrever europeus). Mas essa história, creio, pode nos ensinar muito, como o conceito de raça é equivocado de qualquer ponto de vista, ainda mais o de raça pura, como nós usamos a ciência para tentar demonstrar nossas crenças, e também de como os alemães, ao longo de todo o século XIX, procuraram um ancestral para mostrar sua grandeza. O racismo nasce da inveja e da “orfandade” nacional alemã: na falta de um passado glorioso, eles tentaram criá-lo. E assim que muitos dos importantes estudos lingüísticos, científicos e culturais tiveram grande impacto em nosso mundo.

Isso também nos ajuda a pensar sobre a maneira de inserção cultural. Os alemães, e, deixando um pouco o antigermanismo de lado, outros povos europeus, até hoje exigem que se compartilhe o "Sangue" nacional para ser considerado um cidadão. É notório o caso dos turcos de terceira geração que até hoje não são considerados cidadãos alemães, mesmo trabalhando e gerando dinheiro, cultura, informação, para este país. Voltando nos próprios gregos, que foram o grande modelo dos alemães naquele século (não é à toa que eles desprezaram tanto os romanos, coisa que até hoje se faz bastante), eles inicialmente tinham um conceito, digamos, político, de nacionalidade, era cidadão quem fosse nascido na cidade. Mas aí não se trata de um conceito nacional, mas simplesmente coletivo, um “metekhos” nascido em Corinto ou na Babilônia teria os mesmos direitos, em teoria. É apenas com a invasão Persa e com Demóstenes que surge algum arremedo de nacionalismo. Mas não é da época clássica que desejo falar, claramente é uma época que, na política, a Grécia ainda não havia atingido uma maturidade, esta veio no Helenismo. E o que então vemos no Helenismo? Vemos um mundo onde um camito do Egito ou um líbio, um habitante de Tiro, de Atenas, de Seleucia se considerando, e sendo, de fato, gregos. Nem mais os gregos da Grécia são “puros” e nem os do Egito “impuros”, em uma época que se estende até a dominação romana, a idéia de nacionalidade passa a ser mais uma noção de participação cultural: eu não preciso nascer na Grécia, eu não preciso ter pais gregos, eu preciso me sentir grego e isto me basta. Não é necessário nem mesmo participação no mesmo panteão.

Os romanos mesmo percorrem um caminho: de uma cidadania política, a uma nacional até chegar em uma participativa, e é significativo que no império bizantino bastava fluência em grego e a aceitação do Cristianismo Ortodoxo para ser considerado um cidadão do império. E foi toda essa época, especialmente a helenística, uma época de extraordinária produção cultural, científica e filosófica.

Posted by Bruno Hohenstaufen at 3:33 PM

julho 26, 2004

Estudos de estilo (3)

O Alexandre deu a idéia, e vou juntar com a sensacional corrida que emocionou o Brasil, criada pelo Ruy, e fazer esse post. A mesma história contada pela BiaBerna (para saber quem é esta figura, basta visitar o Canjicas:

Senhores ... senhores ... dêem-se alguns ares de sobriedade! Reparem no jogo ... jogar o jogo ... eu jogo, tu jogas, ele ...

I- Pois então, meu caro P., "...o cachorro que tinha três pernas...", mas assim não dá, caro barbeiro, temos que começar do começo e não jogar os dados assim de primeira, inestável e inestimável. É preciso contar a história desde o começo, para que seus leitores se adapetem à história.

"Três pernas", a física diz que para a manutenção de equilíbrio, o número mínimo e ideal (ouviu, caro barbeiro, mínimo e ideal!) de pontos de apoio é três, três! Daí podemos tirar que:

1-Três como o símbolo perfeito, da trindade incriada, como diria o grande ourives-poeta-pintor-maluco WB em seu poema - "Trindade é perfeita.

2-Três como símbolo da divisão estatal perfeita, segundo o Baron de Montesquieu (BdM). Daí, P., está me acompanhando?, vemos que não há tanta distância entre a religião e o estado, como poderíamos julgar.

3- Com a submissão do judiciário ao controle do executivo, nós estamos diante de uma forma de governo que não admitem estacionar na forma regular cristão-iluminista, e pretende criar um equilíbrio forçado. Como o cão que estava de pé, ao levantar a terceira caiu, e eis o que pode acontecer se não examinarmos com cautela essa nova proposta.

II- "...foi mijar..." (mijar. v.ch. do latim mingare), ô doutor Das Neves... Que grosseria, onde está a finesse e a educação aqui?

III-Vou citar um trecho relevante aqui:
"O seu grande objectivo passou a ser completar aquela que será a sua grande obra - O Espírito das Leis. Preenchendo uma etapa intermédia, escreveu e publicou em 1734 a Causa da Grandeza dos Romanos e da sua decadência, que não é mais do que um capítulo de apresentação do Espírito.

