A temporada 2005 do Fogo Grego (© 2004-5 Bruno Hohenstaufen. All rights reserved) começa hoje com um novo formato, novos posts e qualidade (?) de sempre.
Take your seats.
Blute nur, du liebes Herz!
Ach! ein Kind, das du erzogen,
Das an deiner Brust gesogen,
Droht den Pfleger zu ermorden,
Denn es ist zur Schlange worden.
Não preciso comentar, só é um trecho da maior música de todos os tempos...
E quem discordar é a mulher do padre.
Deu há pouco na televisão:
-Mas senhor, senhor, por que as previsões a respeito da cotação do dólar erraram tanto?
-Porque é um chute.
Apesar de não disperdiçar um bom Chardonnay e, como bom wunderblogger, saber exatamente a hora e a companhia para tomar Merlot ou Pinot, ultimamente eu venho apreciando cada vez mais os sabores das Furmint e Somlói, junto com uma leitura de Ausiàs March ou di Cavalcanti.
Foi em uma grande livraria em Nápoles que encontrei um livro com as obras de um poeta catalão do século XV, a grande curiosidade que este achado me trouxe, e meu interesse característico pela idade média me compeliram a comprar o volume. Depois de algum tempo li e achei um poeta digno de um retorno quando eu tivesse mais tempo, neste feriado o tinha e resolvi ler suas páginas, o que li me motivou para postar algo sobre este poeta.
Um dia apenas de leitura já me bastou para ser convencido que as palavras elogiosas da contracapa estavam corretas: Ausiàs March é o maior escritor da literatura catalã e mesmo o maior poeta do século XIV europeu - por mais que o lobby de Villon resmungue e faça cara de desgostoso, não há comparação entre os dois poetas. Ainda que o parisiense possa ser hoje mais reconhecido e lido, isso se deve mais a um fator contingencial - o declínio da cultura catalã depois de sua União com Castela e a difusão do francês ao longo da idade moderna.
Afinal, se hoje podemos afirmar seguros que a França é um país e uma cultra muito mais abrangentes do que a cultura catalã, certamente isso não era uma afirmação tão fácil de ser feita no quatrocento, o século de March. Os Catalães se viam, e também eram vistos, como legítimos herdeiros e donos da tradição trovadorística, o movimento literário medieval mais rico e influent. A primeira razão, e nosso poeta é um dos primeiros a mostrar uma certa separação disso, é que até então não há uma clara distinção entre o que seria a Catalunha e o que seria o Languedoc, além de línguas próximas - e na idade média certamente havia intelegibilidade mútua- a forte ligação política entre sul da França e o Reino de Aragão aproximavam a inda mais as duas regiões: durante o final do século XII, quase todo o sul da França se encontrava sobre controle catalão, Provença, Rosselló, Tolosa, Montpellier, Bearna (estou dando os nomes catalães/provençais, que se diferem um pouco dos franceses). E a outra razão é que a corte Aragonesa sempre acolheu cordialmente os trovadores, a ponto de um de seus reis, Alfons II, ser chamado de "El trobador".
Tudo isso torna a literatura catalã pelos próximos dois séculos indistinta da literatura provençal, língua a qual se tornou a manifestação literária única do país.
E Ausiàs March pode muito bem ser chamado de um Trovador, e também o primeiro da longa série de "últimos trovadores". É o primeiro, decerto, a escrever no seu dialeto natal, mas sua língua não está ausente dos provençalismos. Ele mesmo se confunde e chama sua língua, um registro que se aproxima mais do valenciano do que de qualquer dialeto occitano, de llemosí. Também, depois de dois séculos em que a poesia catalã é exclusivamente provençalista (até mesmo Ramón Llull, um grande estilista do catalão, escreve seus poemas em provençal), essas marcas permanecem - como comparação, o português, que teve uma fase de intensa influência do latim (diria refluência), tem até hoje estruturas sintáticas latinizantes, como ablativos absolutos.
Porém, mais importante do que o dialeto usado por March, é seu conjunto de temas, todo advindo da poesia occitana: o deleite, o amor recusado, o desejo de amor, a loucura do amor; o tratamento deste conjunto, entretanto, se diferencia enormemente do lugar-comum trovadoresco. Longe dos fogos de artifícios das invenções sonoras de um Arnaut Daniel, ou da clareza primaveril de Bernard de Ventadorn, ou dos jogos de palavras do Trobar clus, March vai mudar de forma decisiva essa poética, pelo uso fortíssimo da antítese, não pelo deleite do jogo conceitual, mas sim pela introdução de um tema não muito existente entre os trovadores, mas algo caracteristicamente novo e contemporâneo: a morte e a decepção com um mundo corrupto e imoral. É a partir do choque entre um mundo idealizado e um mundo baixo que se forma a poesia de March, e ele mesmo nos informa isso:
Mon car senyor, tot hom cerca delits
segons cascú sa qualitat requer,
mas a present la dona y lo diner
són los déus dos en lo món favorits
Meu caro senhor, todo homem procura deleites
cada um segundo sua qualidade requer
mas hoje em dia a mulher e o dinheiro
são os dois deuses preferidos no mundo
É exatamente deste conflito entre valores idealizados e ações vis que surge a noção e formulação característica de sua poesia: a de que na realidade o bom e o vil estão misturados e que, apesar de identificáveis, não são separáveis e fazem parte da própria natureza humana:
Quant de amor, indiferent, yo parle
sia entés lo que tot l'ome liga
e no aquell qui sols a l'àngel toca,
e menys als bruts, puix de rahó freturen.
Aquest és dit amor de home propi
car é copost de ses dues natures;
bell és e leig, segons de qual més toca
mas no pot fer que reste menys de mescla
Quando falo indiferentemente de amor
que seja então o que liga todo homem
e não aquele qui só ao anjo toca
e nem o dos brutos, porque privam de razão.
Este é chamado amor próprio do homem
pois é composto de suas duas naturezas
é belo e feio, da qual mais participa da segunda
mas não se pode fazer sem que reste uma mistura.