O Espírito das Leis foi publicado em 1748, em dois volumes, em Genebra, para evitar a censura, tornando-se um imenso sucesso, que a sua colocação no Index romano não beliscou. A sua preocupação foi ultrapassar as posições dos filósofos e utópicos que apresentavam as suas teorias em abstracto e sem nenhuma consideração pelas determinantes espaciais e temporais."
http://www.arqnet.pt/portal/biografias/montesquieu.html

IV- "...e caiu", acompanhe o raciocínio, P.
1-A queda acompanha a metáfora da existência humana, seja na Bíblia, na filosofia antiga ou no existêncialismo.
2-SARTRE mesmo (para não falar em HEIDEGGER) já falava na queda como metáfora da existência humana, numa eterna vertigem, náusea, de um mise-en-abîme.
3-Isso significa que você está dando valores humanos ao seu cachorro, caro Das Neves! Na mosca.
4-Vou te dar um dado fantástico: a biologia diz que há diferenças de apenas 50% de seu DNA em relação ao de uma banana, você entende isso? Isso significa que nós, humanos, macacos, cachorros e bananas, somos todos a mesma coisa-seres vivos

Posted by Bruno Hohenstaufen at 5:19 PM

Música para relaxamento

Como o Fogo Grego está sempre empenhado em cumprir sua função social e facilitar a vida de seus leitores, forneço agora uma lista de músicas que sem dúvida irão ajudá-lo(a) a relaxar, se concentrar nos estudos, no trabalho, enfim, a reencontrar a paz interior perdida nesses tempos tão difíceis:

1- Tuba Mirum do Requiem de Verdi
2- Les Noces de Stravinsky
3- A Floresta é jovem e cheia de vida do Luigi Nono
4- Et expecto ressurectionem mortuorum do Oliver Messiaen
5- Das Trinklied vom Jammer der Erde do Das Lied von der Erde de Mahler
6- Quarteto de cordas no. 5 de Bartók
7- Suíte Cita de Prokofiev
8- O Crepúsculo dos Deuses de "Starke Scheite schichtet mir dort" até o postilúdio final- de Wagner
9- A entrada de Clytemnestra na Elektra de Richard Strauss
10- Threnodie pour les victimes d'Hiroshima do Penderecki

Posted by Bruno Hohenstaufen at 1:08 PM

julho 25, 2004

Argentina 2(2) - Brasil 2(4)

Sobre tus mesas que nunca preguntan
lloré una tarde el primer desengaño,
nací a las penas,
bebí mis años,
y me entregué sin luchar.

Posted by Bruno Hohenstaufen at 7:42 PM

julho 24, 2004

De Hérmias, o Filósofo, o escárnio dos filósofos gregos

Esse texto é longo, mas é extremamente interessante, talvez eu use os comentários para fazer... comentários a ele. Fiz para uma matéria uns dois semestres para trás, o autor é um obscuro cristão do século II dC, e esta obra se insere nas questões da época sobre a relevância ou não da filosofia grega para o nascente cristianismo. Espero que gostem:

Paulo, o apóstolo bem-aventurado, escrevendo aos coríntios que habitavam a lacônia, na Hélade, declarou: “ó caros, a sabedoria deste mundo é loucura da parte de Deus”. Disse isso não irrefletidamente, pois me parece ela ter tido seu começo a partir da apostasia dos anjos. Por esta causa, os filósofos expõem opiniões um contra o outro que não são nem consoantes e nem semelhantes.

Pois uns diziam que a alma deles era fogo; outros, ar; outros, inteligência; outros movimento; outros, exalação; outros, força que flui dos astros; outros, números em movimento; outros, de água gerativa; outros, elemento sobre elemento; outros, harmonia; outros, sangue; outros, vento; outros, mônadas; e os antigos coisas contrárias. Quantos discursos sobre estas coisas, quantas argumentações, quantos discursos de sofistas que mais questionam do que descobrem a verdade!

Mas seja assim: dividem-se sobre a essência da alma, por outro lado em relação a outras de suas características, eles declaram em concordância; mas outros dizem o prazer da alma ser ruim, outros no meio do bom e do ruim; uns dizem sua natureza ser imortal, outros mortal, outros que permanece por pouco tempo, outros a bestificam, outros a dissolvem em átomos, outros dizem que ela encarna três vezes, outros limitam-na a períodos de três mil anos. E quem nem chega a viver cem anos, já anuncia sobre três mil anos por vir...

Como devemos chamar isto? Segundo me parece, fábula, loucura, mania, desacordo, ou tudo ao mesmo tempo. Se tivessem descoberto a verdade, concordes e unânimes, eu então alegremente estaria convencido, se eles se esquecessem da alma e tomando outro rumo a natureza a uma outra natureza, essência a uma outra essência, transformando matéria em matéria; confesso estar irritado com as idas e vindas dos assuntos. Agora sou imortal e me alegro com isso, agora me torno mortal e choro; neste instante estou dissolvido em átomos, me torno água, me torno ar, me torno fogo. Mas pouco depois nem ar, nem fogo, fazem-me besta, fazem-me peixe - então, depois, tenho como irmãos os golfinhos. Quando vejo a mim mesmo, o corpo e me assusta e não sei como o chamo: homem, cachorro, lobo, touro, ave, cobra, dragão ou quimera. Sou transformado em todas as bestas pelos filósofos, terrestres, aquáticos, multiformes, campestres, domésticos, mudos, racionais, falantes, irracionais, racionais. Nado, vôo, arrasto-me, corro, sento. E ainda Empédocles me transforma em árvore!

Tanto que, não sendo possível aos que filosofam encontrar unanimemente a alma, ainda menos eles podem declarar algo verdadeiro sobre os deuses ou sobre o mundo. Mas também têm coragem, para que eu não diga estupidez. Eles, que não conseguem encontrar sua própria alma, procuram a natureza de seus deuses e os que não enxergam seu próprio corpo, fuxicam a natureza do cosmo.