Essa mistura de bom com vil, ou feio, é o tema característico de March, ele está bem consciente de um estado humano que não consegue se separar do corpo, mas que ao mesmo tempo participa de uma profunda dignidade. Também sabe March, por própria experiência, que os simples prazeres carnais não conseguem lhe proporcionar a felicidade que almeja, embora ele deseje o amor Petrarquiano, puro e sublimado, pela sua aparente loucura e desconcerto ao mundo, ele se anuncia ao mundo:
Yo són aquell qui'n lo temps de la tempesta
quant les més gents festegen prop los fochs
e pusch haver ab ells los propris jochs
vaig sobre neu, descalç, ab nua testa
Eu sou aquele que na tempestade
quando os outros festejam junto aos fogos
e posso ter com eles os mesmos jogos
vago sob neve, descalço, com a cabeça descoberta
E de forma ainda mais eloqüente:
Així disposto, dolç me sembla l'amarch
tant és en mi enfecionat lo gust.
A temps he cor d'acer, de carn e fust
yo só aquest que-m dich Ausiàs March
Assim disposto, o doce me parece amargo
De tanto o gosto me acostumou
Hora tenho o coração de aço, carne ou madeira
eu sou aquele que me chamo Ausiàs March.
Ao procurar uma felicidade no amor que nunca é encontrada, ao mesmo tempo que reconhece sua natureza profundamente contraditória, Ausiàs March culmina no Cant Spiritual, uma longa oração a Deus, em tom patético e grandioso, onde essa separação entre as duas naturezas se mostra mais forte, e a oração é justamente pedindo para que Deus conceda a ele o poder de unir as duas em direção a Ele e à salvação. Suas considerações sobre a natureza humana e a possibildade de realização desta na Terra fazem deste longo poema uma das mais belas criações artísticas ocidentais e, talvez, deste grupo a mais desconhecida.
March viveu em uma época das mais negras da história, pois, ao contrário do que diz Vasari, por exemplo, o século XV foi uma das maiores crises da história: guerras na Europa, a sombra dos muçulmanos mais uma vez ameaçando a Europa, a cristandade em seu ponto mais fraco desde a batalha de Tours setecentos anos antes, os efeitos duradouros da Grande Peste, uma crise econômica seríssima, a falência do sistema feudal provocando um aumento da violência e da mendicância fizeram dos primeiros anos desse século, quando viveu Ausiàs, uma época assolada morbidamente pela idéia da morte, do grotesco, da violência, da efemeridade da morte e da onipresença do mal. Embora isso se aplique também a Ausiàs, é um traço mais marcante da poesia de Villon, por exemplo, mas o que nos marca em relação ao nosso poeta de agora é como ele converte esses pensamentos, de certa forma respostas diretas a males presentes, em especulações da mais alta universalidade.
Mas se também não foi frívolo e ingênuo como os renascentistas da Itália, na crença de que a busca do prazer e da satisfação dos apetites sozinha fosse capaz de trazer a felicidade (em vários pontos March se mostra um grande leitor da Ética de Aristóteles) sua poesia vive nestes dois âmbitos até se resolver gloriosamente no Cant Spiritual, qualquer dia eu traduzo esses 250 versos e coloco aqui, mas por hora, digo que não pronuncio uma sentença completa e realizada sobre esta poesia verdadeiramente notável, mas apenas anoto esboços para a compreensão de uma obra muito pouco lida, mas de valor inacreditável. E fiquem com esse menor:
Sí co·l malalt qui lonch temps ha que jau
e vol hun jorn esforçar-se llevar,
e sa virtut no li pot molt aydar,
ans, llevat dret, soptament, plegat, cau,
ne pren a mi, que m'esforç contr·Amor
e vull seguir tot ço que mon seny vol;
complir no u pusch, perque la força·m tol
un mal estrem atraçat per Amor
Se como o doente que há muito tempo jaz
E quer um dia esforçar-se a levantar
E suas forças não lhe podem ajudar
Ao contrário, diretamente levanta-se e cai
Como eu, que me esforço contra o Amor
E quero seguir tudo aquilo que meu desejo quer
Mas não posso conseguir, porque me tira a força
Um mal extremo induzido pelo amor.
Esse é um post foi um dos primeiríssimos do blog, como ninguém leu, eu trago de volta à tona. Foi publicado no dia 1o. de abril de 2004.
Hoje completa-se 255 anos da composição de uma das maiores óperas de todos os tempos, La Clemenza di Torquemada, composta por Bach, Vivaldi e Monteverdi, com libretto de Da Ponte, Metastasio e Busenello.
Chega a ser revoltante o fato de uma ópera de tamanha qualidade não tenha tido até hoje o reconhecimento necessário do público. Me parece claro que um dos motivos são as questões de autenticidade, sempre rondando esta obra, mas diante de tal música a autenticidade é quase irrelevante.
A história da composição desta obra é extremamente confusa e tem seu começo em 1643:
Após o sucesso absoluto de L'incoronazione di Poppea a dupla Monteverdi e Busanello não se contentou com a glória imortal já adiquirida, eles queriam mais, explorar até o máximo todas as potencialidades desse gênero recém-formado, a ópera. Com efeito, já não bastava a Poppea ser a primeira ópera com enredo histórico, tampouco o fato de se cantar os amores do casal imoral Nero e Popéia, ambos queriam ir além, e, em uma carta a Busenello, mesmo antes de terminar a Poppea, Monteverdi nos revela seus planos para o futuro:
"Estava pensando em compor uma ópera contemporânea (...) como você tem ouvido, em um lugar de Castela há não muito tempo, havia um padre cuja fama não era das melhores, dizem, era um inquisidor (aqui a carta tem uma lacuna), pois eu desejo compor a história desse homem"
Parece que simultaneamente ao trabalho com a Poppea, no máximo de sua criatividade, Monteverdi iniciou o trabalho com esta ópera, ainda não nomeada, a partir de um diálogo entre Isabela e Torquemada, que haveria de ser o ponto máximo de toda a obra. Infelizmente, a morte o impediu de continuar seu trabalho, porém, a música foi publicado no duvidoso Nono livro de Madrigais, mas nunca foi levada à sério por considerarem-na apócrifa. Esse pedaço de música foi guardado em Roma, como um presente para o Sumo Pontífice, e permaneceu por alguns anos na biblioteca do Vaticano.