Eles se opõem firmemente em relação ao princípio da natureza. Quando Anaxágoras me encontra, ensina-me isto: o princípio de tudo é a inteligência e esta é causa e senhora de tudo e fornece ordem ao desarranjado, movimento ao imóvel, separação ao que está fundido e ordenação aos desordenados. Dizendo isto, Anaxágoras é meu amigo e sou convencido com o julgamento. Mas Melisso e Parmênides se opõem a isto. Parmênides com palavras poéticas relatou a essência ser o Uno e esse Uno sendo eterno, imóvel e semelhante a tudo. Por outro lado, então, neste argumento não sei como retornar.
Parmênides libertou Anaxágoras do meu julgamento. Depois seguirei a tê-lo imóvel, Anaxímenes, elevando, grita em resposta: “Mas eu te digo: o todo é ar e este é diminuindo e condensando, torna-se água e terra, e se rarefazendo e se dissolvendo, torna-se éter e fogo, e relaxando, volta a sua própria natureza, o ar.” E então, transformado nisto, amo Anaxímenes.

Empédocles se põe agitado na boca do Etna gritando: “Os princípios de tudo são o ódio e a amizade, uma ajunta e a outra separa; e a disputa entre elas constrói tudo.” Limita estas coisas em iguais e diferentes, finitas ou infinitas, eternas ou criadas. Bem, ó Empédocles, falo contigo até a cratera do fogo.

Mas sobre as outras coisas, Protágoras pondo-se diante de mim, afasta-me dizendo: o homem é a escolha e o fim das ações, e as coisas subordinadas aos sentidos são ações e as que não estão a ele subordinadas não existem nas formas das substâncias. Alegro-me, adulado por Protágoras, com este discurso, pois o todo, ou o principal é compartilhado com o homem.

Em seguida Tales me jura dizer a verdade ao estabelecer a água como começo de tudo. E, a partir dela tidas as coisas se formaram e nela todas as coisas hão de se dissolver e disse que a terra mora sobre a água. Com isso, certamente não fui convencido por Tales, o mais velho dos Jônios; mas seu conterrâneo, Anaximandro, disse o movimento eterno ser um princípio mais velho que a água e nele, por um lado, todas as coisas vêm a ser e nele todas as coisas perecem. E seja assim o crível Anaximandro.

E não tem muita estima Arquelau que diz os princípios de tudo serem o quente e o frio? Mas o grandiloqüente Platão não concorda com ele e diz os princípios serem deus, matéria e modelo. Ah, agora estou convencido, pois como não acreditar no filósofo que tem a carruagem de Zeus? Depois, seu aluno Aristóteles se apresenta rivalizando com o professor da carroça. Este limita como princípios o fazer e o sofrer. E o que faz não sofre, o éter, e o que sofre tem quatro qualidades: seco, molhado, quente e frio, nesta mudança de uma qualidade em outra, todas as coisas vêm a ser e perecem.

Estamos cansados e fomos levados de cima para baixo pelas opiniões. Mas vou descansar na doutrina de Aristóteles e não vou deixar-me mover por nenhuma outra doutrina. Mas a que eu devo assentir? Filósofos mais velhos tocam minha alma: Ferecides diz serem os princípios Zeus, Ctônia e Cronos: Zeus seria o éter, Ctônia a terra e Cronos o , tempo, daí o éter seria o agente, a terra a entidade passiva e o tempo aquilo onde tudo seria criado. Quantos ciúmes esses velhos têm um contra o outro! Leucipo acha tudo isso besteira e segue dizendo os princípios serem o ilimitado, o eterno movimento e o minimal, e as coisas compostas de partículas mínimas sobrem e forma o ar, as compostas de partes grandes descem e foram a terra e a água,

Até quanto estudarei estas coisas não aprendendo nada de verdadeiro? A menos que Demócrito me liberte do erro dizendo os princípios serem o Ser e o Não-Ser, o Ser sendo cheio e o Não-Ser vazio. O cheio no movimento e na volta ao vazio constrói tudo. Igualmente eu queria concordar com o bom Demócrito e queria rir com ele, se Heráclito não tivesse me convertido, chorando e dizendo: “O princípio de todas as coisas é o fogo, duas são suas afecções: porosidade e densidade, uma forma, outra é afetada, uma mistura, outra separa.” É o suficiente para mim e já estou embriagado com esses princípios.

Mas eis que me chama de volta Epicuro sem exceder a bela doutrina dos átomos e do vazio: pois pela sua união, em vários lugares e de várias formas todas as coisas surgem e acabam. Não discordo de ti, Epicuro, ó melhor dos homens, mas Cleantes, tentando levantar sua cabeça da cisterna, ri de sua opinião e pesca os princípios verdadeiros: deus e matéria, e a terra transforma-se em água, a água em ar, este é levado para cima; que o fogo se origina em torno da terra e que a alma vaga por todo o mundo, de que participamos em uma parte que nos anima.

De todas estas coisas, uma multidão me carrega da Líbia, Carnéades e Clitômaco e quantos dos seus discípulos que pisoteiam as teorias dos outros, e estes declarando em termos precisos tudo ser incompreensível e uma farsa, fantasia, sempre encobrindo a verdade. O que eu, miserável, hei de experimentar depois disso? Como vou compreender tantas opiniões? Pois se nada é compreensível, a verdade escapou dos homens a tão louvada filosofia é mais disputa que ciência das coisas.

Outros do grupo dos antigos, Pitágoras e seus consortes, veneráveis e taciturnos, transmitem-me ensinamentos como mistérios e diz o maior e mais secreto deles: “o princípio de tudo é a mônada e de suas formas e de seus números são feitos os seus elementos.” E demonstram o número, a forma e a medida de cada um: o fogo é composto por vinte e quatro triângulos de ângulo reto, contendo quatro eqüiláteros. Cada um dos eqüiláteros é composto por seis triângulos de ângulo reto de onde se assemelham a uma pirâmide. O ar é composto por quarenta e oito triângulos perfazendo oito triângulos eqüiláteros dos quais cada um se separa em seis de ângulo reto, da forma que são quarenta e oito no todo. A água é formada por cento e vinte triângulos, perfazendo vinte eqüiláteros, assemelhando-se a um icosaedro, o qual contém cento e vinte triângulos iguais e eqüiláteros. O éter é composto de doze pentágonos e é semelhante ao dodecaedro. A terra é composta por quarenta e oito triângulos perfazendo seis quadrados, é semelhante, pois, ao cubo. Este é feito de seis quadrados que são separados em oito triângulos, de modo em que tudo é feito de quarenta e oito triângulos.