Quase cem anos mais tarde, quando as crises de insônia do regente espanhol haviam se agravado, e não mais a bella voce de Carlo Broschi conseguia o efeito de outrora, foi chamado à corte de Madrid ninguém menos que o maior libretista da época, e talvez de todos os tempos, Metastasio. Segundo as próprias palavras do rei, era necessário fazer algo de novo, algo de maior, Segovides musae, paulo maioria canamus, comentava pelos corredores do Palacio Real. Pois era preciso escrever algo para mostrar a glória do povo espanhol, era preciso algo que mostrasse ao mesmo tempo, como sua cultura devia não apenas aos cristãos, como também aos judeus e mouros. Era preciso criar o equivalente musical de Cervantes, era a grande discussão na Madri do momento.
Metastasio teve livre acesso aos documentos secretos, teve também poder de decidir quem seria o seu Cervantes musical, que acabou sendo algué não falava espanhol e nem vinha da gloriosa Castela: o veneziano Vivaldi - considerado o grande operista do momento, depois que Handel abandonou a composição de óperas. Metastasio compôs uma trama formidável, mas graças ao espanhol um tanto castiço do romano, foi preferida a versão italiana de Isabela, reina di[sic] Castela, ou seja, Elisabetta, regina di Castela. Alheio a tudo isto, Vivaldi compôs uma de suas melhores óperas: poucas pessoas sabem, mas o primeiro movimento do Verão das Quatro Estações, foi reaproveitado do prelúdio orquestral da cena do auto de fé e o concerto para flauta La Notte é praticamente uma paráfrase de uma das árias de Cristóvão Colombo.
Porém, Vivaldi teve de voltar a Veneza para resolver uma questão com o teatro local, e deixou a partitura interrompida na metade do segundo ato. O rei espanhol, irritado com esta atitude de desprezo, resolveu dispensar os músicos e Metastasio, deu este projeto por encerrado e voltou a ouvir Farinelli. Vivaldi, porém, teve o zelo de guardar os originais, "papel é caro e isso pode servir para mais coisas no futuro, como embrulhar carne", anotou em uma de suas cartas. Anos mais tarde, quando expulso de Veneza, Vivaldi resolveu atender uma encomenda de uma ópera em Dresden, mas aquela parada em Viena seria a última de sua vida.
Parece que Vivaldi estava com a intenção de fazer executar "Elisabetta, regina di Castela" em Dresden, pois só isso explica como que, em 1745 essa partitura, completa, foi aparecer em Leipzig nas mãos do Kapellmeister do lugar, após um leilão de papel usado. Segundo se diz, ele não conseguia acreditar que tinha um original do grande compositor Veneziano em mãos, e tomou aquelas partituras como troféu levando-as para casa.
Bach, que não tinha as pretensões nacionalistas do rei espanhol concluiu a obra e modificou-a bastante em seu conteúdo. O que ele fez foi sistematicamente reconstruir toda a obra, a começar pelo libretto, com a ajuda de Orlando da Ponte, que seria pai de Lorenzo, dando destaque impressionante à figura de Torquemada e reduzindo a parte dedicada aos reis. Além disso, Lorenzo trouxe do Vaticano a antiga partitura de Monteverdi, que havia sido vendida a sua família, depois que o Sumo Pontífice vendeu algumas de suas relíquias para pagar o arquiteto e escultor Bernini.
Bach adicionou o diálogo entre Elisabetta e Torquemada composto por Monteverdi e, além disso modificou totalmente as partes previamente compostas: a quantidade de comentários e referências orquestrais adicionadas na ópera, dando uma unidade impressionante, fazem-me dizer que Bach foi o grande mestre da ópera de todos os tempos. Se em Vivaldi a ópera corre no esquema recitativo-ária simples, Bach anarquiza esta ordem, colocando recitativos acompanhados, lindas passagens solísticas dos instrumentistas, belíssimas passagens orquestrais, até colocando um "dueto canônico cancrizans", baseado na Oferenda Musical.
O que mais impressionou os estudiosos é que o libretto tem uma importância completamente secundária nesta obra, ele apenas é o motivo da existência da ópera, nada mais. A música que Bach faz com que todo o resto seja apenas o resto.
Muito já foi dito sobre esta ópera, mas deixo, mais uma vez, a entrada que Wagner colocou em seu diário logo após travar contato com esta ópera:
"Esta é a ópera mais bela que já vi em minha vida. Tenho que destruí-la, publicando-a estarei eclipsando minha música; e isto é inadmissível"
Sobre a história do renascimento desta ópera, a história é simples
Seus manuscritos circulavam em Berlim com a mesma frequência dos da Paixão de São Mateus, mas Mendelssohn não a quis montar por ver no drama de um executor de judeus querendo sua redenção uma afronta a sua raça. Mendelssohn não vira a extrema dignidade com que seu povo foi tratado, dignidade que não estava no libretto horrível de Mestatasio, mas estava marcada em uma das passagens mais belas da ópera, que é o Sábado, uma longa página descritiva da religiosidade judaica, começa citando uma melodia do Kol Nidre e vai se modificando em uma série de variações que anuncia as Goldberg. Desde então os manuscritos sumiram.
Conta-se que um excêntrico milionário as comprou e guardou para a posterioridade, pois uma ópera sobre judeus não conseguiria a menor empatia na Alemanha do final do século XIX. Os descendentes desse milionário guardaram a relíquia, mas, antes da guerra, fugiram para os EUA e deixaram as partituras na Alemanha, onde foram guardadas como relíquias na casa de ópera de Königsberg. As forças soviéticas de ocupação conseguiram os originais e a levaram para o Hermitage de São Petersburgo, e apenas em 1995 que o mundo pode saber que aquelas estranhas entradas nos diários de Wagner não haviam sido causadas pelo seu recente tratamento com alucinógenos
Outra hora comento sobre a outra grande obra-prima de Bach e completada por Bomtempo, escrita na nebulosa passagem do mestre alemão por Portugal: "O Anel do Gnomo", uma trilogia com um prólogo: "Ouro do Tejo", "As Tágides", "D. Sebastião" e "Crepúsculo dos Avis".