Pitágoras mede o mundo. Eu, tornando-me inspirado por ele, desdenho minha casa, minha pátria, minha mulher e meus filhos, tudo isso não mais me preocupa. Escalo eu mesmo o éter e levando o esquadro ao modo de Pitágoras começo a medir o fogo. Pois Zeus medindo não é suficiente. A menos que eu, o grande animal, o grande corpo, a grande alma suba ao céu e meça o éter, o reinado de Zeus acaba. Depois que eu tiver medido e Zeus aprender de mim quantas medidas o fogo tem, então descerei do céu e comendo azeitonas, figos e legumes, vou-me o mais rápido à água e com cotovelos, dedos e semi-dedos meço a substância aquática e sua profundidade, a fim de que eu ensine a Posídon de quanto mar ele é senhor. Ando em volta de toda a terra em um dia reunindo seus números, medidas e formas. Pois estou convencido de que sendo do jeito que sou, experiente, não errarei sequer um centímetro. Sei também o número dos astros dos peixes e das feras, colocando o mundo tranqüilamente numa balança para poder conhecê-lo.

Minha alma até agora se ocupou disto, governar sobre tudo. Chegando perto de mim, Epicuro diz: “você mediu apenas um mundo, ó caro, mas existem muitos e infinitos mundos.” Destarte, sou forçado a medir outros céus, outros éteres muitas vezes. Vamos, sem demora, nos preparando em poucos dias para viajar aos mundos de Epicuro. Os limites, Tétis e Oceano, transporei facilmente. Saindo em direção ao novo mundo, como a uma outra cidade, meço tudo em poucos dias. E de lá irei ao terceiro mundo, e depois ao quarto, ao quinto, ao sexto, ao centésimo, ao milésimo, e até onde? Pois a partir daí todas as coisas são ignorância em relação a tudo, negra fraude, erro sem limite, fantasia sem fim e intangível loucura. A menos que eu resolva contar seus átomos de onde estes mundos nasceram a fim de que nada reste sem ter sido examinado, especialmente aquelas coisas necessárias e úteis, a partir das quais a cidade e a casa prosperam.

Estas coisas eu examinei querendo mostrar aquilo que é contraditório em suas doutrinas e como avançam ao ilimitado e ao indefinido. A finalidade da filosofia é inexplicável e inútil, não tendo sido comprovada claramente nem com trabalhos, nem com evidências, nem com discursos.

Posted by Bruno Hohenstaufen at 5:52 PM

Exercícios de estilo (2)

Agora é Dante, no inferno:

Così di ponto in ponto, altro parlando
che la mia comedía cantar non cura
venimmo, e tenavamo'l colmo quando

restammo per verder l'infausto cane
chi cadeva, per urinare sforzando
poichè solo gli restavano tre gambe

l'altra s'aveva perduta, quest'era
l'eterna pena. "Lui era capitane"
Parlò'l mio mestre. "Ed oggi dana

Nelle eterne ombre". Ed a me il cane:
"Au au au au au au au au au au au"
Mentre che le spirto questo disse,

Ancora piangëa, sí che di pietade
io venni men così com'io morisse
E caddi come corpo morto cade

E assim de ponto em ponto, mais falando
do que cantar minha comédia cura
chegamos, e tinhamos o tompo quando

restamos para ver o infausto cão
que, se esforçando para urinar, caía
pois só lhe restavam três pernas

A outra se havia perdido. E esta era
a eterna pena. "ele era capitão"
Disse meu mestre. "E hoje dana

nas eternas sombras". E a mim o cão:
"au au au au au au au au au au au"
Enquanto aquele espírito disse isso

Ainda chorava, e como de piedade
me esvaí como se eu morresse,
E caiu como um corpo morto cai.

Posted by Bruno Hohenstaufen at 3:46 PM

julho 23, 2004

Exercícios de estilo

Para entender este post é necessário ler isto, isto, e isto.

Virgílio (metrificado, podem conferir):
Canem tricuremque cano ad postem primus qui
Inuenit fato profugus, mictum iit, caedit
Tum scelesta ira deae, facta voluntas fuit
Musa, mihi causas memora, quo numine laeso
Quidue dolens Regina deum tot volvere casus
Insignem pietate canem?

Tradução do Odorico Mendes:

O cachorro de três pernas canto, que ao poste
Fato prófugo chegou primeiro para ir mijar, caiu
Então, pela celesta ira da deusa, feita foi a vontade
Musa, as causas me aponta, o offenso nume,
Ou por que mágoa a soberana déa
Compelliu na piedade o cão famoso

Homero (nem ousei metrificar, se algém tiver tempo e conhecimento de causa..):
Κύνα μοί εννεπε Μούσα τρις εχονα ποδας ός μαλα πολλα
Πλαγχθη πιπτων έις την γην κατα ψήλον
Διος δ’ετελειτο βουλη εξ ου δη τον προτον
Ποδα άφήκε της λετους ύιος Аπολλων εκηβολος

Tradução do Haroldão:

O Cão celebra, ó Musa, tendo três pés, e que muitos males
Padeceu, decaindo à terra do alto
Fez-se a lei de Zeus, desde que o primeiro
Pé, lançou, o de Leto filho, Apolo flechicerteiro

Posted by Bruno Hohenstaufen at 9:53 PM

Pesni i pljaski smerti

No momento ouço Musorgski:

,,Кончена битва! я всех победила!
Все предо мной вы смирились, бойцы!
Жизнь вас поссорила, я помирила!
Дружно вставайте на смотр, мертвецы!
Маршем торжественным мимо пройдите,
Войско моё я хочу сосчитать;
В землю потом свои кости сложите,
Сладко от жизни в земле отдыхать!
Годы незримо пройдут за годами,
В людях исчезнет и память о вас.
Я не забуду и громко над вами
Пир буду править в полуночный час!
Пляской тяжёлою землю сырую
Я притопчу, чтобы сень гробовую
Кости покинуть вовек не могли,
Чтоб никогда вам не встать из земли!``

"Cease now the fight! The victory is mine!
You warriors all, it is to Death you have yielded!
Foes in your lifetime, I come to make you friends!
Rise up, reply to the roll-call of Death!
Fall into my rank! You must march past your leader!
Before the day dawns I must muster my men.
Soldiers, your bones shall repose in the earth's bosom,
Sweet is the slumber that follows the fight!
Years shall pass over you unreckoned, unheeded,
Men shall forget what you fought for today.
I, Death alone, will remember your valor,
Honor your memory when midnight is struck!
Over these furrows I'll dance in the moonlight
Tread down the earth where your limbs lie at rest,
Tread it so closely, your bones shall never move,
Never more shall you come back to earth."

Mais tarde eu falo mais do maior compositor eslavo do século XIX.

Posted by Bruno Hohenstaufen at 7:32 PM

julho 22, 2004

E Goscinny estava certo

"Também vieram alguns celtas estabelecidos no golfo da Jônia. Os Celtas eram altos e fortes, mas desejavam a amizade de Alexandre, e este deu e recebeu as devidas certezas. Perguntou então aos Celtas qual das criaturas mortais eles mais termiam, esperando que seu grande nome tenha alcançado terras tão ou mais distantes quanto a dos Celtas, e que eles iriam dizer que o temiam acima de todas as coisas. A resposta, entretanto, foi diferente do que ele esperava, por viver em uma terra distante de Alexandre, e vendo que ele tencionava invadir outros lugares, eles responderam que seu maior medo era de que o céu caia sobre as nossas cabeças"

ARRIANO, Anábase de Alexandre, I, IV

Posted by Bruno Hohenstaufen at 6:31 PM

Cinismo

Eu traduzi alguns fragmentos do Sudas, Diógenes Laércio e outras fontes, sobre a vida dos filósofos cínicos. Como todos devem saber, a filosofia cínica foi uma das muitas filosofias "práticas" surgidas durante o helenismo, mas, ao contrário das outras não logrou construir, ou ao menos legar, um sistema filosófico mais apurado e abstrato. Sabe-se que vários filósofos cínicos chegaram a escrever várias obras, temos notícias até de uma República escrita por Diógenes, mas não temos muita notícia sobre seu conteúdo teórico. Mas o que torna os cínicos fascinantes é que mesmo ridicularizados freqüentemente, alguns de seus valores éticos acabaram sobrevivendo e podemos encontrar, até hoje, traços cínicos nas mais diversas doutrinas éticas que existem. Seja no estoicismo, no cristianismo e mesmo em algo da ética moderna, podemos encontrar uma influência cínica.

Por ser uma doutrina, talvez, unicamente ética, o valor dos exemplos e das vidas contadas nas biografias tem um valor muito mais alto que as anedotas sobre Heráclito ou Pitágoras, até porque nota-se nesses fragmentos que os exemplos de vida faziam parte dos ensinamentos cínicos. Além disso é através deles que sabemos quem eram os cínicos, e o básico de seus valores:

"Por isto dizia Diógenes que:
-Desde que Antístenes me libertou, nunca mais servi a ninguém.
-Como você se libertou?
-Escuta o que eu digo: ele me ensinou as coias que são minhas, e as que não são. As posses não são minhas. Os parentes, a família, os amigos, a fama, as relações, lugares, diatribe, tudo isso me é alheio.
-Então o que é seu?
-O uso das fantasias"
(Epicteto, discursos, livro 3- 14)

Posted by Bruno Hohenstaufen at 2:55 PM

Kátharsis

Eu me mandei do Iorgut.

Nas justificativas pela minha auto-exclusão, coloquei: "too many brazilians".

Nada que Groucho Marx não explique.

Posted by Bruno Hohenstaufen at 12:15 AM

julho 21, 2004

Philosophóteron kai spoudaioteron poíesis historias estin.

graças.jpg

Hoje em dia é comum encontrarmos comentários sobre a "cultura" de hoje (um termo de certa imprecisão, uma vez que a única característica dos tempos modernos é a diversidade) dizendo ela ser extremamente visual, e que, de certo modo, isso foi causado pelo cinema e que por isso há um certo desprezo por outras formas de arte que não sejam imediatistas como as visuais, especificamente a literatura e a música. Não se trata, porém, de uma característica exclusiva dos tempos modernos, antes fosse, mas talvez do próprio gênero humano. Aristóteles mesmo, no início do livro mais importante da história da filosofia já comenta: "e amam, mais que todos os outros, o prazer da visão", e não creio que o Estagirita esteja enganado nesse ponto, na verdade, ele quase nunca o está.