Um dos meus sonhos literários é escrever uma epopéia virgiliana, em latim, sobre a Guerra do Paraguai (ou guerra da tríplice aliança, como querem os Argentinos). Juro que farei cheio daquela pomposidade absolutamente vazia, farei de Pedro II um herói sanguinário (caput, caput Solani uolo, diria ele), Duque de Caxias um antigo herói resignado e Solano Lopez uma versão oitocentista de Fidel Castro.
Para explicar o começo da contenda, eu explicaria que, expulsa do Olimpo, a deusa da falsificação, Paragualia, se estabeleceu como mortal na região do Gran Chaco, e um de seus descendentes, Solano Lopez seria elevado à categoria de caudillo. Este, quando em visita ao imperador Dom Pedro II, trouxe três presentes: uma garrafa de whisky, que era pinga guarani, um grande instrumentista, que era na verdade um tocador de harpa paraguaia, e uma concumbina, que era um "Homo factus mulier". Diante do ultraje, o Imperador exigiu as desculpas de Solano que, por ter recusado, deu motivos para a guerra.
A epopéia seria cheia de frases de efeito (Paraguai Delendus est, ait baro Pimenta Veigae), e cenas realísticas de guerra, princiapalmente entre os heróis Ioannes et Ludovicus Inacius Siluae, um negro que luta pela sua liberdade e um nordestino que procura acabar com a fome no Paraguai, isto é, matando todos os Paraguaios. Plenejo seu fim no clímax, quando Dom Pedro mesmo, que luta sob a proteção de Nossa Senhora da Conceição, descobre que Ludovicus Inacius, seu fiel soldado, cultua o deus pagão Leninis, e ordena a morte desse soldado. Em suas últimas palavras, o bravo herói tornado vilão jura que surgirá um descendente seu que irá vingar a sua morte e ultraje.
Agora, para entrar na competição que anima o Brasil, revelo, em primeira mão, os primeiros trechos do poema:
Baronem invictum cana, Musa, quem primum
missum ab Brasiliae oris, ad Paraguaium
flumen venit, et pugnatu hostes paraguaias
et satanici deletu imperium Solani Lopis
et hostes Tupinicines agitu in Platinam
Lebetem. Memora mihi, musa, causas belli
quis primum offensit regem Petrum
et qua iniuria tranxit odium toto
populo Brasiliae. Fuit ille Paragualieis,
nomine Solano Maiore, trahens regni
domino Petro tria dona per annos regum.
A Musa, non sciebat ille ipsum dolum
Malos maiores laturi esse ad populum!
Canta o Barão invicto, ó Musa, que primeiro
enviado das praias do Brasil veio para o rio
Paraguaio para lugar contra os exércitos paraguaios
e destruir o império do satânico Solano Lopez
e conduzir as hostes tupiniquins para a bacia
Platina. Lembra-me, ó musa, as causas da guerra
quem primeiro ofendeu o rei PEdro
e por qual injúria trouxe o ódio para todo
o povo do Brasil. Foi aquele filho de Paragualia
de nome Solano Maior, trazendo para o senhor
do reino, Pedro, três presentes pelo seu aniversário.
Ah, Musa, não sabia ele que aquele dolo
haveria de trazer males maiores ao povo!
Postquam ruina cecidit in terram Paragualiam
Rex Petrus meditabatur quo vindicare nefas
Criminem militis Ludovici, colantis paganos deos
sanguinolentemque Leninem atque crudelem
Stalinem, ministrorum satan. Ratus loquens
illo, potuerit salvare suum servum et regnum
Brasiliae. Nigram in noctem ad castrum militis
advenit Petrus, Ludovicus quiescabat, sed quia
rex sonitum fecit in castrum intrans, subito
incedit gloriosus miles et magno cum pavore
quaesivit cutella foedere corpus alienum.
Petrus velociter tripudiui et quaerens ensem
"Demens", ait "cur vis me regem tuum occidere?
Pone manum tuam hic, e converte ad Christum
Per salutem tuam e totae tuae generationis!"
"Es tunc christianus et vis me christianum facere?"
respondidit Ludovicus, "non volo tuum deum, patriam
suam nec volo". et ai Petrus: "Accipe veram religionem,
abici falsos leninem et stalinem, colentes satan"
"Nolo", Ludovicus "et volo te occidere, odio autem
patres, patriam e populum Brasiliae, odio deum,
sanctos et plus ultra Catholicam Ecclesiam
quia in vita mea solus Satan est".
Et cum cutella se iacet ad tuendum regem.
Petrus foedit ensem in guttur satanici
colentis. "Morior!" ait "ense foedita
in gutture mea. Maledico te, regem tupinicem
Blasphemo te, post te nunquam erunt reges
regni Brasliae et centesimo anno post mortem tuam
Filius nepotis mei veniet, ut iniuriam hanc
vendicare et delere tuum imperium ab orbe terrae
Depois que a ruína caiu na terra Paraguaia
o Rei PEdro pensava como punir o nefasto
Crime do soldado Luís, que cultuava deuses pagãos
tanto o sangrento Lenin, quanto o cruel
Stalin, ajudantes de Satan. Pensando que falando
com ele, poderia salvar seu servo e o reino
do Braisl. Na Negra noite, foi Pedro à barraca
do soldado, Luís dormia, mas porque
o rei provocou um som ao entrar na barraca, subitamente
levantou-se o soldado fanfarrão e com grande medo
procurou com a faca enterrá-la no corpo estranho.
Pedro rapidamente pulou e procurando a espada, disse:
"Louco! Porque queres matar teu rei?