Para quem conhece minimamente a cultura grega é um fato assumido a paixão que eles têm pela visão, isso pode ser tanto visto em sua língua, uma vez que o verbo "conhecer" (oída) é derivado do perfeito do verbo ver (oráo), isso significa que conhecer, em um sentido arcaico tinha a noção de "ter visto", quanto em sua cultura e literatura. E, nesta, o "visualismo" está presente em vários modos e escalas, seja através de uma tradição de descrições extremamente rebuscadas e visuais, e Homero é um exemplo perfeito - basta ler os bons versos da descrição do escudo de Aquiles na Ilíada -, quanto na própria realização como um meio visual (e não há palavra melhor para designar isto do que espetacular), no teatro (palavra derivada de theaomai, "contemplar").

Este visualismo e amor à visão aparecem tão fortemente que uma de suas marcas mais fortes, e mais importantes, se encontra na teoria estética clássica de Platão e Aristóteles. A literatura, pois falamos principalmente de poéticas, seja do livro mesmo de Aristóteles ou dos comentários de Platão, e toda a arte são descritas e pensadas através de categorias que são puramente visuais, que é a mimese, ou imitação, simulação. Talvez essa seja uma razão de que as artes que hoje chamamos de artes plásticas, não tenham necessitado de tanta teorização quanto a literatura e mesmo a música. Como a arte se tratava de mimese, a pintura, que seria a simulação de corpos e formas, não teria nenhum outro motivo a não ser estético, seu objetivo seria simples: o prazer dos sentidos. Já a literatura, com a arte sendo enxergada desse ponto mimético, como uma imitação de caracteres humanos, acaba adentrando em um campo que não é unicamente estético, mas também ético e mesmo político, daí a necessidade tão grande de teorizar o papel da literatura e mesmo de normatizá-lo.

O importante, e aqui quero me afastar da já desgastada discussão em torno das poéticas clássicas, é que a pintura e a escultura se afiguram como as artes paradigmáticas da cultura grega. E uso paradigmático como exemplar mesmo, vide as várias vezes em que Aristóteles se vale de analogias do poeta com o pintor na Poética. O nó de tudo isso é que nosso conhecimento da pintura grega é limitado e mesmo pouco representativo. Só temos poucos exemplos, uma quantidade avassaladora de vasos pintados e um número assustadoramente pequeno de exemplares de pintura funerária; da chamada pintura monumental, talvez a única que hoje em dia chamemos de arte, restam somente as imitações romanas em Pompéia, que, em vários sentidos, e disse falarei depois, são o mais fiel e representativo exemplar da pintura grega.

De fato,, é uma perda importante para a própria compreensão do conjunto cultural grego, mas evidente que nosso conhecimento não se mostra errôneo com isso, apenas incompleto. A perda artística causada por estas chefs-d’oeuvre inconnues, pode ser apenas mensurado pela febre classicista gerada pela descoberta das pinturas de Pompéia e Herculano.

Do restante, há uma desproporção entre os tipos de pintura restante, para cada exemplar de pintura fúnebre, ou mesmo de mosaicos, deve haver centenas, até milhares, de vasos gregos, em vários estilos e maneiras, geométricos, arcaicos, figuras negras, etc, para cada exemplar de um outro tipo de pintura qualquer. Uma das conseqüências mais interessantes desse fato é que muitos cursos de história da arte acabam apresentando a arte grega como a pintura vascular, o que é apenas uma fração, e não a fração mais importante da pintura grega.

Sim, os vasos tinham uma função importante na vida doméstica grega, seja no armazenamento de mantimentos, como na função social (no início de cada banquete –o simpósio do Platão - o vinho era misturado com água em uma oinocoé e era um ritual importante), ou mesmo religiosa (ritos fúnebres, libações etc), mas acabavam a uma certa distância da importância e do valor dado à pintura decorativa ou à pintura monumental, por vários fatores: visibilidade, liberdade criativa, entre muitos outros.

Por isso que os raros exemplos de pintura fúnebre, decorativa ou monumental, são tão importantes para termos uma idéia da grande pintura ática. E, dentre todos estes registros, o mais importante, ou pelo menos o mais próximo, são as pinturas encontradas na cidade de Pesto, antiga colônia dórica. E o exemplo mais perfeito e acabado é a famosa tumba do mergulhador:

tuffatore1.jpg

Na época de sua descoberta, foi alardeada como a grande pintura grega, mas certamente não é: trata-se de uma pintura de uma região razoavelmente afastada dos grandes centros (mesmo os da Itália, que eram Taranto e Region- atual Reggio di Calabria), e, pelas circunstâncias, talvez esteja relacionada, também, a rituais e a culturas que nem gregas são Aliás, há paralelos desconcertantes entre estas pinturas e a decoração fúnebre etrusca, demonstrando um forte intercâmbio cultural, muito comum naquela região.

O outro exemplo de pintura “grega”, são os exemplares achados nas cidades vesuvianas de Stabia, Oplontis e principalmente Herculano e Pompéia, salvos graças à grande erupção do Vesúvio em 79 d.C. Aqui não se trata de uma arte feita para gregos, embora talvez alguns de seus pintores tenham sido escravos gregos, é uma arte latina. Porém, estamos, na maior parte vendo imitações ou desenvolvimentos das grandes pinturas gregas, se tornando, portanto, o mais precioso registro do auge da arte clássica. Pode não ter a mesma perfeição técnica das obras primas de Roma, ou da Ática, ou mesmo exagerar um ou outro ponto, mas não duvido, que, no geral, estamos vendo o mesmo estilo e os mesmos gêneros da grande pintura clássica (o problema, na verdade, não é o fato de ser na Itália ou feita por latinos, o problema é se tratar do Helenismo, e da mudança de gosto por ele gerada). E, não posso me furtar a esse comentário, o que nós conhecemos, já é bastante impressionante.

flora.jpg

Pelo que dá para ver podemos confirmar as premissas filosóficas: sim, é uma arte mimética e naturalista, de características bastante próximas às da escultura: o grande interesse pelos corpos, a busca de uma naturalidade de expressão, e uma certa desproporção entre o destaque dado aos corpos, sejam humanos, ou sejam animais, e à paisagem, bastante menos desenvolvida. E não se trata exatamente de um descuido técnico, até durante a época helenística houve grandes e importantes estudos de perspectiva, mas de um interesse centrado na figura tema do quadro, o resto serve apenas de moldura para o tema central.

O interessante de tudo isto é que os gregos gostavam de pintar e enfeitar com cenas e figuras, quase tudo que eles tinham, de pentes e copos à casas, não existia nada em branco, que era considerado feio e insosso. O interesse era manter os olhos ocupados o tempo todo, de preferência com coisas agradáveis. Um grego certamente adoraria uma visita à Times Square hoje em dia, o que mostra que somos hoje é muito gregos.

Posted by Bruno Hohenstaufen at 4:53 PM

julho 20, 2004

700

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A 20 de julho de 1304 nascia em Arezzo aquele que viria a ser o maior poeta dos tempos modernos, Francesco Petrarca. Longe de ficar gastando meu latim em discussões meio malucas sobre se Petrarca era Renascentista ou Medieval (Carpeaux joga no lixo algumas páginas de sua "história da literatura" nessa discussão nonsense), cabe dizer que Petrarca foi um gênio em si, dos mais importantes e dos mais diversos (o que talvez torne pertinente ma caracterização como renascentista, mas isso não agrega nada de valor): poeta, filósofo, teólogo, gramático, estilista em italiano, estilista em latim, numismata, copista, editor e precursor do Tour de France, Petrarca foi um homem complexo, às vezes contraditório e extremamente importante na história da literatura e mesmo do pensamento ocidental.

É evidente que este blog não pretende, nem mesmo é capaz, de tentar definir o que significa Petrarca para a História. A personalidade dos homens, ainda mais dos grandes, é mais recheada de contradições do que o que normalmente é licito apresentar. Não restam dúvidas, porém, de que suas grandes contribuições estão na poesia e a na filosofia. Comecemos por esta última, por ser menos, digamos, conteudística, e mais espiritual.

Mais do que um mero pensador, o Petrarca filósofo, foi um grande filólogo, talvez poucas outras pessoas tenham sido tão importantes para o desenvolvimento de uma cultura de belas letras. Cabe a ele, por exemplo, a descoberta de um manuscrito contendo as epístolas de Cícero, e com isso iniciou, ou ao menos contribuiu, toda uma era de descobertas de manuscritos e textos antigos, que proporcionou o último grande ciclo científico filosófico da idade média, aquele que geraria dentre outros, personalidades como Erasmo. Além disso, a briga de Petrarca contra os "dialéticos", e sua exortação em favor da volta aos antigos padres (Santo Agostinho, principalmente) e mesmo aos antigos filósofos (leia-se Platão e Plutarco), é um dos fatores que contribuiriam para o surgimento do que chamamos de Renascimento.

Por último resta comentar algo do Petrarca poeta. Muito foi dito sobre isto, algumas bobagens aqui, algumas coisas corretas ali. Mas o que é importante, talvez, de se pensar, é que a obra poética de Petrarca é indissociável do resto de seus escritos, e que mesmo que algo pareça destoar, o que o comanda é o amor ao passado e a tendência à eufonia. Sim, por muito que se fale, Petrarca foi um grande conhecedor de poesia, tanto antiga, quanto recente, e muito de seu talento daí reside: na reunião, harmonia de todo esse manancial poético, acrescentado ao seu talento poético excepcional. Uma mistura de Cícero, Virgílio e Horácio, com os Trovadores (de quem ele foi um dos grandes conhecedores), o Dolce Stil Nuovo e sua filosofia particular.

Talvez nenhum outro poeta tenha tido um arsenal poético de imagens, comparações e metáforas tão rico e sutil, nenhum outro conseguia compor quadros de maneira tão precisa, e nenhum outro poeta teve uma melodia tão característica, tão bela e tão imitada. E claro, o canzoniere de Petrarca é um vasto e variado manancial da mais pura e perfeita poesia lírica jamais escrita.

Talvez depois eu encontre tempo para falar mais deste grande poeta, mas por hoje basta um de seus mais belos sonetos:

L'aura che'l verde Lauro e l'aureo crine
soavemente sospirando move,
fa con sue viste leggiadrette e nove
l'anime da lor corpi pellegrine.

Candida rosa nata in dure spine,
quando fia chi sua pari al mondo trove,
gloria di nostre etade? O vivo Giove,
manda, prego, il mio in prima che'l suo fine.

Sì ch'io non veggia il gran pubblico danno
e 'l mondo rimaner senz'il suo sole,
né gl'occhi miei, che luce altra non hanno,

né l'alma, che pensar d'altro non vole,
né l'orecchi, ch'udir d'altro non sanno
senza l'oneste sue dolci parole.

Posted by Bruno Hohenstaufen at 12:40 PM

julho 15, 2004

A propósito

O único Neruda de que gosto é o Jan.