Põe tua mão aqui e converta-se a Cristo
Pela tua saúde e de tua procedência inteira!"
respondeu Luís :"Então és cristão,
e queres me fazer cristão? Não quero teu deus, e
nem tua pátria quero" E Respondeu Pedro:
"Aceita a verdadeira religião, rejeita os falsos
Lenim e Stalin, cultuadores de satan"
E Luís: "Não quero, o que quer é te matar, pois
odeio teus pais, tua pátria e teu povo do Brasil, odeio Deus
odeio os santos e mais ainda a Igreja Católica,
pois em minha vida só existe Satan"
E com a faca se lança para matar o rei.
Pedro enterrou a espada na garganta do cultuador demoníaco
"Eu morro", disse "com a espada enterrada na garganta.
Te amaldiçoo e blasfemo: depois de ti, nunca mais haverá reis
do reino do Braisl, e no centésimo ano depois de tua morte
Um filho de meu neto virá, para vingar esta injúria
e apagar o teu império da face da terra!
A guerra foi muito representada na arte brasileira, temos aqui dois exemplos:

Este primeiro é a representação da Batalha de Riachuelo, feita por Jean de Cariacica, cerca de 50 anos após a guerra. Podemos notar algumas leves imprecisões históricas, como o uso de alguns instrumentos. Mas o mais importante é notar a dignidade com que Pedro II foi retratado e também Ludovicus, aqui representado segurando a lança com as duas mãos, entretanto já dá para ver em seus olhos os sinais da futura deserção.

Aqui está representada, em bronze magnífico, a luta entre Ludovicus e Pedro segundo, no exato momento em que, após a rejeição da "Rocha de Garunhuns", Pedro procura a espada para se defender. Notem a força descomunal que vemos nas expressões.
Dizendo: "Adeus, ó sol"- Cleômbroto Ambraciota
da elevada muralha se lançou ao Hades
Vendo nada digno no mal da morte, mas, de Platão
tendo lido o livro a respeito da alma.
Calímaco, século III a.C.
E ainda tem gente que acha que o tal do "microconto" é uma coisa nova. A tradição epigramática greco-romana é imensa, copiosa e bastante divertida, pois, diferentemente do tal conto moderno, os epigramistas não se achavam dignos de qualquer reverência que seja, daí uma distância em tom para a solene literatura (?) "nova".
A história da França pode ser comparada à vida de uma pessoa que nasceu lá pela conversão de Clóvis e aos 20 anos se tornou, com Carlos Magno, um jovem forte, corajoso e inteligente, que viveu momentos intensos nessa época, os quais vai recontar muitas vezes, com um pouco de exagero na maturidade. Como é difícil manter sempre o sucesso, ficou um pouco obscurecido por um certo período, mas na meia idade, em 1200, se tornou um adulto maduro, inteligente, rico e bem sucedido, provavelmente o mais famoso de sua época. Mas nem sempre esteve bem fisicamente, logo depois de seu auge, passou por uma violenta crise de meia-idade, com doenças, problemas no trabalho e tudo mais, no entanto, graças a uma mulher que ele encontrou, conseguiu se reerguer.
E, superada a crise, voltou mais interessado em relembrar aquilo que suas madrastas e padastros fizeram na vida, ao mesmo tempo em que se tornava um velho ainda mais rico, extravagante, festeiro e brincalhão. Só que não se é eterno, e a idade traz doenças e outros problemas irreversíveis, e, chegando em 1700, foi se acentuando um esquecimento do passado, começou a ter idéias estúpidas e mirabolantes, foi ficando gagá e também assolado cada vez mais por idéias suicidas. Então, aos 80 anos, em 1789, já completamente sem reação ao mundo e esquecido pelos que outrora o admiravam, ele decidiu acabar com a sua vida. O que tivemos depois Victor-Hugo, Baudelaire, etc, foram apenas as convulsões do cadáver; e o que vemos agora(depois de duas vezes o irmão chato ter tentado roubar seus bens) com Derrida, Foucault, Sartre, é apenas o cheiro de metano advindo da decomposição.
Visitar a França é, pois, como visitar o túmulo de uma pessoa muito importante já morta: as referências e os monumentos de sua grandeza estão lá, mas acabam servindo para reforçar a idéia de que não voltará mais.
Salve Roma Potens, mundi decus, inclyta mater
atque tui tecum valent in saecula nati
et caput orbis, honor magnus, Leo Papa valeto!
Tu quoque iustitiae sceptrum, lux sedis honoris
perpetuis valeas Christo donante thiumphis.
Claviger aetherius, doctor simul inclytus orbis
te precibus pariter conservet semper ubique,
et quos Roma tenet circum sua moenia, sancti
vos precibus pariter sanctis tueantur ubique.
O patres, populos, Romanae gloria gentis
semper in aeternum domino miserante valete!
Alcuini
Salve potente Roma, honra do mundo, ínclita mãe
e contigo nos séculos fiquem seus filhos.
Chefe do globo, glória magna, salve,
tu mesmo, Papa Leão! ceptro da justiça,
luz da honra da sede, possa estar salvo em Cristo
Em perpétuos triunfos. O portador etéreo
das chaves, uma vez mestre ilustre do globo,
Que ele te defenda sempre pelas preces,
e aos que Roma domina em sua muralha,
que os santos ubíquos os protejam com preces.
Ó pais, ó povo, ó glória do povo romano
Para sempre eterna no senhor miseroso,
Salve!
De Alcuíno, tradução minha.
Sempre estranho a cobertura que a media faz de um evento como a bienal do livro do Rio de Janeiro: geralmente focalizam alguma adolescente bastante distinta em sua morfologia lendo alguma coisa, coisa essa que pode ser até o que a ONU não considera como livro - ou seja, publicações com menos de 50 páginas - mas normalmente são livros em uma acepção comum do termo. Logo depois a câmera corta para uma entrevista desta mesma adolescente, comentando sobre a importância do ato de ler. Logo depois, de volta aos estúdios, Pedro Bial, civicamente feliz, comenta emocionado sobre o tal ato de ler e nos incentiva a ler cada vez mais, porque a leitura, e agora cortamos para algum escritor de terceiro escalão como Luis Fernando Veríssimo ou Ruy Castro, é uma porta para a cidadania, a inclusão social e todo o conhecimento das coisas passadas, presentes e futuras, em resumo: a panacéia.
E não é em nada distante disso aquelas campanhas ridículas da Globo mostrando esportistas lendo sob o lema “ler também é um esporte” - se não se mostrasse ser um esporte tão exaustivo para a maioria da população! Quanto aos esportistas, nunca os vi lendo nada “a nível de” um Paulo Coelho, quando muito lêem as obras (no sentido que quiser da palavra) daquele Titã casado com a Malu Mulher.
O que me interessa neste ponto é a dimensão moral que a leitura em si ganha em uma sociedade analfabeta e ao mesmo tempo (talvez exatamente por isso) livresca como a nossa. Que seja notado que em muitos círculos, não separados por ilustração, o grau de inteligência e cultura é intuído a partir do grau de leitura, mas o mais engraçado é quando acontece o contrário. Embora na maioria das vezes uma pessoa culta tenha realmente uma carga de leitura vasta, nela mesma seu valor mais importante não é exatamente a extensão mas sua capacidade de comunicar com as outras e seu valor para a formação cultural não apenas do homem mas de toda sua cultura.
Daí que o que se entende realmente por cultura não é exatamente uma carga amorfa de leitura, mas um grupo chave de livros para serem lidos e relidos sempre, a partir dos quais o conhecimento flui e é originado, a tal idéia dos clássicos. Sim, trata-se de uma volta ao conceito de Paideía grega, que deliberadamente confunde educação com literatura, que seja vista uma educação não como essa propagandeada pela Unesco aí na nossa televisão. E é exatamente aqui que retorno ao primeiro tema deste post, há dois tipos de leitura como há dois tipos de educação.
A primeira educação é a educação do Paulo Freire e de todos aqueles pedagogos que ao alfabetizar largas somas populacionais pensam conduzir o país ao desenvolvimento e à solução de todos seus problemas. Folgo em saber que há gente que ainda acredita nisso, mas não neguemos sua importância, esta educação tem como utilidade manter as engrenagens e o funcionamento do Estado, assim como se torna uma ferramenta para qualquer indivíduo poder sobreviver economicamente.
A segunda educação é a famosa educação liberal cujo objetivo não é economico como a educação primária ou a terciária tecnicista (como o moderno modelo de universidade) ele é antes de tudo moral: a educação liberal pode até ser inútil, mas seus objetivos são exatamente permitir o total desabrochar das capacidades humanas, aquilo que o tio Ari chamava de eudaimonia, que a gente pode traduzir como “felicidade plena”, felicidade causada pelo desenvolvimento máximo das capacidades humanas potenciais. Trata-se sobretudo de o que e como ler.
Quanto a primeira leitura, desinteressada e leve, que corre por tudo sem se fixar em bases, seu único fim pode ser o divertimento, que não é nada mais desviar a atenção, o pensamento de fatores mais importantes como o trabalho de amanhã ou do tempo que passa sem utilidade. É, em suma, um passatempo, e acreditar que alguém pode por ação do Harry Potter pular para um Molière ou um Pirandello, ou ainda mais para um Leibniz ou um Aristóteles é a epítome da ingenuidade. Quem lê Harry Potter está mais próximo de ver seus filmes do que em ler algo mais consistente, que seja Agatha Christie.
Ler por diversão não é crime, não é um ato vil, e nem um desvio moral, apenas não é uma virtude, no sentido nicomacaico mesmo desse termo, areté, valor, excelência, e tal.
Conhecer a história do pensamento, poder interpretar o mundo a sua volta livre das aparências e partidarismos modernos é uma das conseqüências da educação liberal, mas não é seu objetivo, este é a “felicidade plena”, “felicidade última”, em uma espécie de escatologia ética.
Fui invocado a fazer esta lista, como podem notar pela lista abaixo, minha monografia e meus estudos gerais sobre cristianismo dominam quase totalmente o quadro contemporâneo, não chega a ser um tormento, pois é algo pelo qual me interesso muito.
1. Não podendo sair do “Fahrenheit 451″, que livro quererias ser?
A Chanson de Roland, porque me é mais próxima do que a Ilíada, mais concisa do que a Odisséia, mais profunda do que a Eneida, mais refinada do que o Cantar del Mio Cid, mais poética do que o Nibelungenlied e menos tosca que o Beowulf. Porque Roland é tudo aquilo que é ignorado hoje: fiel, justo e pio e porque mais do que nunca a luta entre verdade e mentira foi mais urgente do que hoje.
2. Já alguma vez ficaste perturbado/apanhado por uma personagem de ficção?
Sim, pelo Cálicles do Górgias do Platão, se suas objeções não perturbarem alguém, esse alguém não é uma "pessoa" no sentido ontológico da coisa. E, em uma temática muito próxima, Édipo, o Rei Segismundo do "La vida es sueño" do Calderón, o "Henrique IV" do Pirandello e o "Lear", o desconhecimento do que se passa em volta, seja pela loucura ou orgulho, ou qualquer combinação dos dois, é algo que sempre me perturbou.
3. O último livro que compraste?
As Cartas de Atanásio de Alexandrina a Serapião, o Dicionário de Patrística e Antigüidades cristãs, a Introdução a São Tomás de Aquino do Pe. Chenu. O Timeu de Platão e Tristão e Isolda de Godofredo de Estrasburgo.
4. Os últimos livros que leste?
A História da Educação na Antiguidade, de Henri-Iriné Marrou, Cristianismo Antigo e Paideia grega do Werner Jaeger, Orthodoxy do Chesterton, as duas cartas de Epicuro, a trilogia de Clemente de Alexandria: Protréptico, Pedagogo e os Stromata, Contra Academicos e De Magistro de Santo Agostinho, as Conversas com Igor Stravinsky do Robert Craft.
5. Que livros estás a ler?
A supracitada introdução a São Tomás de Aquino, Cristianismo e Cultura Clássica de Charles Cochrane, Sobre como educar as crianças e como ler os poetas de Plutarco e o Diálogo entre um Judeu, um Cristão e um Filósofo de Abelardo. Além de tudo que eu consegui achar do São Basílio.