Posted by Bruno Hohenstaufen at 6:01 PM

uma longa convulsão pretensiosa e banal de Goethe

Não foi má-vontade - peguei o livro com sagacidade . Juro que tentei conter minha fácil irritabilidade . Mas logo nas primeiras páginas constatei que os livros desequilibrados de Goethe jogavam a trama num clichê Romantismo sem precedentes. Fausto é tão atraente quanto o joelho do Ronaldo . A obra se vale da estupidez do leitor, que só consegue chegar ileso ao final da história se acreditar que o Freddy Mercury é macho
Mas vamos nos interessar numa análise detalhada: os personagens, por exemplo parecem ter saído de um Homero distorcido chegado a um alemão daqueles, que nada faz a não ser contemplar o nada . A história é, do começo ao fim, uma longa convulsão pretensiosa e banal - e o desfecho, até para os corações mais bondosos, não passa de bobagem . Mesmo quando remete a Platão , o livro o faz de forma medíocre. Goethe faz parecer que um Polzonoff escreve. E, ao mesmo tempo, faz Oscar Wilde rolar no túmulo.
Não há formas de ser condescendente: a crise que a personagem principal exala deixa um perfume imbecil em todas as páginas compondo um muro de obtusidade que macula de forma grotesca qualquer forma de literatura.
Conselho: se você encontrar Fausto nas prateleiras, não hesite, fuja.

Posted by Bruno Hohenstaufen at 4:48 PM

julho 14, 2004

Magnificat anima mea

Acho muito interessante a maneira sutil como o senhor Júlio Daio Borges caracterizou meus confrades de portal no seu playground, somos ruins e somos nefandos porque crêem em uma Força Primeira (apud Aristotelem), e por comungarem aos domingos (uns bebem o vinho, outros não). E sim, pobres de nós, somos discípulos do Olavão, de segunda extração; ao que parece, além de neocons somos condenados a não darmos bons azeites de mesa, o que é uma pena.

Tentaram me evitar de escrever esse post, pois ele seria perigoso, iria aumentar as animosidades, não era para eu me envolver com isso, uma vez que sou apenas um enteado, recém-chegado e pouco lido, dentre outras coisas. Mas não dei ouvidos a eles, tu sai come sono le famiglie siciliane?

Quanto a mim, não sou uma olavete, nem nunca o li: não guardo o costume de ler livros de autores que nasceram depois de 1800, você sabe né, esse negócio de modernismo, revisionismo, pode pegar e eu prefiro evitar o contato direto. Com exceção das notícias de jonais sobre o Fluminense, que são a melhor literatura escrita em língua portuguesa desde Eça de Queirós. Talvez sejamos olavetes por sermos conservadores, embora concorde com a opinião do dono do bar de que não há muita coisa que restou para ser conservada, pelo menos dos últimos 200 anos, já que desconstruíram tudo.

Sim, reacionários, talvez, por ser alguém que vê a teoria da evolução (quando aplicada fora de seu lugar de direito, ou seja, a Marquês de Sapucaí) com algumas restrições e deseja recuperar algo do antigo aere perennius, sim, isso me aproxima, segundo dizem, do Olavão. Mas creio que nenhum homo bonae voluntatis iria se queixar disso, a menos que se regozije na akosmía contemporânea, pois negá-la só conseguem depois de muitos psicotrópicos. Fora isto, qualquer outra aproximação possível é reducionista e burra, pois é incapaz de perceber a diferença entre um conservador, um liberal e um neocon alucinado.

E nem desejo acabar com tudo dos modernos, há coisa boas que devem ser mantidas, como os filmes do F.W. Murnau, a obra completa do Janáček e os vídeos da Máquina Tricolor, coisas que certamente engrandeceram a experiência humana. Não sei quanto aos outros, mas nem conservador e nem reacionário, sou apenas um classicista com tudo que está associado a isto.

Posted by Bruno Hohenstaufen at 9:56 PM

julho 4, 2004

NIKH

nike_samothrace.jpg

Bem, as forças ocultas andam me impedindo de postar muito por aqui. Mas de qualquer jeito tenho que manter o blog funcionando, ainda mais com a interessante propaganda proporcionada pela Eurocopa. Aliás, o fato de os gregos terem sido tomados como azarões mostra a grande falta de cultura dos cronistas esportivos em geral. Por exemplo, eles elogiaram a grande disciplina dos jogadores gregos, isso, para quem já leu a Guerra do Peloponeso do Tucídides, não é nenhuma novidade. Nós podemos ver até hoje como os outros impérios preferem o luxo e o domínio de um só rei (ou jogador), ao passo que os gregos (ou sua maioria) preferem o trabalho de todo o grupo, e desde Sólon evitando celebrações exageradas em torno das desgraças e conquistas. Também elogiam a bravura dos gregos, o que também já era óbvio com quem quer que tivesse lido a História de Heródoto, especialmente os livros VIII e IX.

Mas o que mais me espanta é acharem surpreendente a capacidade defensiva dos gregos, até parece, para quem resistiu a Xerxes e à maior invasão da história da humanidade (até a invasão de Napoleão à Rússia, mais de 2000 anos mais tarde), ou então enfrentou sucessivamente ataques de adversários fortíssimos, turcos, búlgaros, hunos, godos, árabes, por quase um milênio, só vindo a cair quando estavam em proporção muito menor que a do exército que os atacava, enfim, para quem resistiu bravamente a tudo isso, segurar um Figo ou um Deco não é, afinal de contas, nenhum trabalho de Hércules. Isso apenas mostra que os cronistas esportivos e jogadores dos outros selecionados não leram a célebre afirmativa de Tucídides, a respeito de sua história:

"A todos que quiserem examinar as coisas acontecidas claramente, e o que, por ventura, pode ser semelhante ou igual no futuro"

Posted by Bruno Hohenstaufen at 6:33 PM