6. Que livros levarias para uma ilha deserta?
Um volume com os diálogos de Platão, a Odisséia (que pode me valer inclusive como "guia do náufrago" entre outras coisas), a Bíblia, uma antologia bem completa do movimento trovadoresco em toda a Europa, uma coletânea do siglo de oro espanhol, com teatro (Calderón, Lope de Vega), Poesia (Quevedo, Gongora, Garcilaso de la Vega, São João da Cruz), Prosa (Cervantes e Santa Teresa d'Ávila), a Divina Comédia (pensei na Suma Teológica, mas a Divina Comédia é sua versão em versos) e a Consolação da Filosofia. Como alívio cômico, a Fenomenologia do Espírito de Hegel.
7. Quatro pessoas a quem vais passar este testemunho e por quê?
Ao Fileleno, à Marcela, ao Bernardo e à Milena, só que os três não têm blog, não sei se seria bom para eles que eles abrissem um.

Ontem à noite eu pesava a respeito da questão árabe-palestina e todos os problemas que isso trouxe à humanidade, guerras, terrorismo, bandeiras queimadas e etc. Depois de ter levado todos os pesos em questão e ter racionalmente pensado e meditado, cheguei à única solução que realmente contempla a todas as possibilidades: eu me tornar rei de Jerusalem. E, graças a minha ascendência Hohenstaufen e Angevina, eu tenho certeza de que posso me declarar com bases sólidas.
Mas como posso ter me tornado nobre, mas ainda não deixei de ser brasileiro, prometo que todos aqui nos Wunderblogs e os comentadores mais assíduos terão uma vaguinha no meu feudo
Sempre achei que os conceitos da filosofia moderna sempre fossem mais adequados ao mundo pop do que ao pensamento sério. Por exemplo, é meu sonho escrever um romance policial ou uma série de TV com um herói canino chamado "Imperativo Categórico", o cachorro que não procura o bandido para ganhar seu biscoito por causa de uma profunda lei interna que o obriga a tal.
Outro dos meus sonhos, acho que já falei dele, é montar uma banda de rock cartesiano, teríamos um disco chamado "Cogito" e seria uma banda progressiva e um álbum conceitual, as músicas seguiriam argumentos lógicos: "dúvida radical", "deus enganador", "meditação primeira", "argumento ontológico", e tal; o segundo disco se chamaria "método" e por aí vai. Seria uma música pesadamente bitonal para expressar a separação entre corpo e alma.
E não deixa de ser interessante escrever um filme de terror chamado "Weltgeist", um fantasminha camarada e esquizofrênico em uma luta interna (dialética!) consigo. Apesar de aparentemente inofensivo, as pessoas teriam muito medo de sua extrema prolixidade e capacidade de escrever parágrafos que avançam por páginas e páginas.
Não sei se venderia, mas são personagens cheios de empatia, e esqueci de falar da Conexão Necessária, uma mulher mal amada que nunca se apaixonou por ninguém, até que descobriu ser lésbica e se casou com a Probabilidade.
A música, por não ter um referencial evidente no mundo, como a literatura e as artes plásticas, tem sua referênca, seu valor e seu sentido colocados muito mais na cultura em que está do que em um valor absoluto.
E, evidentemente, com as mudanças culturais, esses valores se transformam. Na Grécia antiga, julgava-se a música capaz de induzir as pessoas aos estados de espírito os quais ela mimetizava, como exemplo bastante característico disso são as restrições feitas por Platão ao uso de determinadas escalas já que induziriam nas crianças comportamentos indesejáveis à nobre classe dos "Phylakes". Mas, desde o começo, com o Pitagorismo, introduziu-se uma visão diferente da música, a música como uma entidade perfeita, coerente, fechada em si, claro, isto vem do estudo das freqüências e da série pitagórica. O Neopitagorismo, parece (temos pouca informação sobre o primeiro pitagorismo, por ser uma seita pesadamente exotérica), ainda levou essa noção de harmonia mais profundamente, a música não é apenas uma ordem em si, mas representa a ordem cósmica dos seres imutáveis, ela é a perfeição em si, metafísica em todos os sentidos que essa palavra quer dizer. Daí que vem o conceito de harmonia das esferas, cada astro se encontra em uma proporção e em uma posição, cada cículo espacial seria uma nota musical, o universo inteiro seria considerado como uma música. E do neopitagorismo entra essa visão para a idade média.
Com efeito, a música fazia parte do ciclo científico do quadrivium (que podemos entender como uma espécie de ensino médio medieval), o ciclo dedicado às matemáticas, sim, a música era considerada uma matemática (se falarmos isso hoje depois do século XIX somos apedrejados, num tempo em que a música é identificada com a emoção em si). E essa visão é aprofundada nesta época, na verdade, o caráter da música medieval é eminentemnete acústico, especialmente a partir da descoberta da polifonia, ela se interessa enormemente pelas consonâncias e dissonâncias, associando a temas teológicos e filosóficos, ou melhor, continuando a interpretação neopitagórica. E isso não vale apenas para a música, como se expande para praticamente todos os domínios artísticos, o simbolismo, as alegorias e os paralelismos da arte desta época impressionam qualquer um. Com efeito, a música medieval prescinde da sua manifestação sonora, que chega a se tornar irrelevante em certos pensamentos: há uma definição fascinante de música feita por Aureliano de Reôme que diz haver três tipos de música: a musica universalis, a música das esferas de que falei lá em cima, a musica mundana, que seria a experiência da música no mundo sublunar (cf. Metafísica de Aristóteles) e a musica humana que seria a música que hoje interpretamos como tal.
Tudo isso serve para também entender à música desse tempo, pois é muita ingenuidade imaginar um Leonin redivivo ficando impressionado com a música de hoje, pois ele provavelmente acharia sem sentido, afina, não é uma música que espelhe o conceito de perfeição, harmonia, consonância, pelo qual ele se orienta.
É muito frutífero notar a evolução da palavra harmonia em todo este contexto cultura medieval, porque, de um significado inicial de "ajustamento", "concordância", passa a significar música em si que é considerada neste aspecto de algo ordenado, como um grande relógio.
O que podemos chamar de renascimento na música é a introdução de dois elementos: o primeiro é o popular, na música extremamente "científica", "acústica" e "erudita", que se tornou a música medieval. E o segundo são os elementos clássicos, tirados da leitura das obras de Boécio e, a partir das traduções para o latim, Plutarco. E são essas influências melódicas (e rítmicas) da música popular, uma ideologia neoclássica, e a música acústica polifônica e harmonicamente orientada, que vão se encontrar no final do século XVI e formar a música ocidental que conhecemos hoje. O pensamento sobre a música, entretanto, jamais vai voltar a ser neoplatônico, e vai tender sempre, desde Locke, Hume, Kant, Hegel até Nietzsche, a ser neoclássico-aristotélico.
É bom voltar a postar, reencontrar os amigos e lubrificar as engrenagens e juntas paradas há muito tempo, mas graças aos sábios conselhos de Felipe Ortiz resolvi postar estas pequenas notas.
Assisti a um programa na Globo News de uma estranheza única: um programa que defendia de forma manifesta o ateísmo. A despeito das minhas opiniões pessoais, nada contra, já que a liberdade de expressão é ao menos anunciada na nossa constituição. Ainda que não haja nada de exatamente ilegal nisso, surge uma dúvida ética em relação a Globo e sua posição em relação a este assunto, uma vez que foi uma das reportagens mais parciais que já vi nesta emissora. O fato de não ter buscado nenhuma opinião em contrário (ainda mais tendo em vista que foram feitas as mais primárias e ridículas acusações à religião no geral) fere qualquer princípio de jornalismo imparcial e demonstra uma estranha linha editorial da importante emissora cujos pronunciamentos a respeito de assuntos religiosos devem ser sempres duvidados e contestados daqui por diante.
Mas ainda não chegamos no pior, a escolha infeliz dos participantes revela mais do que se queria mostrar, três cientistas, das ciências exatas e biológicas a fim de discutir sobre a importância do ateísmo nas relações humanas, como ele seria saudável, limpo etc e tal. Só que, infelizmente, usou-se dos argumentos mais indigentes para falar sobre o assunto, para um biólogo tal lá, o ateísmo e seu filhinho menor, o cientificismo (para não chamar de positivismo), seria vantajoso porque ele traz uma aura de certeza em suas respostas que a religião não tem, por ser baseada na fé, emoção e tal (bem, o argumento é altamente contestável, mas vá lá, vou dar uma chance). E que, por isso, não haveria nada de científico que o aborto fosse uma coisa errada e que, exatamente por isso, sua proibição seria um absurdo lógico.
Pois bem, também não há nada de científico que prove que o assassinato seja errado, aliás, é exatamente o contrário: tanto o aborto quanto o assassinato são logicamente muito mais interessantes do que a defesa da vida, pelo simples motivo que você pode se valer deles para selecionar a melhor cepa de seres humanos para a competição futura, como fazemos com os bois. Aliás, também podemos selecionar os homens, como fazemos com os bois, para fazerem aquilo que são melhores: pessoas muito inteligentes, ou muito bonitas, podem servir de reprodutores; pessoas fortes, de operários e por aqui seguimos na nossa repartição lógica da sociedade. E claro, os incapazes sendo mortos da maneira mais rápida e barata possível, escória indesejável da humanidade.
Os resultados são sempre terríveis, é a velha fábula da velha usurária se repetindo ad infinitum, uma espécie de Ícaro moral da humanidade. A questão em torno disso são os valores de certo e errado serem medidos ou imaginados de maneira científica, querer reservar isto para a ciência é estar disposto para o fracasso. E se já demasiadamente negados, talvez seria o caso de se repensar tudo isto, muitos o fizeram, mas este velho argumento ainda seduz a muitos por um motivo simples:
Pois na verdade a questão da ciência justificar algum ato moral (apenas para evocar o velho Kant) é um mero acessório para uma batalha ética que se dispõe há já algum tempo. Duas visões de mundo conflitantes, excludentes até: uma visão tradicional, religiosa se quiser; e uma visão que não diria moderna, ela é muito antiga (bem, sempre existiu Anacreonte). A primeira busca um limite ou uma medida num sentido maior transcendente à experiência sensível, é de certo modo uma negação do mundo sensível e das experiências daqui "toutou kosmou" em busca de um bem maior, que pode ser alcançado mesmo "en totoi toi bioi", mas que não é nem fácil e nem evidente. A segunda é uma adoção simplória da máxima protagoriana do "homem como sua própria medida", uma tentativa dupla de maximizar os prazeres simples, da chamada alma apetitiva, e de minimizar as constrições causadas pela própria natureza humana, em uma espécie de hedonismo misturado com epicurismo (um tentanto o máximo de prazeres e outro o mínimo de preocupações), o grande problema dessa visão é que, como o próprio Epicuro já notou, a busca de prazeres é por si só trazedora de preocupações, assim como a sua solução para a maior preocupação dos homens, a morte, é bastante insatisfatória.
Basicamente um tenta puxar o homem para a negação de sua animalidade, o outro, busca a afirmação mais baixa de todos seus impulsos apetitivos, em uma superlatização dessa mesma animalidade negada, que chega até ao ponto de tentar acabar exatamente com o que é mais típico do homem em relação ao animal, a consciência de sua efemeridade. E é exatamente aqui que entra um outro ponto crucial para o pensamento de hoje: o uso da biologia e medicina como escape das frustrações geradas exatamente por esta consciência que é terrível ao homem. Muitos vêem hoje na medicina uma possível forma de tentar vencer essa constrição maior e por isso cada vez mais vozes se levantam para apoiá-la, mesmo se para isso seja necessário a morte de indefesos, pois, para a alma apetitiva, sua busca de prazer se torna sempre maior, não reconhecendo limites em si.
De onde chegamos que, embora muitos possam sinceramente não acreditar em Deus, São Tomás diria destes que eles negam a própria evidência do intelecto, a maioria o faz simplesmente que uma crença em algo maior é um obstáculo para o desenvolvimento pleno de seus objetivos baixos e egoístas.